Dom Vasco da Gama almirante e vizo-rei
Anno de 1524
O conde da Vidigueira almirante da India foi por vizo-rei, e capitão-moor; partio a nove de Abril. Capitães: Dom Henrrique de Meneses, Pero Mascarenhas, Loppo Vaz de Sampaio, Antonio da Silveira, Dom Fernando de Monroy, Dom Simão de Meneses, Francisco Sá vedor da fazenda do Porto para ir fazer fortaleza na Sunda, Afonso Mexia, Antonio Carvalho, Francisco de Brito. Em caravelas Christovão Rosado, Loppo Lobbo, Rui Gonçalves, Mossem Gaspar, Pero Velho. Dom Estevão da Gama filho do vizo-rei foi capitão-moor do mar feito por ElRei.
Christouão Rosado e Francisco de Brito se perderão indo de Moçambique pera a India, e Dom Fernando de Monrroy de que se salvou toda a gente.
Vindo o vizo-rei com toda a armada demandar a costa da India na paragem de Dabul antes de ver terra, hum dia antes, em amanheçendo sem vento tremeo o mar muitas vezes por espaço de h~ua hora, o que deu grande torvação em toda a armada, de sorte que cada hum pertendia salvar-se, cuidando serem perdidos, até que o almirante declarou o que era, dizendo: - Treme a terra e o mar de nós – e que por isso não areçeassem nada.
Na nao em que foi o conde vizo-rei embarcou preso por mandado d’ElRei o governador Dom Duarte de Meneses.
A náo em que vinha por capitão Dom Luis de Meneses irmão do governador despareçeo na viagem; por morte do conde vizo-rei sucçedeo no governo Dom Anrrique de Meneses.
Desta armada que levava tres mil homens muita parte dos quaes eram fidalgos, cavalleiros, e moradores da Caza d’ElRei, se perdeo de Moçambique para a India Francisco de Brito, e assim se perdeo o galeão de D. Fernando Monroy em os baixos de Melinde de que se salvou a gente. Das caravellas se perdeo Christovão Rozado seguindo o almirante a sua viagem com estas vellas menos. Huma quarta-feira vespera de Nossa Senhora de Setembro às outo horas da noute lhe tremeo o mar tam rijamente com tamanhos, e continuos movimentos, que cada huma das náos parecendo-lhe que ella só padecia este tremor, se houvesse por perdida sem entender a cauza, e cuidando serem agoagens sobre alguns baixos com as bombardas se faziam sinais humas às outras, e huns acudiam ao leme que não podiam ter, outros à bomba, à sonda, e muitos a barris, e taboas em que se pudessem salvar, sem huns aos outros se poderem valer, nem entender, athé que o almirante deu em conhecimento do que era, dizendo-lhes: – Amigos nam hajais medo, antes prazer, e alegria, que isto hé tremor de terra, e o mar treme de nós. E ficarão ganhando daqui – além do prazer de se verem fóra daquelle perigo – que o temor daquelle caso, que durou hum quarto de hora, fez levantar muitos enfermos, donde jaziam com sua febre, buscando modo de se salvar, e assim ficou a natureza tam sobresaltada que recolhendo-se a quentura das partes per que andava derramada, a seu proprio centro, e vazo, ficarão sãos sem a febre, que tinhão. Passado este tremor sobrevio outro cazo de nam menor admiração, e foi, que sem vento, nem outros sinais precedentes veio huma chuva de agoa tam grossa, que parecia algum diluvio.
(Leitura e anotações de Maria Hermínia Maldonado, obra publicada pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)