Décadas da Asia - João de Barros


Porém, porque a água se lhe ia gastando e havia já seis ou sete dias que era chegado, por conselho do mouro piloto que prometeu levar de noite a gente a lugar onde fizesse aguada, mandou com ele dois batéis armados a isso. E, ou que o mouro queria dar muitas voltas pela terra por onde os levou, porque nelas tivesse algum modo de escapulir da mão de quem o levava, ou que verdadeiramente se embaraçou por ser de noite, entre um grande arvoredo de mangues, nunca pôde dar com os poços que ele dizia, com que obrigou a Vasco da Gama mandar de dia a isso dois batéis mui bem armados, que, a pesar dos negros que a vinham defender, tomaram água.

E porque nesta ida fugiu a nado o mouro piloto e um negro grumete, ao seguinte dia com mão armada foi demandar à povoação, onde os mouros em um grande escampado, que estava ante ela e a praia, lhe deram mostra de até dois mil homens, recolhendo-se logo detrás de um reparo de madeira entulhado de terra, que fizeram naqueles dias. Vasco da Gama, vendo seu mau propósito, mandou fazer sinal de paz como que queria estar à fala por saber o que tinha neles, e acudindo a isso o mouro dos recados, começou ele de se queixar do que lhe era feito e da pouca verdade que lhe trataram tomando por conclusão, que não queria proceder no mais que mereciam as tais obras, que lhe mandassem entregar um negro que lhe fugira, e mais os pilotos que tinha pagos para aquela navegação, e com isto ficaria satisfeito.

O mouro sem outra palavra disse que ele tornaria logo com reposta, a qual foi que o Xeque estava muito mais escandalizado da sua gente, porque, querendo os seus folgar com ela em modo de festa, segundo uso da terra, ao tempo que iam buscar água, falaram com eles matando e ferindo alguns, e mais meteram-lhe um zambuco no fundo com muita fazenda, das quais cousas lhe havia de fazer emenda. E quanto aos pilotos ele não sabia parte deles por serem homens estrangeiros. que se lhe alguma cousa deviam bem podia mandar a terra homens que os fossem buscar, que a ele bastava-lhe tê-los enviado, e isto em tempo que lhe parecia ser ele capitão e os seus gente segura e que falava verdade, mas ao presente o que tinha entendido, era serem homens vadios que andavam roubando os portos do mar.

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Vasco da Gama pero que se não fiava deles pelos sinais que já tinha visto, levemente o fez, assentando que quando um fosse em terra ficasse outro em o navio; pelo haver mister para a prática da navegação.

Passados dois dias que Vasco da Gama tinha feito este concerto com eles, acertou mandar a manhã seguinte dois batéis buscar lenha e água, que os negros da terra soíam a pôr na praia com prémio que lhe davam, no recolher da qual, de súbito saíram a eles sete zambucos cheios de gente armada a seu modo, e com uma grande grita começaram de os flechar, de que houveram seu retorno com bestas e espingardas que os nossos levavam por resguardo. Com o qual rompimento de paz ficaram em tal estado que nunca mais apareceu barco e tudo se recolheu diante da vista dos nossos para detrás da ilha.

Vasco da Gama, temendo que por algum modo lhe impedissem seu caminho, havido conselho com os capitães e pilotos, um domingo, onze de março, saiu dante a povoação e foi tomar o pouso na ilha de São Jorge, e, depois que ouviu uma missa, se fez à vela, caminho da Índia, levando consiga um dos pilotos, porque ao tempo do rompimento estava o outro em terra.

E parece que os trabalhos que ali haviam de passar ainda não se acabavam com sua partida, porque como ela foi mais por evitar outro maior desastre, quatro dias da sua partida acharam-se quatro ou cinco léguas a quem do cabo de Moçambique, pelas águas correrem tão tesas a ele que lhe abateram todo aquele caminho.

E vendo Vasco da Gama que lhe convinha esperar vento de mais força para romper esta das correntes, a qual mudança seria com a lua nova (segundo o mouro piloto lhe dizia) foi surgir à Ilha de São Jorge donde partira, sem querer ter comunicação com os de Moçambique.

