Viagens Pêro Covilhã


Chegado a Portugal da última jornada à Berbéria, Pêro da Covilhã encontrou já escolhido o seu companheiro, e esperando-o para serem ambos despachados. Era um escudeiro, falando também castelhano e arábico, chamado Afonso de Paiva, natural de Castelo Branco, e procedendo de uma família originária das ilhas Canárias, segundo indica Gaspar Corrêa, não sei com que fundamento.

Recebidas as primeiras ordens do rei, os dois viajantes passaram a concertar o plano da expedição, entre si e com os conselheiros habituais de D. João II em tais assuntos. Reuniam-se, para este fim, na casa, que Pedro de Alcáçova, escrivão da fazenda de D. João II, possuía e habitava junto à porta da Alfofa da antiga cerca da cidade. […]

Mais interessante seria averiguar, que instruções escritas ou verbais foram dadas aos dois viajantes pelos cosmógrafos e pelo próprio D. João II, mas não possuímos acerca destes ponto capital informações dignas de absoluta confiança. […]

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

Dos anos seguintes, temos escassas notícias do nosso escudeiro, e sabemos simplesmente que as conservou ao serviço de D. Afonso V até à sua morte. Diz-nos Gaspar Corrêa, que ele havia deixado na Covilhã mulher e família, da qual se lembrava na Abissínia muitos anos depois, mandando-lhe uma certa soma de dinheiro pelos portugueses da embaixada de D. Rodrigo de Lima. […]

Por morte de D. Afonso V, Pêro da Covilhã, passou para o serviço de D. João II, na qualidade de escudeiro da guarda. […]

Não sabemos, se Pêro da Covilhã foi mandado andar em Espanha logo depois da prisão do duque de Bragança, ou no ano seguinte, na ocasião da morte do duque de Viseu; mas no último caso não se demorou ali muito, pois – como vamos ver – teve tempo de fazer duas viagens à Berbéria, antes do ano de 1487.

Também estas duas viagens não podem ter sido muito demoradas, atendendo à estreiteza do tempo; e não é de crer, que unicamente em duas passagens rápidas pelas terras dos mouros ele aprendesse a língua arábica. É mais fácil admitir, que fosse justamente escolhido para aquelas missões por ter já algumas tinturas da língua, alcançadas naturalmente na Andaluzia, onde os moriscos eram ainda então numerosos, e andavam mais ou menos pacificamente mesclados com os cristãos.

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

Quando João II mandou chamar à sua presença Pêro da Covilhã, para o enviar ao Oriente, era este já um homem feito, de quarenta anos ou bem perto deles, e tinha atrás de si uma vida longa e acidentada, que o temperava para novas aventuras. Era natural da Vila da Covilhã, com todas as qualidades, seguramente, de energia e persistência, próprias de um beirão da serra; e devia proceder de uma origem obscura, a julgarmos pelas situações modestas em que começou a servir, e também pelo facto de lhe darem sempre o nome da terra de sai naturalidade, e não um apelido de família.

Foi muito novo para Espanha, a procurar ali serviço em alguma casa nobre e opulenta, facto não raro por aqueles tempos, em que os vínculos de nacionalidade foram, sob certos aspectos, menos apertados do que depois se tornaram. […]

Por ali se demorou Pêro da Covilhã seis ou sete anos, fazendo a sua educação militar, e aprendendo ao menos duas coisas. uma, a falar espanhol na última perfeição, o que depois lhe serviu, como veremos; a outra, a confiar principalmente no seu braço e na sua espada, o que também lhe não seria inútil no futuro. Decorridos estes anos, ali pelos fins de 1474 ou princípios do ano seguinte, veio a Portugal com D. João de Guzman, passando então para o serviço pessoal de D. Afonso V, na qualidade de moço de esporas, mas sendo logo acrescentado a escudeiro, servindo de armas e cavalo. […]

