Peregrinação - Fernão Mendes Pinto


E querendo-lhe alguns dar algumas razões contra isto, as não quis ouvir, mas deixando-os assim a todos, depois de lhe tomar primeiro as homenagens e lhe dar juramento nos Santos Evangelhos, se meteu com seis que levava, por dentro do arvoredo no bosque, e caminhando por ele mais de quatro tiros de espingarda, ouviu adiante tanger um sino, e atinando pelo som onde era, foi dar numa ermida muito mais nobre e rica que a outra em que no dia anterior tínhamos entrado, na qual estavam dois homens quase ambos de uma mesma idade, vestidos em trajos de religiosos e com suas contas ao pescoço, por onde inferiu que eram ermitães, e dando neles de súbito os tornou a ambos, de que um ficou tão pasmado que por muito tempo não falou a propósito.

Dos nossos, seis ou quatro entraram na ermida e apanharam do altar um ídolo de prata de bom tamanho, com uma mitra de ouro na cabeça e uma roda na mão, que não soubemos determinar o que significava, e tomaram mais três candeeiros de prata com suas cadeias muito compridas. E tornando-se António de Faria a recolher muito depressa, com os dois ermitães quase a rasto e com as bocas tapadas, chegou onde as embarcações estavam, e recolhido nelas se fez logo à vela com muita pressa e se foi pelo rio abaixo; e fazendo perguntas a um dos dois que ia mais em seu acordo, e com grandes ameaças se mentisse, respondeu que era verdade que um santo homem de uma daquelas ermidas, de nome Pilau Angirou, chegara já muito de noite à casa do jazigo dos reis, e batendo muito apressadamente à porta dera um grito muito alto, dizendo:

- Ó gentes tristes e ensopadas na bebedice do sono da carne, que professaste com juramento solene a honra da deusa Amida, prémio rico do nosso trabalho, ouvi, ouvi, ouvi o miserável que antes nunca tivera nascido. Sabei que entraram gentes estrangeiras do cabo do mundo, com barbas compridas e corpos de ferro, na casa dos vinte e sete pilares, de que um santo homem que me isto disse era vassoura do chão, e roubando nela o tesouro dos santos, botaram com desprezo seus ossos no meio da terra e os contaminaram com escarros podres e fedorentos, dando muitas ridadas como demónios obstinados e contumazes no primeiro pecado, pelo que vos requeiro que ponhais cobro em vossas pessoas, porque se diz que tem jurado de quando for manhã nos matarem a todos, e por isso ou fugi ou chamai quem vos socorra, pois por serdes religiosos vos não é dado tomardes na mão coisa que tire sangue - a cujas vozes toda a gente acordou e acudindo rijo à porta o acharam quase morto deitado no chão, de tristeza e cansaço, por ser já muito velho, pelo que todos os grepos e menigrepos fizeram os fogos que viste, e em grande pressa mandaram logo recado às cidades de Corpilem e Fumbana, para que, com muita brevidade, acudissem com toda a gente que se pudesse juntar, e apelidassem toda a terra para que fizesse o mesmo, pelo que sem dúvida vos afirmo que não tardarão mais que o tempo de se juntarem, porque pelo ar, se puder ser, virão voando com tanto ímpeto como açores esfaimados quando lhes tiram as prisões. E sabei que esta é a verdade de tudo o que se passa, pelo que vos requeiro que nos deixeis ir e não nos mateis, porque será maior pecado que o que ontem cometeste. E lembremos que nos tem Deus tomado tanto à sua conta pela penitência que fazemos, que quase nos vê em todas as horas do dia, e trabalhai por vos pordes a salvo, porque vos afirmo que a terra, o ar, os ventos, as águas, as gentes, os gados, os peixes, as aves, as ervas, as plantas, e tudo o mais que hoje é criado, vos há-de empecer e morder-vos tanto sem piedade que só aquele que vive no céu vos poderá valer.

