E sendo já no ano de quatrocentos noventa e sete, em que a frota para esta viagem estava de todo prestes, mandou el-rei, estando em Montemor-o-Novo, chamar Vasco da Gama e aos outros capitães que haviam de ir em sua companhia, os quais eram Paulo da Gama, seu irmão, e Nicolau Coelho, ambos pessoas de quem el-rei confiava este cargo. E posto que por algumas vezes lhe tivesse dito sua tenção acerca desta viagem, e disso lhe tinha mandado fazer sua instrução, pela novidade da empresa que levava, quis usar com ele da solenidade que convém a taes casos, fazendo esta fala pública, a ele e aos outros capitães, perante algumas pessoas notáveis que eram presentes, e para isso chamadas:
«Depois que aprouve a Nosso Senhor que eu recebesse o cetro desta real herança de Portugal, mediante a sua graça, assi por aver a benção de meus avós de quem a eu herdei, os quais com gloriosos feitos e vitórias que houveram de seus imigos a tem acrescentado por ajuda de tão leais vassalos e cavaleiros como foram aqueles donde vós vindes, como por causa de agalardoar a natural lealdade e amor com que todos me servis, a mais principal cousa que trago na memória, depois do cuidado de vos reger e governa em paz e justiça, é como poderei acrescentar o património deste meu reino, para que mais liberalmente possa distribuir por cada hum o galardão de seus serviços. E considerando eu por muitas vezes qual seria a mais proveitosa e honrada empresa e digna de maior gloria que podia tomar para conseguir esta minha tenção, pois, louvado Deus, destas partes da Europa em as de África a poder de ferro, temos lançado os mouros, e lá tomando os principais lugares dos portos do reino de Fez que é da nossa conquista, achei que nenhuma outra é mais conveniente a este meu reino (como algumas vezes com vosco tenho consultado) que o descobrimento da Índia e daquelas terras orientais. Em as quais partes, pero que sejam mui remotas da igreja Romana, espero na piedade de vós que não somente a fé de nosso Senhor Jesu Cristo seu filho seja por nossa administração publicada e recebida, com que ganharemos galardão ante ele, fama e louvor acerca dos homens, mas ainda reinos e novos estados com muitas riquezas vendicadas por armas das mãos dos bárbaros, dos quais meus avós com a ajuda, e serviço dos vossos e vosso, tem conquistado este meu reino de Portugal, e acrescentado a coroa dele. Porque, se da costa da Etiópia, que quase de caminho é descoberta, este meu reino tem adquirido novos títulos, novos proveitos e renda, que se pode esperar indo mais adiante com este descobrimento, se não podermos conseguir aquelas orientais riquezas tão celebradas dos antigos escritores, parte das quais por comércio tem feito tamanhas potências como são Veneza, Génova, Florença e outras mui grandes comunidades de Itália. Assi que, consideradas todas estas cousas de que temos experiência, e também como era ingratidão a Deus enjeitar o que nos tão favoravelmente oferece, e injuria àqueles príncipes de louvada memória de quem eu herdei este descobrimento, e ofensa a vós outros que nisso fostes, descuidar-me eu dele por muito tempo; mandei armar quatro velas que (como sabeis) em Lisboa estão de todos prestes para servir esta viagem de boa esperança. E tendo eu na memória como Vasco da Gama, que está presente, em todas cousas que lhe de meu serviço foram entregues e encomendadas, deu boa conta de si, eu o tenho escolhido para esta ida como leal vassalo e esforçado cavaleiro, merecedor de tão honrada empresa. A qual espero que lhe Nosso Senhor deixe acabar, e nela a ele e a mim faça tais serviços com que o seu galardão fique por memória nele e naqueles que o ajudarem nos trabalhos desta viagem, porque, com esta confiança, pela experiência que tenho de todos, eu os escolhi por seus ajudadores para em todo o que tocar a meu serviço lhe obedecerem. E eu, Vasco da Gama, volos encomendo, e a eles a vós, e juntamente a todos a paz e concórdia: a qual é tão poderosa que vence e passa todos perigos e trabalhos e os maiores da vida faz leves de sofrer, quanto mais os deste caminho que espero em Deus serem menores que os passados, e que por vós este meu reino consiga o fruto deles.»
(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)