Peregrinação - Fernão Mendes Pinto


Cap. 77 – Do mais que António de Faria passou nesta ermida até se embarcar 

Depois de ser recolhida toda a presa que ali havia, e mandada às embarcações, pareceu bem a todos não se bulir por então com mais nada, tanto por não conhecermos a terra, como por ser já quase noite, esperando que ao outro dia o poderíamos fazer mais à nossa vontade. E querendo-se António de Faria embarcar, se quis despedir primeiro do ermitão, e o consolou com boas palavras, dizendo que lhe pedia muito pelo amor de Deus que não se escandalizasse, porque lhe certificava que a muito pobreza em que se via o fizera fazer aquilo em que na verdade não era de sua condição, e que depois que falara com ele, arrependido do que cometera, se quisera logo tornar, porém que aqueles homens lhe foram à mão e lhe juraram todos que o haviam de matar se tal fizesse, e que por isso, constrangido ele de medo, se calara e consentira naquilo que claramente via ser tamanho pecado como ele tinha dito, pelo que levava determinado, logo que se visse desembaraçado deles, ir-se logo por esse mundo a fazer tanto penitência quanto entendia que lhe era necessária para satisfação de tamanho crime. Ao que o ermitão respondeu:

- Preza ao Senhor que vive reinando sobre a fermosura de suas estrelas, que te não faça mal entenderes tanto dele quanto mostras nessas palavras, porque te afirmo que muito maior perigo corre o que isso entende, se faz más obras, que o ignorante sem lei, a quem a falta do entendimento está desculpando com Deus e com o mundo.

Aqui se quis intrometer na conversa um dos nossos, de nome Nuno Coelho, e lhe disse que se não agastasse por tão pouco, a quem ele respondeu:

- Muito mais pouco é o temor que tu tens da morte, pois gastas a vida em feitos tão sujos quão suja eu creio que estará tua alma, das portas desse monturo da tua carne para dentro. E se queres mais prata, como mostras na sede da tua cobiça, para com ela acabares de encher o fardel do teu infernal apetite, nessoutras casas que por aí estão, acharás com que bem te enchas até rebentares, e quiçá que não errarás, porque já que por essa que tens tomado hás-de ir para o Inferno, vai também por essoutra, porque quanto mais peso levares sobre tua cabeça, tanto mais depressa irás ao fundo, como parece pelo que tuas más obras de ti testemunham.

E tornando o Nuno Coelho a replicar que lhe rogava que tomasse em tudo paciência porque assim o mandava Deus em sua santa lei, o ermitão pondo a mão na testa a modo de espanto, e bulindo cinco ou seis vezes com a cabeça, sorrindo-lhe do que lhe tinha ouvido, lhe respondeu: 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 – a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

- Quero-te declarar como a homem que me pareces discreto, o em que consiste o perdão do pecado em que tantas vezes me apontaste, para que não pereças para sempre sem fim no derradeiro bocejo da tua boca. Já que me dizes que a necessidade te obrigou a cometeres delito tão grave e que tens propósito de restituir o que tomares antes que morras, se a possibilidade te der lugar para isso, farás três coisas que te agora direi: a primeira é restituíres o que tomares, antes que morras, para que não se impeça da tua parte a clemência do alto Senhor; a segunda, pedires-lhe com lágrimas perdão do que fizeste, pois é tão feio diante da sua presença, e castigares por isso a carne continuamente de dia e de noite; e a terceira, repartires com os seus pobres tão liberalmente como contigo, e abrires as tuas mãos com discrição e prudência, para que o servo da noite não tenha que te arguir no dia da conta. E por este conselho te peço que mandes a essa tua gente que torne a recolher os ossos dos santos, para que não fiquem desprezados na terra.

António de Faria lhe prometeu que o faria assim, com muitas palavras de cumprimentos, de que o ermitão ficou algum tanto mais quieto, ainda que não de todo satisfeito. E chegando-se mais para ele, o começou de amimar e afagá-lo com palavras brandas, e de muito amor e cortesia, certificando-lhe que depois que o ouvira se arrependera muito de ter cometido aquela viagem, mas que os seus lhe diziam que se se tornasse, o matariam logo, e que isto lhe descobria, em grande segredo; ao que ele espondeu:

- Queira Deus que seja isto assim, porque ao menos não terás tanta pena como essoutros ministros da noite, que como cães esfaimados me parece que toda a prata do mundo os não poderá fartar. 