Certificado António de Faria da verdade deste negócio, pela informação que este ermitão lhe dera, se foi logo a grande pressa pelo rio abaixo, depenando as barbas e dando muitas bofetadas em si por ter perdido por seu descuido e ignorância uma tamanha coisa como a que tinha cometido, se chegara com ela ao cabo.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

Cap. 78 - Como esta primeira noite fomos sentidos, e por que causa, e do mais que sucedeu sobre isso

Depois de ser embarcado António de Faria, e nós todos com ele, que seria já quase às ave-marias, nos passámos a remo à outra parte da ilha, e surtos a cerca de um tiro de falcão, dela, nos deixámos assim estar até quase à meia-noite, com determinação, como já atrás disse, de logo que ao outro dia fosse manhã, tornarmos a sair em terra e acometer as capelas dos jazigos dos reis que estavam a menos de um quarto de légua de nós, para nelas carregarmos ambas as embarcações, o que quiçá poderia muito bem ser, se nos quiséramos negociar ou António de Faria quisesse tomar o conselho que lhe davam, o qual foi que pois que até então não éramos sentidos, que trouxesse consigo o ermitão para que não desse recado na casa dos bonzos do que tínhamos feito, o que António de Faria não quis fazer, dizendo que seguro estava disso, tanto por ser o ermitão tão velho como todos víamos, como por ser gotoso e ter as pernas tão inchadas que se não podia ter nelas; porém não foi assim como ele cuidava, porque o ermitão logo que nos viu embarcados (segundo o que depois soubemos) assim trôpego como estava, se foi em pés e em mãos à outra ermida que distava da sua pouco mais de um tiro de besta, e deu conta ao ermitão dela do que tínhamos feito, e lhe requereu que pois ele se não podia bulir por causa da sua hidropisia, fosse ele logo dar rebate na casa dos bonzos, o que o outro ermitão logo fez. [...]

Porém António de Faria, sem fazer caso do que eles diziam, saltou em terra com seis homens de espadas e rodelas, e subiu pelas escadas do cais acima, quase afrontado e fora de si, e subindo desatinadamente por cima das grades de que toda a ilha, como já disse, era cercada, correu como doido de uma parte para a outra, sem sentir coisa alguma, e tornando-se às embarcações muito afrontado conversou com todos sobre o que nisto se devia fazer, e depois de se darem muitas razões que ele não queria aceitar, lhe fizeram os mais dos soldados requerimento que em todo o caso partissem logo, e ele receoso de haver algum motim, respondeu que assim o faria, mas que para sua honra lhe convinha primeiro saber o de que havia de fugir, e que portanto lhes pedia muito por mercê que o quisessem ali esperar, porque queria ver se podia tomar alguma língua que o certificasse mais na verdade desta suspeita, e que para isso lhes não pedia mais de espaço que só meia hora, visto que ainda havia tempo para tudo antes que fosse manhã.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

- É certo que agora vejo o que nunca cuidei que visse nem ouvisse, maldade por natureza e virtude fingida, que é furtar e pregar. Grande deve ser a tua cegueira, pois confiado em boas palavras gastas a vida em tão más obras. Não sei se gracejará Deus contigo no dia da conta!

E não o querendo mais ouvir, se virou para António de Faria que neste tempo já estava em pé, e com as mãos alevantadas lhe pediu com muita eficácia que não consentisse cuspirem-lhes os nossos no altar, porque o sentia mais que tirarem-lhe mil vezes a vida, ao que ele respondeu que assim se faria, e em tudo o mais que mandasse seria logo servido, de que o Hitocou ficou algum tanto consolado.

