Sex 21 Set 2007
Cap. 77 – Do mais que António de Faria passou nesta ermida até se embarcar
Depois de ser recolhida toda a presa que ali havia, e mandada às embarcações, pareceu bem a todos não se bulir por então com mais nada, tanto por não conhecermos a terra, como por ser já quase noite, esperando que ao outro dia o poderíamos fazer mais à nossa vontade. E querendo-se António de Faria embarcar, se quis despedir primeiro do ermitão, e o consolou com boas palavras, dizendo que lhe pedia muito pelo amor de Deus que não se escandalizasse, porque lhe certificava que a muito pobreza em que se via o fizera fazer aquilo em que na verdade não era de sua condição, e que depois que falara com ele, arrependido do que cometera, se quisera logo tornar, porém que aqueles homens lhe foram à mão e lhe juraram todos que o haviam de matar se tal fizesse, e que por isso, constrangido ele de medo, se calara e consentira naquilo que claramente via ser tamanho pecado como ele tinha dito, pelo que levava determinado, logo que se visse desembaraçado deles, ir-se logo por esse mundo a fazer tanto penitência quanto entendia que lhe era necessária para satisfação de tamanho crime. Ao que o ermitão respondeu:
- Preza ao Senhor que vive reinando sobre a fermosura de suas estrelas, que te não faça mal entenderes tanto dele quanto mostras nessas palavras, porque te afirmo que muito maior perigo corre o que isso entende, se faz más obras, que o ignorante sem lei, a quem a falta do entendimento está desculpando com Deus e com o mundo.
Aqui se quis intrometer na conversa um dos nossos, de nome Nuno Coelho, e lhe disse que se não agastasse por tão pouco, a quem ele respondeu:
- Muito mais pouco é o temor que tu tens da morte, pois gastas a vida em feitos tão sujos quão suja eu creio que estará tua alma, das portas desse monturo da tua carne para dentro. E se queres mais prata, como mostras na sede da tua cobiça, para com ela acabares de encher o fardel do teu infernal apetite, nessoutras casas que por aí estão, acharás com que bem te enchas até rebentares, e quiçá que não errarás, porque já que por essa que tens tomado hás-de ir para o Inferno, vai também por essoutra, porque quanto mais peso levares sobre tua cabeça, tanto mais depressa irás ao fundo, como parece pelo que tuas más obras de ti testemunham.
E tornando o Nuno Coelho a replicar que lhe rogava que tomasse em tudo paciência porque assim o mandava Deus em sua santa lei, o ermitão pondo a mão na testa a modo de espanto, e bulindo cinco ou seis vezes com a cabeça, sorrindo-lhe do que lhe tinha ouvido, lhe respondeu:
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 – a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)
