Sex 30 Nov 2007
Canto V
77
“Pela Arábica língua, que mal falam,
E que Fernão Martins muito bem entende,
Dizem que por naus, que em grandeza igualam
As nossas, o seu mar se corta e fende;
Mas que lá donde sai o Sol, se abalam
Para onde a costa ao Sul se alarga e estende,
E do Sul para o Sol, terra onde havia
Gente, assim como nós, da cor do dia.
78
“Muito grandemente aqui nos alegramos
Com a gente, e com as novas muito mais:
Pelos sinais que neste rio achamos
O nome lhe ficou dos Bons Sinais.
Um padrão nesta terra alevantamos,
Que, para assinalar lugares tais,
Trazia alguns; o nome tem do belo
Guiador de Tobias a Gabelo.
79
“Aqui de limos, cascas e d’ostrinhos,
Nojosa criação das águas fundas,
Alimpamos as naus, que dos caminhos
Longos do mar, vêm sórdidas e imundas.
Dos hóspedes que tínhamos vizinhos,
Com mostras aprazíveis e jocundas,
louvemos sempre o usado mantimento,
Limpos de todo o falso pensamento.
80
“Mas não foi, da esperança grande e imensa
Que nesta terra houvemos, limpa e pura
A alegria; mas logo a recompensa
A Ramnúsia com nova desventura.
Assim no céu sereno se dispensa:
Com esta condição pesada e dura
Nascemos: o pesar terá firmeza,
Mas o bem logo muda a natureza.
(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)