E por ser já muito tarde, determinou António de Faria de se não deter então ali mais; porém, antes que se recolhesse, vendo que lhe era necessário tomar informações de algumas coisas importantes, para se certificar de alguns receios que tinha, perguntou ao ermitão que gente haveria em todas aquelas ermidas, a que ele respondeu que trezentos e sessenta talagrepos somente, um em cada ermida, e quarenta menigrepos que os serviam de fora e os proviam de mantimento e da cura de alguns doentes. E perguntando se vinham os reis da China àquele lugar algum ano, ou em que tempo, respondeu que não, porque o rei, por ser filho do Sol, ele podia absolver a todos e ninguém o podia condenar a ele. E perguntando se tinham aqueles ermitões alguma maneira de armas, respondeu que não, porque aos que pretendiam caminhar para o céu, não lhes eram necessárias armas para ofender, senão paciência para sofrer. E perguntado por que causa estava aquela prata naqueles caixões de mistura com aqueles ossos, disse que era porque era esmola que aqueles defuntos levavam consigo, para láno céu da Lua se valerem dela em suas necessidades. E depois de lhe perguntarem outras muitas coisas, perguntando por último se tinham mulheres, respondeu que aos que houvessem de dar vida à alma, lhes era muito necessário não gastarem dos deleites da carne, porque claro estava que no favo doce do mel se criava a abelha que, picando, escandalizava e magoava os que o comiam. António de Faria, abraçando-o então, e pedindo-lhe muitos perdões ao seu modo, que eles chamam de charachina, se veio embarcar já quase noite, com determinação de ao outro dia tornar a acometer as outras ermidas onde tinha por novas que havia uma muito grande quantidade de prata e alguns ídolos de ouro, mas os nossos pecados nos tolheram vermos o efeito disto que com tanto trabalho e risco das vidas tínhamos procurado, havia passante de dois meses e meio, como logo se dirá.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

Cap. 77 - Do mais que António de Faria passou nesta ermida até se embarcar 

Depois de ser recolhida toda a presa que ali havia, e mandada às embarcações, pareceu bem a todos não se bulir por então com mais nada, tanto por não conhecermos a terra, como por ser já quase noite, esperando que ao outro dia o poderíamos fazer mais à nossa vontade. E querendo-se António de Faria embarcar, se quis despedir primeiro do ermitão, e o consolou com boas palavras, dizendo que lhe pedia muito pelo amor de Deus que não se escandalizasse, porque lhe certificava que a muito pobreza em que se via o fizera fazer aquilo em que na verdade não era de sua condição, e que depois que falara com ele, arrependido do que cometera, se quisera logo tornar, porém que aqueles homens lhe foram à mão e lhe juraram todos que o haviam de matar se tal fizesse, e que por isso, constrangido ele de medo, se calara e consentira naquilo que claramente via ser tamanho pecado como ele tinha dito, pelo que levava determinado, logo que se visse desembaraçado deles, ir-se logo por esse mundo a fazer tanto penitência quanto entendia que lhe era necessária para satisfação de tamanho crime. Ao que o ermitão respondeu:

- Preza ao Senhor que vive reinando sobre a fermosura de suas estrelas, que te não faça mal entenderes tanto dele quanto mostras nessas palavras, porque te afirmo que muito maior perigo corre o que isso entende, se faz más obras, que o ignorante sem lei, a quem a falta do entendimento está desculpando com Deus e com o mundo.

Aqui se quis intrometer na conversa um dos nossos, de nome Nuno Coelho, e lhe disse que se não agastasse por tão pouco, a quem ele respondeu:

- Muito mais pouco é o temor que tu tens da morte, pois gastas a vida em feitos tão sujos quão suja eu creio que estará tua alma, das portas desse monturo da tua carne para dentro. E se queres mais prata, como mostras na sede da tua cobiça, para com ela acabares de encher o fardel do teu infernal apetite, nessoutras casas que por aí estão, acharás com que bem te enchas até rebentares, e quiçá que não errarás, porque já que por essa que tens tomado hás-de ir para o Inferno, vai também por essoutra, porque quanto mais peso levares sobre tua cabeça, tanto mais depressa irás ao fundo, como parece pelo que tuas más obras de ti testemunham.