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 – a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

O Hiticou (que assim se chamava o ermitão), depois de estar cuidando consigo um pouco no que ouvira, olhando para António de Faria, lhe disse:

- Muito bem ouvi o que disseste, e também entendi a danada tenção em que o sulco da tua cegueira, como piloto do inferno te traz a ti e a essoutros à côncava funda do lago da noite, porque em vez de dares graças a Deus por tamanha mercê que te fez, o vens roubar. Pois pergunto: se assim o fizeres, que esperas que faça de ti a divina justiça, no derradeiro bocejo da vida? Muda esse teu mau propósito e não consintas que em teu pensamento entre imaginação de tamanho pecado, e Deus mudará de ti o castigo. E fia-te de mim que te falo verdade, assim me ela valha enquanto viver.

António de Faria, fingindo que lhe parecia bem o conselho que ele lhe dava, lhe pediu muito que se não agastasse porque lhe certificava que não tinha então outro remédio de vida mais certo que aquele que ali vinha buscar; a que o ermitão olhando para o céu e com as mãos levantadas, disse chorando:

- Bendito sejas, Senhor, que sofres haver na terra homens que tomem como remédio de vida ofensas tuas, e não como certeza de glória servir-te um só dia.

E depois de estar um pouco pensativo e confuso com o que via diante, tornou a pôr os olhos no tumulto e rumor que todos fazíamos no desarrumar e despregar dos caixões; e olhando para António de Faria que neste tempo estava em pé, encostado ao montante, lhe rogou que se sentasse um pouco a par dele, o que António de Faria fez com muita cortesia e muitos cumprimentos, porém não deixou de acenar aos soldados que continuassem com o que tinham entre mãos, que era escolher a prata que se encontrava nos caixões, de mistura com os ossos dos finados que também estavam dentro, o que o ermitão sofria tão mal que duas vezes caiu esmorecido do banco em que estava sentado, para baixo, como homem que sentia aquilo como ofensa grave. E tornando pesadamente a continuar com António de Faria, lhe disse:

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 – a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

 Cap. 76 – Como António de Faria chegou a esta ermida e do que se passou nela

Caminhando António de Faria para a ermida que tinha diante, com o maior silêncio que podia, e não sem algum receio, por não saber até então o em que se tinha metido, levando todos o nome de Jesus na boca e no coração, chegámos a um terreiro pequeno que estava diante da porta, e ainda até aqui não houvemos vista de pessoa nenhuma, e António de Faria que ia sempre adiante com um montante nas mãos, apalpou a porta e a sentiu fechada por dentro, e mandando a um dos chins que estava junto dele, que batesse, ele o fez por duas vezes e de dentro lhe foi respondido:

- Seja louvado o criador que esmaltou a formosura dos céus! Dê a volta por fora e saberei o que quer.

O chin rodeou a ermida e entrou nela por uma porta travessa, e abrindo a em que estava, ele com toda a gente entrou dentro da ermida e achou dentro dela um homem velho, que pelo parecer seria de mais de cem anos, com uma vestidura de damasco roxo muito comprida, o qual no seu aspecto parecia ser homem nobre, como depois soubemos que era, o qual em vendo o tropel da gente, ficou tão fora de si que caiu de focinhos no chão, e tremendo de pés e de mãos não pôde por então falar palavra nenhuma; porém, passado um grande espaço em que a altercação deste sobressalto ficou quieta e ele tornou a si, pondo os olhos em todos, com rosto alegre e palavras severas perguntou que gente éramos ou que queríamos.

O intérprete lhe respondeu por mandado de António de Faria que ele era um capitão daquela gente estrangeira natural do reino de Sião, e que vindo de veniaga num junco seu com muita fazenda para o porto de Liampó, se perdera no mar, do qual se salvara milagrosamente com todos aqueles homens que ali trazia consigo, e que porque prometera vir em romaria àquela terra santa a dar louvores a Deus por o salvar do grande perigo em que se vira, vinha agora a cumprir a sua promessa, e juntamente lhe vinha pedir ele alguma coisa de esmola com que se tornasse a restaurar de sua pobreza, e que ele lhe protestava que dali a três anos lhe tornaria dobrado tudo o que agora tomasse.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 – a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

António de Faria então bradando também aos seus, lhes disse:

- Ah, cristãos e senhores meus, se estes se esforçam na maldita seita do Diabo, esforcemo-nos em Cristo Nosso Senhor posto na Cruz por nós, que nos não há-de desamparar, por mais pecadores que sejamos, porque enfim somos seus, o que estes perros não são.