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

O primeiro acto desta nova fase foi a tomada de Ceuta (1415). Era a antiga guerra aos mouros, mas desviada do solo português, já libertado, e levada às terras da própria Mourama – para nos servirmos da expressiva palavra popular. No séquito de D. João I, passou às terras africanas o seu terceiro filho, então ainda uma criança, e que depois devia mais que ninguém influir na nova orientação da vida nacional. O infante D. Henrique era já, por muitos lados, um homem da Renascença: pelo espírito largo e aberto a todas as ideias novas, pela pura curiosidade científica, pelo desejo, eminentemente moderno, de saber para saber. Quando, muito mais tarde, das arribas do Algarve, ele via aos seus pés o oceano azul, desenrolando-se até às brumas do horizonte incinzeirado, irritava-o não lhe conhecer os limites. Parecia-lhe impossível, que aquelas águas, límpidas e claras, tão docemente frisadas nas tardes de Verão pelo norte da costa portuguesa, se convertessem lá ao longe no sombrio e inavegável Mar Tenebroso. E umas após outras, enviava para o sul as suas caravelas, mordido pela febre do desconhecido, a mesma que depois impeliu Colombo e Magalhães, de quem foi o precursor. Mas D. Henrique era também, por outro lado, um homem da Idade Média, um verdadeiro mestre da Ordem de Cristo, herdeira da Ordem do Templo, levado pela índole, pelas tradições, pelos impulsos do seu atavismo de príncipe cristão, para a guerra aos mouros. Essa guerra, concebia-a ele por dois modos: directa nos campos da África Septentrional, em seguimento à empresa de Ceuta, o que o levou à infeliz jornada de Tânger; indirecta, pelos descobrimentos ao longo da costa atlântica, torneando a África dos mouros, reconhecendo-lhes os limites, e – quem sabe? – encontrando talvez ao longe um aliado cristão. E aqui, nós vemos surgir no espírito do Infante a grande figura lendária do Preste. […]

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

De feito, por aqueles princípios do século XV, Portugal começa francamente a ter uma história exterior. Até então, a sua actividade fora principalmente interna: e não admira que assim sucedesse. Ganhar aos mouros as terras do sul, de Soure e Leiria, por Santarém e Lisboa, ao Litoral do Algarve; defender dos exércitos de Leão as terras do norte, delimitando as mal definidas fronteiras, vila a vila e castelo a castelo; sobretudo, ligar em um todo que constituísse uma nação, os retalhos de diversa natureza e diversa procedência, desde as férteis e húmidas veigas do Minho, dote de D. Teresa, até às hortas e figueiras de Silves, ultimamente tomado aos árabes; tudo isto constituiu a obra da primeira dinastia – e não foi pequena. Mas, no princípio do século XV a nação estava formada, a coroa firmemente segura na cabeça do mestre de Aviz, os horizontes desanuviados para os lados de Castela, pelo menos por algum tempo, e Portugal podia entrar numa nova fase da sua história.

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

Tem-se dito geralmente, que a responsabilidade da transferência do Preste João da Ásia para a África pertence aos portugueses, e em primeiro lugar a Pêro da Covilhã. Alguns eruditos não lhe levaram mesmo muito a bem a sua intervenção; e Ludolf, por exemplo, adverte com dureza, que ele se enganou, julgando encontrar na África o que devia procurar na Ásia, porque era ignorante e rude em história e geografia. É necessário distinguir. Se se trata de quem fixou definitivamente no consenso geral, no que hoje chamaríamos a opinião pública, a identidade do Preste João com o Negus da Abissínia, a responsabilidade pertence sem dúvida aos portugueses, e primeiramente a Pêro da Covilhã, e essa responsabilidade não é grave, visto como o antigo Preste asiático se esvaira em fumo. Se se trata, porém, da ideia em si, o caso, muda de figura, porque a ideia é muito mais antiga. […] A situação geográfica do Preste João permanecia, pois, extremamente vaga, e unicamente podemos afirmar que muitos pensaram já em o colocar nas terras da África, antes da viagem de Pêro da Covilhã. É certo, no entanto, que estas notícias do começo do século XV, sobretudo as que alargavam os domínios do Preste João para ocidente até às praias africanas do Atlântico, é certo, digo, que estas notícias deviam exercer uma grande influência no ânimo dos portugueses, que justamente iam entrar em cena.

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

Já nos fins do século XV, o príncipe, que despacha Pêro da Covilhã em sua procura, é D. João II, a quem ninguém pode negar uma vista larga e perspicaz, uma deliberação fria, e intentos eminentemente práticos. O que seduzia estes homens não era por certo o vago sabor poético da lenda, era a importância da realidade possível. Sobre todos eles – especialmente sobre os dos antigos tempos, que a D. João II, moviam já outras razões – sobre todos eles pesavam duras preocupações religiosas e políticas, nascidas da apertada situação da Europa, do isolamento da cristandade ocidental, do poder crescente do Islamismo, da desesperada situação dos principados cristãos da Palestina e da Síria, cuja conservação se julgava necessária, não só à dignidade do cristianismo, como à segurança na Europa. O mito do Preste João é, pois, singular; não vive dos elementos poeticamente vagos, que habitualmente sustentam os mitos, mas das considerações políticas e diplomáticas, que habitualmente os destroem. Forma-se em volta dele uma lenda, uma destas criações da Esperança e da Fé, que resistem a todas as desilusões, porque ele seria um aliado salvador, se fosse real. […]