E tornando o Nuno Coelho a replicar que lhe rogava que tomasse em tudo paciência porque assim o mandava Deus em sua santa lei, o ermitão pondo a mão na testa a modo de espanto, e bulindo cinco ou seis vezes com a cabeça, sorrindo-lhe do que lhe tinha ouvido, lhe respondeu: 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

- Quero-te declarar como a homem que me pareces discreto, o em que consiste o perdão do pecado em que tantas vezes me apontaste, para que não pereças para sempre sem fim no derradeiro bocejo da tua boca. Já que me dizes que a necessidade te obrigou a cometeres delito tão grave e que tens propósito de restituir o que tomares antes que morras, se a possibilidade te der lugar para isso, farás três coisas que te agora direi: a primeira é restituíres o que tomares, antes que morras, para que não se impeça da tua parte a clemência do alto Senhor; a segunda, pedires-lhe com lágrimas perdão do que fizeste, pois é tão feio diante da sua presença, e castigares por isso a carne continuamente de dia e de noite; e a terceira, repartires com os seus pobres tão liberalmente como contigo, e abrires as tuas mãos com discrição e prudência, para que o servo da noite não tenha que te arguir no dia da conta. E por este conselho te peço que mandes a essa tua gente que torne a recolher os ossos dos santos, para que não fiquem desprezados na terra.

António de Faria lhe prometeu que o faria assim, com muitas palavras de cumprimentos, de que o ermitão ficou algum tanto mais quieto, ainda que não de todo satisfeito. E chegando-se mais para ele, o começou de amimar e afagá-lo com palavras brandas, e de muito amor e cortesia, certificando-lhe que depois que o ouvira se arrependera muito de ter cometido aquela viagem, mas que os seus lhe diziam que se se tornasse, o matariam logo, e que isto lhe descobria, em grande segredo; ao que ele espondeu:

- Queira Deus que seja isto assim, porque ao menos não terás tanta pena como essoutros ministros da noite, que como cães esfaimados me parece que toda a prata do mundo os não poderá fartar. 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

O Hiticou (que assim se chamava o ermitão), depois de estar cuidando consigo um pouco no que ouvira, olhando para António de Faria, lhe disse:

- Muito bem ouvi o que disseste, e também entendi a danada tenção em que o sulco da tua cegueira, como piloto do inferno te traz a ti e a essoutros à côncava funda do lago da noite, porque em vez de dares graças a Deus por tamanha mercê que te fez, o vens roubar. Pois pergunto: se assim o fizeres, que esperas que faça de ti a divina justiça, no derradeiro bocejo da vida? Muda esse teu mau propósito e não consintas que em teu pensamento entre imaginação de tamanho pecado, e Deus mudará de ti o castigo. E fia-te de mim que te falo verdade, assim me ela valha enquanto viver.

António de Faria, fingindo que lhe parecia bem o conselho que ele lhe dava, lhe pediu muito que se não agastasse porque lhe certificava que não tinha então outro remédio de vida mais certo que aquele que ali vinha buscar; a que o ermitão olhando para o céu e com as mãos levantadas, disse chorando:

- Bendito sejas, Senhor, que sofres haver na terra homens que tomem como remédio de vida ofensas tuas, e não como certeza de glória servir-te um só dia.