E arremetendo com este fervor e zelo da fé, ao Coja Acém, como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu com ambas as mãos com uma espada que trazia, uma tão grande cutilada pela cabeça, que cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão, e tornando-lhe com outro revés lhe decepou ambas as pernas, de que se não pôde mais levantar, o qual sendo visto pelos seus, deram uma grande grita e arremetendo a António de Faria se igualaram com ele uns cinco ou seis com tanto ânimo e ousadia que nenhuma conta fizeram de trinta portugueses de que ele estava rodeado, e lhe deram duas cutiladas, com que o tiveram quase no chão, o que vendo os nossos, acudiram logo com muita pressa, e esforçando-os ali Nosso Senhor, o fizeram de maneira que em pouco mais de dois credos foram mortos, dos inimigos ali sobre o Coja Acém, quarenta e oito, e dos nossos catorze somente, de que só cinco foram portugueses, e os mais moços escravos muito bons cristãos e muito leais. Já neste tempo os que ficavam começaram a enfraquecer, e se foram retirando desordenadamente para os  chapitéus da proa, com a tenção de se fazerem aí fortes a que vinte soldados dos trinta que estavam no junco de Quiay Panjão, acudiram com muita pressa, e tomando-o do rosto antes que se assenhoreassem do que pretendiam os apertaram de maneira que os fizeram lançar todos ao mar, com tamanho desatino que uns caíam por cima dos outros. Animados estão os nossos com o nome de Cristo Nosso Senhor, por quem chamavam continuamente, e com a vitória que já conheciam, e com a muita honra que tinham ganho, os acabaram ali de matar e consumir a todos, sem ficarem deles mais que só cinco que tomaram vivos, os quais, depois de presos e atados de pés e mãos, e lançados em baixo na bomba para com tratos se lhes fazerem algumas perguntas, se degolaram às dentadas uns aos outros, com receio da morte que se lhes podia dar. E estes também foram feitos em quartos pelos nossos moços e lançados ao mar, em companhia do perro do Coja Acém, seu capitão e caciz-mor de el-rei de Bintão, e derramador e bebedor do sangue português, como se ele intitulava nos começos das suas cartas, e publicamente pregava a todos os mouros, por causa do que, e pelas superstições da sua maldita seita, era deles muito venerado.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 – a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

E apontando o camelo por suas miras e regra de esquadria, de que sabia razoavelmente, deu fogo à peça que estava carregada com o pelouro e roca de pedras, e tomando a primeira lorcha que vinha na dianteira, por capitânia das quatro, a descoseu toda de popa a proa pelo alcatrate da banda de estibordo, com o que tudo ficou raso com a água, de maneira que logo ali a pique se foi ao fundo, sem dela se salvar pessoa nenhuma, e varejando a munição da roca por cima, deu no convés de outra lorcha que vinha um pouco mais atrás, e lhe matou o capitão e seis ou sete que estavam junto dele, do que as outras duas ficaram tão assombradas que querendo tornar a voltar para terra, se embaraçaram ambas nos guardins das velas de maneira que nenhuma delas se pôde mais desembaraçar, e assim presas uma na outra estiveram ambas estacadas sem poderem ir para trás nem para diante.

Vendo então os capitães das nossas duas lorchas (os quais se chamavam Gaspar de Oliveira e Vicente Morosa) o tempo disposto para efectuarem o desejo que traziam, e a inveja honrosa de que ambos se picavam, arremeteram juntamente a elas, e lançando-lhes muita soma de panelas de pólvora, se ateou o fogo em ambas, de maneira que assim juntas como estavam arderam até ao lume da água, com o que a maior parte da gente se lançou ao mar, e os nossos acabaram ali de matar a todos às zargunchadas, sem um só ficar vivo; e somente nestas três lorchas morreram passante de duzentas pessoas; e a outra que levava o capitão morto, tão-pouco pôde escapar, porque Quiay Panjão foi atrás dela na sua champana, que era o batel do seu junco, e a foi tomar já pegada com terra, mas sem gente nenhuma, porque toda se lhe lançou ao mar, de que a maior parte se perdeu também nuns penedos que estavam junto da praia, com a qual vista os inimigos que ainda estavam nos juncos, que podiam ser até cento e cinquenta, e todos mouros lusões, e bornéus, com alguma mistura de jaus, começaram a enfraquecer, de maneira que muitos começavam já a se lançar ao mar.

