Os Lusíadas - Camões


Canto V

77

“Pela Arábica língua, que mal falam,
E que Fernão Martins muito bem entende,
Dizem que por naus, que em grandeza igualam
As nossas, o seu mar se corta e fende;
Mas que lá donde sai o Sol, se abalam
Para onde a costa ao Sul se alarga e estende,
E do Sul para o Sol, terra onde havia
Gente, assim como nós, da cor do dia.

78

“Muito grandemente aqui nos alegramos
Com a gente, e com as novas muito mais:
Pelos sinais que neste rio achamos
O nome lhe ficou dos Bons Sinais.
Um padrão nesta terra alevantamos,
Que, para assinalar lugares tais,
Trazia alguns; o nome tem do belo
Guiador de Tobias a Gabelo.

79

“Aqui de limos, cascas e d’ostrinhos,
Nojosa criação das águas fundas,
Alimpamos as naus, que dos caminhos
Longos do mar, vêm sórdidas e imundas.
Dos hóspedes que tínhamos vizinhos,
Com mostras aprazíveis e jocundas,
louvemos sempre o usado mantimento,
Limpos de todo o falso pensamento.

80

“Mas não foi, da esperança grande e imensa
Que nesta terra houvemos, limpa e pura
A alegria; mas logo a recompensa
A Ramnúsia com nova desventura.
Assim no céu sereno se dispensa:
Com esta condição pesada e dura
Nascemos: o pesar terá firmeza,
Mas o bem logo muda a natureza.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Canto V

74

“Esta passada, logo o leve leme
Encomendado ao sacro Nicolau,
Para onde o mar na costa brada e geme,
A proa inclina duma e doutra nau;
Quando indo o coração que espera e teme
E que tanto fiou dum fraco pau
Do que esperava já desesperado,
Foi duma novidade alvoroçado

75

“E foi que, estando já da costa perto,
Onde as praias e vales bem se viam,
Num rio, que ali sai ao mar aberto,
Batéis à vela entravam e saíam.
Alegria muito grande foi por certo
Acharmos já pessoas que sabiam
Navegar, porque entre elas esperamos
De achar novas algumas, como achamos.

76

“Etíopes são todos, mas parece
Que com gente melhor comunicavam;
Palavra alguma Arábia se conhece
Entre a linguagem sua que falavam;
E com pano delgado, que se tece
De algodão, as cabeças apertavam;
Com outro, que de tinta azul se tinge,
Cada um as vergonhosas partes cinge.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Canto V

71

“Corrupto já e danado o mantimento,
Danoso e mau ao fraco corpo humano,
E além disso nenhum contentamento,
Que sequer da esperança fosse engano.
Crês tu que, se este nosso ajuntamento
De soldados não fora Lusitano,
Que durara ele tanto obediente
Por ventura a seu Rei e a seu regente?

72

“Crês tu que já não foram levantados
Contra seu Capitão, se os resistira,
Fazendo-se piratas, obrigados
De desesperação, de fome, de ira?
Grandemente, por certo, estão provados,
Pois que nenhum trabalho grande os tira
Daquela Portuguesa alta excelência
De lealdade firme, e obediência.

73

“Deixando o porto enfim do doce rio
E tornando a cortar a água salgada,
Fizemos desta costa algum desvio,
Deitando para o pego toda a armada;
Porque, ventando Noto manso e frio,
Não nos apanhasse a água da enseada,
Que a costa faz ali daquela banda
Donde a rica Sofala o ouro manda.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Canto V

67

“Era maior a força em demasia,
Segundo para trás nos obrigava,
Do mar, que contra nós ali corria,
Que por nós a do vento que assoprava.
Injuriado Noto da porfia
Em que colo mar (parece) tanto estava,
Os assopros esforça iradamente,
Com que nos fez vencer a grão corrente.

68

“Trazia o Sol o dia celebrado,
Em que três Reis das partes do Oriento
Foram buscar um Rei de pouco nado,
No qual Rei outros três há juntamente.
Neste dia outro porto foi tomado
Por nós, da mesma já contada gente,
Num largo rio, ao qual o no e demos
Do dia, em que por ele nos metemos.

69

“Desta gente refresco algum tomamos,
E do rio fresca água; mas contudo
Nenhum sinal aqui da Índia achamos
No Povo, com nós outros quase mudo.
Ora vê, Rei, que tamanha terra andamos,
Sem sair nunca deste povo rudo,
Sem vermos nunca nova nem sinal
Da desejada parte Oriental.

70

“Ora imagina agora coitados
Andaríamos todos, perdidos,
De fomes, de tormentas quebrantados,
Por climas e por mares não sabidos,
E do esperar comprido tão cansados,
Quanto a desesperar já compelidos,
Por céus não naturais, de qualidade
Inimiga de nossa humanidade.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Canto V

64

“Estes, como na vista prazenteiros
Fossem, humanamente nos trataram,
Trazendo-nos galinhas e carneiros,
A troco doutras peças, que levaram.
Mas como nunca enfim meus companheiros
Palavra sua alguma lhe alcançaram
Que desse algum sinal do que buscamos,
As velas dando, as âncoras levamos.

65

“Já aqui tínhamos dado um grã rodeio
A costa negra de África, e tornava
A proa a demandar o ardente meio
Do Céu, e o pólo Antarctico ficava:
Aquele ilhéu deixamos, onde veio
Outra armada primeira, que buscava
O Tormentório cabo, e descoberto,
Naquele ilhéu fez seu limite certo.