E depois de estar um pouco pensativo e confuso com o que via diante, tornou a pôr os olhos no tumulto e rumor que todos fazíamos no desarrumar e despregar dos caixões; e olhando para António de Faria que neste tempo estava em pé, encostado ao montante, lhe rogou que se sentasse um pouco a par dele, o que António de Faria fez com muita cortesia e muitos cumprimentos, porém não deixou de acenar aos soldados que continuassem com o que tinham entre mãos, que era escolher a prata que se encontrava nos caixões, de mistura com os ossos dos finados que também estavam dentro, o que o ermitão sofria tão mal que duas vezes caiu esmorecido do banco em que estava sentado, para baixo, como homem que sentia aquilo como ofensa grave. E tornando pesadamente a continuar com António de Faria, lhe disse:

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

 Cap. 76 - Como António de Faria chegou a esta ermida e do que se passou nela

Caminhando António de Faria para a ermida que tinha diante, com o maior silêncio que podia, e não sem algum receio, por não saber até então o em que se tinha metido, levando todos o nome de Jesus na boca e no coração, chegámos a um terreiro pequeno que estava diante da porta, e ainda até aqui não houvemos vista de pessoa nenhuma, e António de Faria que ia sempre adiante com um montante nas mãos, apalpou a porta e a sentiu fechada por dentro, e mandando a um dos chins que estava junto dele, que batesse, ele o fez por duas vezes e de dentro lhe foi respondido:

- Seja louvado o criador que esmaltou a formosura dos céus! Dê a volta por fora e saberei o que quer.

O chin rodeou a ermida e entrou nela por uma porta travessa, e abrindo a em que estava, ele com toda a gente entrou dentro da ermida e achou dentro dela um homem velho, que pelo parecer seria de mais de cem anos, com uma vestidura de damasco roxo muito comprida, o qual no seu aspecto parecia ser homem nobre, como depois soubemos que era, o qual em vendo o tropel da gente, ficou tão fora de si que caiu de focinhos no chão, e tremendo de pés e de mãos não pôde por então falar palavra nenhuma; porém, passado um grande espaço em que a altercação deste sobressalto ficou quieta e ele tornou a si, pondo os olhos em todos, com rosto alegre e palavras severas perguntou que gente éramos ou que queríamos.

O intérprete lhe respondeu por mandado de António de Faria que ele era um capitão daquela gente estrangeira natural do reino de Sião, e que vindo de veniaga num junco seu com muita fazenda para o porto de Liampó, se perdera no mar, do qual se salvara milagrosamente com todos aqueles homens que ali trazia consigo, e que porque prometera vir em romaria àquela terra santa a dar louvores a Deus por o salvar do grande perigo em que se vira, vinha agora a cumprir a sua promessa, e juntamente lhe vinha pedir ele alguma coisa de esmola com que se tornasse a restaurar de sua pobreza, e que ele lhe protestava que dali a três anos lhe tornaria dobrado tudo o que agora tomasse.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

António de Faria então bradando também aos seus, lhes disse:

- Ah, cristãos e senhores meus, se estes se esforçam na maldita seita do Diabo, esforcemo-nos em Cristo Nosso Senhor posto na Cruz por nós, que nos não há-de desamparar, por mais pecadores que sejamos, porque enfim somos seus, o que estes perros não são.