O perro do Coja Acém que até este tempo não era ainda conhecido, acudiu com muita pressa ao desmancho que via nos seus, armado com uma coura de lâminas de cetim carmesim franjada de ouro, que fora dos portugueses, e bradando alto para que todos o ouvissem, disse por três vezes:

- Lah hilah hilah lah muhamd roçol halah, ó massoleimões e homens justos da santa lei de Mafamede, como vos deixais vencer assim por uma gente tão fraca como são estes cães, sem mais ânimo que de galinhas brancas e de mulheres barbadas? A eles, a eles, que certa temos a promessa do livro das flores, em que o profeta Nobi abastou de deleites os daroeses da casa de Meca. Assim fará hoje a vós e a mim, se nos banharmos no sangue destes cafres sem lei!

Com as quais malditas palavras o Diabo os esforçou de maneira que fazendo-se todos num corpo, amoucos, tornaram a voltar tão esforçadamente que era espanto ver como se metiam nas nossas espadas.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 – a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

Cap. 59 – Como António de Faria pelejou com o corsário Coja Acém e do que com ele lhe sucedeu

Velejando nós pelo rio acima com vento e maré que Nosso Senhor então nos deu, em menos de uma hora chegámos onde os inimigos estavam, que até este tempo nos não tinham ainda sentido; mas como eles eram ladrões e se temiam da gente da terra, pelos males e roubos que ali cada dia lhe faziam, estavam tão aparelhados e tinham tão boa vigia que em nos vendo tocaram um sino muito apressadamente, ao som do qual foi tamanho o rumor e revolta de gente, tanto da que estava em terra como da que estava embarcada, que não havia quem se ouvisse com eles o que vendo António de Faria, bradou logo, dizendo:

- Eia, senhores e irmãos meus, a eles, como nome de Cristo, antes que as suas lorchas lhes acudam! Santiago! 

E disparando toda a nossa artilharia, prouve a Nosso Senhor que se empregou tão bem que dos mais esforçados que já neste tempo estavam em cima do chapitéu, veio logo abaixo a maior parte, feitos em pedaços, o que foi um bom prognóstico do nosso desejo.

Após isto, os nossos atiradores, que seriam cento e sessenta, pondo fogo a toda a arcabuzaria, conforme o sinal que lhes fora feito, os conveses de ambos os juncos ficaram tão vazios da multidão que antes neles se via, que já nenhum dos inimigos ousava aparecer. Os nossos dois juncos, abalroando então os dois dos inimigos assim como estavam, a briga se travou entre todos, de maneira que realmente confesso que não me atrevo a particularizar o que nela se passou, ainda que me achasse presente, porque ainda neste tempo a manhã não era bem clara, e a revolta dos inimigos e nossa era tamanha, juntamente com o estrondo dos tambores, bacias e sinos, e com as gritas e brados de uns e dos outros, acompanhados de muitos pelouros de artilharia e de arcabuzaria, e na terra o retumbar dos ecos pelas concavidades dos vales e outeiros, que as carnes tremiam de medo; e durando assim esta briga por espaço de um quarto de hora, as suas lorchas e lanteas lhes acudiram de terra com muita gente de reforço, vendo o que, um tal Diogo Meireles, que vinha no junco de Quiay Panjão, e que o seu condestável, dos tiros que fazia nenhum acertava, por andar tão pasmado e fora de si que nenhuma coisa acertava, estando ele então para dar fogo a um camelo, meio turvado, o empurrou tão de rijo que deu com ele da escotilha abaixo, dizendo:

- Guar-te daí, vilão, que não prestas para nada, porque este tiro neste tempo é para os homens como eu, e não para os tais como tu!

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 – a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)

Era este navio uma formosa nau de um mercador de Vila do Conde, que se chamava Silvestre Godinho, que outros mercadores de Lisboa traziam fretada de S. Tomé, com grande carregamento de açúcares e escravaria, a qual os pobres roubados, que lamentavam sua desventura, calculavam que valesse quarenta mil cruzados. Logo que estes corsários se viram com presa tão rica, mudando o propósito que antes traziam, se fizeram a caminho de França e levaram consigo alguns dos nossos para serviço da mareação da nau que tinham tomado. E aos outros mandaram uma noite lançar na praia de Melides, nus e descalços e alguns com muitas chagas dos açoites que tinham levado, os quais desta maneira foram ao outro dia ter a Santiago de Cacém, no qual lugar todos foram muito bem providos do necessário pela gente da terra, e principalmente por uma senhora que aí estava, de nome D. Brites, filha do conde de Vilanova, mulher de Alonso Perez Pantoja, comendador e alcaide-mor da mesma vila.