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

Não estava, porém, na natureza das coisas, que se desfizesse tão prontamente uma lenda, da qual se pode bem dizer, que renascia das suas cinzas. Não cabendo já na Tartária, restava-lhe a Índia; e ali se alojava tanto mais à vontade, quanto este nome era então extremamente vago. Havia várias Índias: uma Índia menor, aquém do Indo; uma Índia maior, entre o Indo e o Ganges; uma Índia terceira, além do Ganges. Esta era uma das divisões mais usadas; mas variava muito, e a nomenclatura ainda mais. Alguns escritores abrangiam mesmo sob o nome de Índia uma parte maior ou menor da África Oriental. Nestas Índias se colocou muito tempo o Preste João, vagamente em qualquer uma delas com maior persistência na Índia terceira, além do Ganges, a mais vasta, a mais remota, a menos conhecida. […]

E agora, antes de passarmos à face africana da questão, podemos resumir brevemente as principais feições da chamada lenda. No ano de 1145, isto é em plena efervescência do espírito das Cruzadas, um bispo asiático traz a Roma a notícia da existência no extremo Oriente de um príncipe cristão, rico e poderoso. […] Em volta da notícia formou-se de certo mais tarde, e é natural que se formasse, uma lenda popular, na qual entrariam como materiais, a memória do antigo Presbyteros Johannes de Efeso, a longevidade sobrenatural atribuída a S. João Evangelista, a esperança do reino de Deus na terra, e outros elementos místicos desta espécie de criações. […]

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

Deixando outras notícias de viajantes, que nos levariam muito longe, devemos, no entanto, examinar um pouco mais longamente a que nos dá Marco Polo. O livro deste célebre veneziano foi muito lido, antes e depois de impresso. Durante séculos constituiu umas das principais ou a principal autoridade em coisas da Ásia. Em Portugal foi lido e estudado já no tempo do infante D. Henrique; foi vertido em português e impresso logo depois de 1500; e ainda anos mais tarde os nossos eruditos, como Damião de Góis e João de Barros, citavam correntemente o que ele havia dito do Preste João. A versão de Marco Polo interessa-nos, por tanto, pela sua essência, e ainda mais pela autoridade de que gozou, porque representa a opinião recebida e clássica durante muito tempo. Marco Polo conta detidamente – escrevia em 1298 pouco mais ou menos – a história daquele grande senhor, de cujo poder todos falavam na Europa, história passada menos de um século antes. Conta como o Preste João se indispôs com os tártaros, que antes eram seus tributários; como um novo, e ainda relativamente obscuro, chefe dos tártaros lhe mandou pedir uma filha em casamento; como o Preste, indignado com aquela audácia de um antigo súbdito e servo seu, tratou desabridamente os enviados: como aquele obscuro chefe dos tártaros, que era nem mais nem menos do que Chenghiz-Khan, se ressentiu e marchou contra ele, desbaratando-o e matando-o numa batalha campal nas planícies de Tenduc. […]

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

A carta é evidentemente falsa, e sem dúvida teria sido forjada na Europa; talvez simples impostura de algum aventureiro literário, que daí quisesse tirar proveito, talvez uma pia fraude dos que assim pretendiam fortalecer a coragem dos cristãos, confirmando a existência de um natural e poderoso aliado. É certo, no entanto, que a carta foi naqueles tempos geralmente considerada verdadeira; e a lenda, assim ampliada, foi passando de simples e mal fundado boato, a realidade quase segura e provada. Tanto, que alguns anos depois, no de 1177, o mesmo papa Alexandre III, embora ignorasse onde realmente se poderia encontrar aquele misterioso personagem, parece ter-lhe enviado, ou procurado enviar-lhe, uma carta assim dirigida: Charissimo in Christo filio, illustri et magnifico indorum regi, sacerdotum sanctissimo. […]

A lenda devia, porém, ter um fundo real, que é necessário procurar. E em primeiro lugar podemos estabelecer, que o Preste João dos primeiros tempos, do séc. XII, XIII e em parte ainda do século XIV, se colocava geralmente na Ásia. E digo geralmente, porque não é lícito afirmar, que ninguém então pensasse na África, e nomeadamente na Etiópia. Algumas opiniões valiosas, posto que bastante isoladas, julgam a carta de Alexandre III dirigida já ao rei da Abissínia. Mas, mesmo que a carta seja autêntica e fosse dirigida ao rei abexim – e nenhuma das coisas está provada – fica de pé o que dissemos, isto é, que a opinião geral se voltava para a Ásia. […]

“Viagens de Pêro da Covilhã”, Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

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