E arremetendo com este fervor e zelo da fé, ao Coja Acém, como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu com ambas as mãos com uma espada que trazia, uma tão grande cutilada pela cabeça, que cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão, e tornando-lhe com outro revés lhe decepou ambas as pernas, de que se não pôde mais levantar, o qual sendo visto pelos seus, deram uma grande grita e arremetendo a António de Faria se igualaram com ele uns cinco ou seis com tanto ânimo e ousadia que nenhuma conta fizeram de trinta portugueses de que ele estava rodeado, e lhe deram duas cutiladas, com que o tiveram quase no chão, o que vendo os nossos, acudiram logo com muita pressa, e esforçando-os ali Nosso Senhor, o fizeram de maneira que em pouco mais de dois credos foram mortos, dos inimigos ali sobre o Coja Acém, quarenta e oito, e dos nossos catorze somente, de que só cinco foram portugueses, e os mais moços escravos muito bons cristãos e muito leais. Já neste tempo os que ficavam começaram a enfraquecer, e se foram retirando desordenadamente para os  chapitéus da proa, com a tenção de se fazerem aí fortes a que vinte soldados dos trinta que estavam no junco de Quiay Panjão, acudiram com muita pressa, e tomando-o do rosto antes que se assenhoreassem do que pretendiam os apertaram de maneira que os fizeram lançar todos ao mar, com tamanho desatino que uns caíam por cima dos outros. Animados estão os nossos com o nome de Cristo Nosso Senhor, por quem chamavam continuamente, e com a vitória que já conheciam, e com a muita honra que tinham ganho, os acabaram ali de matar e consumir a todos, sem ficarem deles mais que só cinco que tomaram vivos, os quais, depois de presos e atados de pés e mãos, e lançados em baixo na bomba para com tratos se lhes fazerem algumas perguntas, se degolaram às dentadas uns aos outros, com receio da morte que se lhes podia dar. E estes também foram feitos em quartos pelos nossos moços e lançados ao mar, em companhia do perro do Coja Acém, seu capitão e caciz-mor de el-rei de Bintão, e derramador e bebedor do sangue português, como se ele intitulava nos começos das suas cartas, e publicamente pregava a todos os mouros, por causa do que, e pelas superstições da sua maldita seita, era deles muito venerado.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

E apontando o camelo por suas miras e regra de esquadria, de que sabia razoavelmente, deu fogo à peça que estava carregada com o pelouro e roca de pedras, e tomando a primeira lorcha que vinha na dianteira, por capitânia das quatro, a descoseu toda de popa a proa pelo alcatrate da banda de estibordo, com o que tudo ficou raso com a água, de maneira que logo ali a pique se foi ao fundo, sem dela se salvar pessoa nenhuma, e varejando a munição da roca por cima, deu no convés de outra lorcha que vinha um pouco mais atrás, e lhe matou o capitão e seis ou sete que estavam junto dele, do que as outras duas ficaram tão assombradas que querendo tornar a voltar para terra, se embaraçaram ambas nos guardins das velas de maneira que nenhuma delas se pôde mais desembaraçar, e assim presas uma na outra estiveram ambas estacadas sem poderem ir para trás nem para diante.

Vendo então os capitães das nossas duas lorchas (os quais se chamavam Gaspar de Oliveira e Vicente Morosa) o tempo disposto para efectuarem o desejo que traziam, e a inveja honrosa de que ambos se picavam, arremeteram juntamente a elas, e lançando-lhes muita soma de panelas de pólvora, se ateou o fogo em ambas, de maneira que assim juntas como estavam arderam até ao lume da água, com o que a maior parte da gente se lançou ao mar, e os nossos acabaram ali de matar a todos às zargunchadas, sem um só ficar vivo; e somente nestas três lorchas morreram passante de duzentas pessoas; e a outra que levava o capitão morto, tão-pouco pôde escapar, porque Quiay Panjão foi atrás dela na sua champana, que era o batel do seu junco, e a foi tomar já pegada com terra, mas sem gente nenhuma, porque toda se lhe lançou ao mar, de que a maior parte se perdeu também nuns penedos que estavam junto da praia, com a qual vista os inimigos que ainda estavam nos juncos, que podiam ser até cento e cinquenta, e todos mouros lusões, e bornéus, com alguma mistura de jaus, começaram a enfraquecer, de maneira que muitos começavam já a se lançar ao mar.

O perro do Coja Acém que até este tempo não era ainda conhecido, acudiu com muita pressa ao desmancho que via nos seus, armado com uma coura de lâminas de cetim carmesim franjada de ouro, que fora dos portugueses, e bradando alto para que todos o ouvissem, disse por três vezes:

- Lah hilah hilah lah muhamd roçol halah, ó massoleimões e homens justos da santa lei de Mafamede, como vos deixais vencer assim por uma gente tão fraca como são estes cães, sem mais ânimo que de galinhas brancas e de mulheres barbadas? A eles, a eles, que certa temos a promessa do livro das flores, em que o profeta Nobi abastou de deleites os daroeses da casa de Meca. Assim fará hoje a vós e a mim, se nos banharmos no sangue destes cafres sem lei!