Depois que os feridos e os doentes foram convalescidos, cada um se foi para onde lhe pareceu que teria o remédio mais certo da vida, e o pobre de mim com outros seis ou sete tão desamparados como eu, fomos ter a Setúbal, onde me caiu em sorte mão de mim um fidalgo do Mestre de Santiago, de nome Francisco de Faria, o qual servi quatro anos, em satisfação dos quais me deu ao mesmo Mestre de Santiago, como seu moço de câmara, a quem servi um ano e meio. Mas porque o que então era costume dar-se nas casas dos príncipes me não bastasse para minha sustentação, determinei embarcar-me para a Índia, ainda que com poucas ilusões, já disposto a toda a ventura, ou má ou boa, que me sucedesse.

(via Projecto Vercial)

E tomando para princípio desta minha peregrinação o que passei neste Reino, digo que depois de ter vivido até à idade de dez ou doze anos na miséria e estreiteza da pobre casa de meu pai na vila de Montemor-o-Velho, um tio meu, parece que desejoso de me encaminhar para melhor fortuna, me trouxe para a cidade de Lisboa e me pôs ao serviço de uma senhora de geração assaz nobre e de parentes assaz ilustres, parecendo-lhe que pela valia tanto dela como deles poderia haver efeito o que ele pretendia para mim. Isto era no tempo em que na mesma cidade de Lisboa se quebraram os escudos pela morte de el-rei D. Manuel, de gloriosa memória, que foi em dia de Santa Luzia, aos treze dias do mês de Dezembro do ano de 1521, de que eu estou bem lembrado, e de outra coisa mais antiga deste reino me não lembro. A tenção deste meu tio não teve o sucesso que ele imaginava, antes o teve muito diferente, porque havendo ano e meio, pouco mais ou menos, que eu estava ao serviço desta senhora, me sucedeu um caso que me pôs a vida em tanto risco que para a poder salvar me vi forçado a sair naquela mesma hora de casa, fugindo com a maior pressa que pude. E indo eu assim tão desatinado com o grande medo que levava, que não sabia por onde ia, como quem vira a morte diante dos olhos e a cada passo cuidava que a tinha comigo, fui ter ao cais da pedra onde achei uma caravela de Alfama que ia com cavalos e fato de um fidalgo para Setúbal, onde naquele tempo estava el-rei D. João III, que santa glória haja com toda a corte, por causa da peste que então havia em muitos lugares do Reino: nesta caravela me embarquei eu, e ela partiu logo. Ao outro dia pela manhã, estando nós em frente de Sesimbra, nos atacou um corsário francês, o qual abalroando connosco, nos lançou dentro quinze ou vinte homens, os quais sem resistência ou reacção dos nossos, se assenhorearam do navio, e depois de o terem despojado de tudo quanto acharam nele, que valia mais de seis mil cruzados, o meteram no fundo; e a dezassete que escapámos com vida, atados de pés e mãos, nos meteram no seu navio com a intenção de nos venderem em Larache, para onde se dizia que iam carregados de armas que para negociar levavam aos mouros. E, trazendo-nos com esta determinação mais treze dias, banqueteados cada hora de muitos açoites, quis a sua boa fortuna que ao cabo deles, ao pôr-do-sol, vissem um barco e seguindo-o aquela noite, guiados pela sua esteira, como velhos oficiais práticos naquela arte, a alcançaram antes de ser rendido o quarto da modorra, e dando-lhe três descargas de artilharia a abalroaram muito esforçadamente: e ainda que na defesa tivesse havido da parte dos nossos alguma resistência, isso não bastou para que os inimigos deixassem de entrar nela, com morte de seis portugueses e dez ou doze escravos.

(via Projecto Vercial)

peregrinacao.jpg

(Imagem via http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/fpinto.htm)

Cap. I – Do que passei em minha mocidade neste reino até que me embarquei para a Índia

Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; porque vejo que, não contente de me pôr na minha Pátria logo no começo da minha mocidade, em tal estado que nela vivi sempre em misérias e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos da vida, me quis também levar às partes da Índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos. Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la) para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos confins da Ásia, a que os escritores chins, siameses, guéus, léquios, chamam em suas geografias a pestana do mundo, como ao adiante espero tratar muito particular e muito amplamente. Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida.

(via Projecto Vercial)

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