Sex 25 Mai 2007
TRATADO DAS COUSAS DA CHINA (IV)
Publicado por Leonel Vicente em Tratado das Cousas da China - Frei Gaspar da CruzComentários
Nenhuma coisa há na terra que deixem perder, por vil que seja. Porque os ossos, assim de cães como de todos os animais, aproveitam, fazendo deles brincos e lavrados em lugar de marfim; assentam-nos em mesas, leitos e noutras coisas de galantarias. Não se lhe[s] perde trapo de nenhuma qualidade, porque assim dos delgados como dos grossos, que não sejam de lã, fazem papel grosso e delgado. E fazem papel de cascas das árvores e de canas e de panos de seda, e no de seda escrevem; o demais serve-lhe[s] para enrolar entre as peças de seda.
Até o esterco do homem aproveitam e é comprado por dinheiro, ou a troco de hortaliça, e o levam das casas; de maneira que eles dão dinheiro, ou coisa que o valha, por lhe[s] deixarem limpar as privadas. Ainda que cheira mal pela cidade quando o levam às costas, por evitar o mal cheiro o levam em selhas muito limpas por fora; e posto que vão descobertas, todavia parece que é limpeza das terras e cidades. Em algumas cidades se usa irem estas selhas cobertas por não dar nojo. Serve-lhe este esterco para estercarem as hortas, e dizem que com ele cresce a hortaliça a olho. Misturam-no com terra e curam-no ao sol, e assim se servem dele. Usam em tudo mais de engenho que de força, pelo que com um boi lavram, fazendo o arado de tal engenho que corta bem a terra, ainda que não são os regos tamanhos como entre nós.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)