66

Daqui fomos cortando muitos dias
Entre tormentas tristes e bonanças,
No largo mar fazendo novas vias,
Só conduzidos de árduas esperanças.
Colo mar um tempo andamos em porfias,
Que, como tudo nele são mudanças.
Corrente nele achamos tão possante
Que passar não deixava por diante.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Canto V

(Continuação da viagem)

61

“Já Flegon e Piróis vinham tirando
Com os outros dois o carro radiante,
Quando a terra alta se nos foi mostrando,
Em que foi convertido o grão Gigante.
Ao longo desta costa, começando
Já de cortar as ondas do Levante,
Por ela abaixo um pouco navegamos,
Onde segunda vez terra tomamos.

62

“A gente que esta terra possuía,
Posto que todos Etíopes eram,
Mais humana no trato parecia
Que os outros, que tão mal nos receberam.
Com bailos e com festas de alegria
Pela praia arenosa a nós vieram,
As mulheres consigo e o manso gado
Que apascentavam, gordo e bem criado.

63

“As mulheres queimadas vêm em cima
Dos vagarosos bois, ali sentadas,
Animais que eles têm em mais estima
Que todo o outro gado das manadas.
Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,
Na sua língua cantam concertadas
Com o doce som das rústicas avenas,
Imitando de Títiro as Camenas.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Canto II

(Partida de Mombaça)

69

Não é o outro que fica tão manhoso;
Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
Sem o rigor de Marte furioso,
E sem a fúria horrenda de Vulcano;
Que como fosse débil e medroso
Da pouca gente o fraco peito humano,
Não teve resistência; e se a tivera,
Mais dano resistindo recebera.

70

E como o Gama muito desejasse
Piloto para a Índia que buscava,
Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
Mas não lhe sucedeu como cuidava,
Que nenhum deles há que lhe ensinasse
A que parte dos céus a Índia estava;
Porém dizem-lhe todos, que tem perto
Melinde, onde achará piloto certo.

71

Louvam do Rei os Mouros a bondade,
Condição liberal, sincero peito,
Magnificência grande e humanidade,
Com partes de grandíssimo respeito.
O Capitão o assela por verdade,
Porque já lhe dissera, deste jeito,
Cileneu em sonhos; e partia
Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Canto II

(Partida de Mombaça)

66

Neste tempo, que as âncoras levavam,
Na sombra escura os Mouros escondidos
Mansamente as amarras lhe cortavam,
Por serem, dando à costa, destruídos;
Mas com vista de linces vigiavam
Os Portugueses, sempre apercebidos.
Eles, como acordados os sentiram,
Voando, e não remando, lhe fugiram.

67

Mas já as agudas proas apartando
Iam as vias húmidas de argento;
Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
Com suave e seguro movimento.
Nos perigos passados vão falando,
Que mal se perderão do pensamento
Os casos grandes, donde em tanto aperto
A vida em salvo escapa por acerto.

68

Tinha uma volta dado o Sol ardente
E noutro começava, quando viram
Ao longe deus navios, brandamente
Co’os ventos navegando, que respiram:
Porque haviam de ser da Maura gente,
Para eles arribando, as velas viram:
Um, de temor do mal que arreceava,
Por se salvar a gente à costa dava.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Canto II

(Partida de Mombaça)

64

Isto Mercúrio disse, e o sono leva
Ao Capitão, que com mui grande espanto
Acorda, e vê ferida a escura treva
De uma súbita luz e raio santo.
E vendo claro quanto lhe releva
Não se deter na terra iníqua tanto,
Com novo espírito ao mestre seu mandava
Que as velas desse ao vento que assopravam.

65

“Dai velas, disse, dai ao largo vento,
Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
Que um mensageiro vi do claro assento
Que só em favor de nossos passos anda.”
Alevanta-se nisto o movimento
Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
Levam gritando as âncoras acima,
Mostrando a ruda força, que se estima.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)

Canto II

(Em Mombaça – Súplica do Gama)

29

Vendo o Gama, atentado, a estranheza
Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
O piloto fugir-lhe com presteza,
Entende o que ordenava a bruta gente;
E vendo, sem contraste e sem braveza
Dos ventos, ou das águas sem corrente,
Que a nau passar avante não podia,
Havendo-o por milagre, assim dizia:

30

“Ó caso grande, estranho e não cuidado,
Ó milagre claríssimo e evidente,
Ó descoberto engano inopinado,
Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
Quem poderá do mal aparelhado
Livrar-se sem perigo sabiamente,
Se lá de cima a Guarda soberana
Não acudir à fraca força humana?

31

“Bem nos mostra a divina Providência
Destes portos a pouca segurança;
Bem claro temos visto na aparência,
Que era enganada a nossa confiança.
Mas pois saber humano nem prudência
Enganos tão fingidos não alcança,
Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
De quem sem ti não pode ser guardado!

32

“E se te move tanto a piedade
Desta mísera gente peregrina,
Que só por tua altíssima bondade,
Da gente a salvas pérfida e malina,
Nalgum porto seguro de verdade
Conduzir-nos já agora determina,
Ou nos amostra a terra que buscamos,
Pois só por teu serviço navegamos.”

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)

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