Com as quais malditas palavras o Diabo os esforçou de maneira que fazendo-se todos num corpo, amoucos, tornaram a voltar tão esforçadamente que era espanto ver como se metiam nas nossas espadas.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

Cap. 59 – Como António de Faria pelejou com o corsário Coja Acém e do que com ele lhe sucedeu

Velejando nós pelo rio acima com vento e maré que Nosso Senhor então nos deu, em menos de uma hora chegámos onde os inimigos estavam, que até este tempo nos não tinham ainda sentido; mas como eles eram ladrões e se temiam da gente da terra, pelos males e roubos que ali cada dia lhe faziam, estavam tão aparelhados e tinham tão boa vigia que em nos vendo tocaram um sino muito apressadamente, ao som do qual foi tamanho o rumor e revolta de gente, tanto da que estava em terra como da que estava embarcada, que não havia quem se ouvisse com eles o que vendo António de Faria, bradou logo, dizendo:

- Eia, senhores e irmãos meus, a eles, como nome de Cristo, antes que as suas lorchas lhes acudam! Santiago! 

E disparando toda a nossa artilharia, prouve a Nosso Senhor que se empregou tão bem que dos mais esforçados que já neste tempo estavam em cima do chapitéu, veio logo abaixo a maior parte, feitos em pedaços, o que foi um bom prognóstico do nosso desejo.

Após isto, os nossos atiradores, que seriam cento e sessenta, pondo fogo a toda a arcabuzaria, conforme o sinal que lhes fora feito, os conveses de ambos os juncos ficaram tão vazios da multidão que antes neles se via, que já nenhum dos inimigos ousava aparecer. Os nossos dois juncos, abalroando então os dois dos inimigos assim como estavam, a briga se travou entre todos, de maneira que realmente confesso que não me atrevo a particularizar o que nela se passou, ainda que me achasse presente, porque ainda neste tempo a manhã não era bem clara, e a revolta dos inimigos e nossa era tamanha, juntamente com o estrondo dos tambores, bacias e sinos, e com as gritas e brados de uns e dos outros, acompanhados de muitos pelouros de artilharia e de arcabuzaria, e na terra o retumbar dos ecos pelas concavidades dos vales e outeiros, que as carnes tremiam de medo; e durando assim esta briga por espaço de um quarto de hora, as suas lorchas e lanteas lhes acudiram de terra com muita gente de reforço, vendo o que, um tal Diogo Meireles, que vinha no junco de Quiay Panjão, e que o seu condestável, dos tiros que fazia nenhum acertava, por andar tão pasmado e fora de si que nenhuma coisa acertava, estando ele então para dar fogo a um camelo, meio turvado, o empurrou tão de rijo que deu com ele da escotilha abaixo, dizendo:

- Guar-te daí, vilão, que não prestas para nada, porque este tiro neste tempo é para os homens como eu, e não para os tais como tu!

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

Era este navio uma formosa nau de um mercador de Vila do Conde, que se chamava Silvestre Godinho, que outros mercadores de Lisboa traziam fretada de S. Tomé, com grande carregamento de açúcares e escravaria, a qual os pobres roubados, que lamentavam sua desventura, calculavam que valesse quarenta mil cruzados. Logo que estes corsários se viram com presa tão rica, mudando o propósito que antes traziam, se fizeram a caminho de França e levaram consigo alguns dos nossos para serviço da mareação da nau que tinham tomado. E aos outros mandaram uma noite lançar na praia de Melides, nus e descalços e alguns com muitas chagas dos açoites que tinham levado, os quais desta maneira foram ao outro dia ter a Santiago de Cacém, no qual lugar todos foram muito bem providos do necessário pela gente da terra, e principalmente por uma senhora que aí estava, de nome D. Brites, filha do conde de Vilanova, mulher de Alonso Perez Pantoja, comendador e alcaide-mor da mesma vila.

