Tratado das Cousas da China - Frei Gaspar da Cruz


Nenhuma coisa há na terra que deixem perder, por vil que seja. Porque os ossos, assim de cães como de todos os animais, aproveitam, fazendo deles brincos e lavrados em lugar de marfim; assentam-nos em mesas, leitos e noutras coisas de galantarias. Não se lhe[s] perde trapo de nenhuma qualidade, porque assim dos delgados como dos grossos, que não sejam de lã, fazem papel grosso e delgado. E fazem papel de cascas das árvores e de canas e de panos de seda, e no de seda escrevem; o demais serve-lhe[s] para enrolar entre as peças de seda.

Até o esterco do homem aproveitam e é comprado por dinheiro, ou a troco de hortaliça, e o levam das casas; de maneira que eles dão dinheiro, ou coisa que o valha, por lhe[s] deixarem limpar as privadas. Ainda que cheira mal pela cidade quando o levam às costas, por evitar o mal cheiro o levam em selhas muito limpas por fora; e posto que vão descobertas, todavia parece que é limpeza das terras e cidades. Em algumas cidades se usa irem estas selhas cobertas por não dar nojo. Serve-lhe este esterco para estercarem as hortas, e dizem que com ele cresce a hortaliça a olho. Misturam-no com terra e curam-no ao sol, e assim se servem dele. Usam em tudo mais de engenho que de força, pelo que com um boi lavram, fazendo o arado de tal engenho que corta bem a terra, ainda que não são os regos tamanhos como entre nós.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)

De Champá, que, como dissemos, confina com Chauchinchina, até toda a Índia há muitas terras desaproveitadas e feitas brenhas e matos, e são geralmente os homens pouco curiosos de ganhar e juntar, porque não ganham tanto que mais lhe[s] não tiranizem, o que têm somente é seu enquanto el-rei quer e não mais. De maneira que, como os reis sabem que algum seu oficial tem muito dinheiro, o mandam prender e tratar tão mal até que lhe faz[em] arrevesar quanto tem ajuntado. Pelo que há muitos naquelas partes que, se ganham um dia ou semana algumas moedas, não hão-de trabalhar até que não consumam e gastem tudo o que têm ganhado em comer e beber, e fazem-no porque se acertar de vir alguma tirania não achem que lhe[s] tomar. Daqui vem, como digo, haver na Índia muitas terras por muitas partes desaproveitadas, o que não é na China, porque cada um se goza do fruto de seu trabalho.

Daqui vem que toda a terra que na China pode dar qualquer género de fruta recebendo semente é aproveitada. Os altos, que não são tão bons para pão, têm mui formosos pinhais, semeando[-se] ainda por entre eles alguns legumes onde pode ser. Nas terras enxutas e tesas semeiam trigo e legumes. Nas várzeas, que são alagadiças, que são muitas e mui compridas, semeiam arroz, e dão algumas destas várzeas duas e três novidades no ano. Só as serras altas que são cortadas dos tempos e não são dispostas para se plantarem ficam desaproveitadas.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)

Um dia, entrando eu e uns portugueses em casa do vedor da fazenda sobre o livramento de uns portugueses que estavam presos, porque lhe pertencia o caso pelo grande interesse que dali vinha para el-rei, entrou muita gente connosco para nos ver, entre os quais entrou um seu sacerdote. Em dizendo o regedor “Assentem-se”, deitam todos a correr a grande pressa, correndo o padre como cada um dos outros por medo dos açoites.

Do dito consta a gente ociosa nesta terra ser aborrecida, e quem o não ganha não no comerá. Pelo que a cada um convém catar modo e maneira de vida com que sustente, e trabalha cada um de buscar a vida, porque o que ganha livremente o goza e gasta à sua vontade, e o que lhe fica por morte é dos filhos e netos, pagando somente direitos reais, assim dos frutos que colhem como das fazendas em que tratam, que não são pesados. O maior tributo que têm é cada pessoa casada, ou que tem casa sobre si, cada um ano paga de cada cabeça de sua casa dois mazes, que são sessenta reis. Nenhuma tirania lhe[s] fazem mais que só pagarem seus direitos. Ficam suas fazendas e tudo o que podem haver livres para o poderem gozar à sua vontade, pelo que todos trabalham de ganhar e de lavrar as terras e aproveitá-las.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)

Capítulo X
Do aproveitamento da terra e ocupações dos homens

É a China terra quase toda mui bem aproveitada, porque, como a terra seja muito povoada, a gente muito em demasia e os homens gastadores - e tratando-se muito bem no comer e beber e vestir e no demais serviço de suas casas, principalmente, que são muito comedores -, cada um trabalha de buscar vida e todos buscam diversos modos e maneiras de ganhar de comer e como sustentarem seus grandes gastos. Faz ajuda muito a isto ser a gente ociosa nesta terra muito aborrecida e mui odiosa aos demais, e quem o não trabalhar não no comerá, porque comummente não há quem dê esmola a pobre. Pelo que se acertava algum pobre de pedir esmola a algum português e o português lha dava, riam-se os chinas dele, e zombando diziam: “Para que dás esmola a este que é velhaco? Vão ganhar!”

Somente alguns chocarreiros recebem prémio, [quando] subindo-se nalgum alto ajuntam gente e põem-se a contar patranhas para que lhe[s] dêem alguma coisa. Os padres e seus sacerdotes dos seus ídolos comummente são aborrecidos e desestimados, pelos terem por gente perdida e ociosa, donde os regedores não lhe[s] perdoam, mas por qualquer leve culpa lhe[s] dão muito açoite. Pelo que açoitando uma vez um regedor, diante [de] um português, um sacerdote seu, e o português dizendo-lhe porque tratava tão mal os seus padres e os tinham em tão pouco estima, respondeu-lhe: “Estes são velhacos ociosos e perdidos”.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)

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