Depois que os feridos e os doentes foram convalescidos, cada um se foi para onde lhe pareceu que teria o remédio mais certo da vida, e o pobre de mim com outros seis ou sete tão desamparados como eu, fomos ter a Setúbal, onde me caiu em sorte mão de mim um fidalgo do Mestre de Santiago, de nome Francisco de Faria, o qual servi quatro anos, em satisfação dos quais me deu ao mesmo Mestre de Santiago, como seu moço de câmara, a quem servi um ano e meio. Mas porque o que então era costume dar-se nas casas dos príncipes me não bastasse para minha sustentação, determinei embarcar-me para a Índia, ainda que com poucas ilusões, já disposto a toda a ventura, ou má ou boa, que me sucedesse.

(via Projecto Vercial)

E tomando para princípio desta minha peregrinação o que passei neste Reino, digo que depois de ter vivido até à idade de dez ou doze anos na miséria e estreiteza da pobre casa de meu pai na vila de Montemor-o-Velho, um tio meu, parece que desejoso de me encaminhar para melhor fortuna, me trouxe para a cidade de Lisboa e me pôs ao serviço de uma senhora de geração assaz nobre e de parentes assaz ilustres, parecendo-lhe que pela valia tanto dela como deles poderia haver efeito o que ele pretendia para mim. Isto era no tempo em que na mesma cidade de Lisboa se quebraram os escudos pela morte de el-rei D. Manuel, de gloriosa memória, que foi em dia de Santa Luzia, aos treze dias do mês de Dezembro do ano de 1521, de que eu estou bem lembrado, e de outra coisa mais antiga deste reino me não lembro. A tenção deste meu tio não teve o sucesso que ele imaginava, antes o teve muito diferente, porque havendo ano e meio, pouco mais ou menos, que eu estava ao serviço desta senhora, me sucedeu um caso que me pôs a vida em tanto risco que para a poder salvar me vi forçado a sair naquela mesma hora de casa, fugindo com a maior pressa que pude. E indo eu assim tão desatinado com o grande medo que levava, que não sabia por onde ia, como quem vira a morte diante dos olhos e a cada passo cuidava que a tinha comigo, fui ter ao cais da pedra onde achei uma caravela de Alfama que ia com cavalos e fato de um fidalgo para Setúbal, onde naquele tempo estava el-rei D. João III, que santa glória haja com toda a corte, por causa da peste que então havia em muitos lugares do Reino: nesta caravela me embarquei eu, e ela partiu logo. Ao outro dia pela manhã, estando nós em frente de Sesimbra, nos atacou um corsário francês, o qual abalroando connosco, nos lançou dentro quinze ou vinte homens, os quais sem resistência ou reacção dos nossos, se assenhorearam do navio, e depois de o terem despojado de tudo quanto acharam nele, que valia mais de seis mil cruzados, o meteram no fundo; e a dezassete que escapámos com vida, atados de pés e mãos, nos meteram no seu navio com a intenção de nos venderem em Larache, para onde se dizia que iam carregados de armas que para negociar levavam aos mouros. E, trazendo-nos com esta determinação mais treze dias, banqueteados cada hora de muitos açoites, quis a sua boa fortuna que ao cabo deles, ao pôr-do-sol, vissem um barco e seguindo-o aquela noite, guiados pela sua esteira, como velhos oficiais práticos naquela arte, a alcançaram antes de ser rendido o quarto da modorra, e dando-lhe três descargas de artilharia a abalroaram muito esforçadamente: e ainda que na defesa tivesse havido da parte dos nossos alguma resistência, isso não bastou para que os inimigos deixassem de entrar nela, com morte de seis portugueses e dez ou doze escravos.

(via Projecto Vercial)

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