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Neste tempo entre alguns mouros que vinham vender aos navios mantimentos, vieram três abexins da terra do Preste João. Os quais posto que seguissem o error dos mouros, como foram criados naquela maneira de religião e fé de Cristo que seus padres tinham, ainda que não conforme a igreja Romana, em vendo à imagem do anjo Gabriel, pintada em o navio do seu nome que era o de Vasco da Gama, como cousa nota a eles por em sua pátria haver muitas igrejas que em estas imagens dos anjos, e algumas do próprio nome, assentaram-se em giolhos e fizeram sua adoração. Quando o capitão soube deles serem de nação Abexim, cujo rei nestas partes era celebrado por Preste João das Índias, cousa a ele tão encomendada, começou de os inquirir por Fernão Martins, língua, os quais posto que entendiam o arábico, a muitas palavras não respondiam ao propósito, como que diferiam na língua, e doutras não davam razão, dizendo saírem de sua terra de tão pequena idade que não eram já lembrados. Os mouros como entenderam que o capitão folgava de falar com eles, pelo sinal que lhe viam da Cristandade, fizeram-se mui apressados para se tornar a terra, e quase por força levaram os abexins, e assim os esconderam que por muito que Vasco da Gama trabalhou por tornar a falar com eles, nunca mais os pôde haver.

Assim que por estes sinais e outras cautelas que usavam com ele, quis saber se tinha certo os pilotos que lhe prometeram, e mandou-os pedir ao Xeque. O qual, como tinha assentado o que esperava fazer, levemente lhe mandou dois mouros que acerca da navegação a seu modo praticaram bem, dos quais o capitão ficou contente e assentou com eles que por prémio de seu trabalho havia de dar a cada um valia de trinta metecaes douro peso da terra, que puderam ser até quatorze mil reais dos nossos, e mais uma marlota de grão. As quais cousas eles quiseram logo levar na mão, dizendo que não podiam doutra maneira partir, por quanto as haviam de leixar a suas mulheres para sua mantença.

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Os povoadores da qual eram mouros vindos de fora, os quais fizeram aquela povoação como escala da cidade Quíloa que estava diante, e da mina Çofala que ficava atrás, porque a terra em si era de pouco trato, e os naturais que eram negros de cabelo revolto como de Guiné, habitavam na terra firme. A qual povoação Moçambique daquele dia tomou tanta posse de nós, que em nome, é hoje a mais nomeada escala de todo o mundo, e por frequentação a maior que tem os Portugueses, e tanto, que poucas cidades há no reino que, de cinquenta anos a esta parte, enterrassem em si tanto defunto como ela tem dos nossos.

Cá depois que nesta viagem a Índia foi descoberta até ora, poucos anos passaram que à ida ou à vinda não invernassem ali as nossas naus, e alguns invernou quase toda uma armada, onde ficou sepultada a maior parte da gente por causa da terra ser mui doentia. Porque, como o sítio dela é um cotovelo à maneira de cabo, que está em altura de catorze graus e meio, do qual convém que as naus que para aquelas partes navegam hajam vista para irem bem navegadas, quando os ventos lhe não servem para passar adiante à ida ou vinda, tomam aquele remédio de invernar ali, e desta necessidade e doutras (como adiante veremos na descrição de toda esta cousa,) procedeu eleger-se para escala de nossas naus, um lugar tão doentio e bárbaro, deixando na mesma costa outros mais celebres e nobres.

Vasco da Gama, depois que tomou o pouso diante desta povoação Moçambique, ao seguinte dia em companhia do mouro do recado que o veio visitar, mandou o escrivão do seu navio com algumas cousas ao Xeque. O qual presente obrou tanto depois que o ele recebeu que começaram logo de vir barcos aos navios a trazer mantimentos da terra, como gente que começava ter sabor no retorno que havia destas cousas. E por espaço de dez dias em que se detiveram esperando tempo, assentou Vasco da Gama paz com o Xeque, e em sinal dela meteu na ilha São Jorge o padrão deste nome que dissemos, e ao pé dele se pôs um altar onde se disse missa, e tomaram todos os sacramentos. Porque aqui fizeram o primeiro termo e de maior esperança do seu descobrimento para que convinha desporem-se com as confidências em estado, que suas preces fossem aceitas a Deus, e mais por ser tempo de quaresma em que a igreja obriga a isso.

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Capítulo IV

Como depois que Vasco da Gama assentou paz com o Xeque de Moçambique, e ele lhe prometer piloto para o levar à Índia, se rompeu a paz, e do que sobre isso sucedeu

Partindo o mouro mui alegre das peças que levava mais que por ver os nossos naquelas partes, começaram eles festejar a nova que deu, dando louvores a Deus pois já tinha visto gente que lhe falava na Índia, e sobre isso prometia piloto para os levar a ela.

Vasco da Gama pero que sem comparação alguma dava estes louvores a Deus, e mostrava maior prazer, assi polo haver nele como por animar a companhia dos trabalhos que tinham passado, todavia como quem esguardava as cousas com mais atenção, não ficou mui satisfeito dos modos e cautelas que sentiu no mouro falando com ele, porque entendeu não ficar tão contente como mostrou quando soube que eram Portugueses.

E sem saber que era do reino de Fez escola militar deles, do ferro dos quais podia ele ou cousa sua andar assinado, atribuiu que a tristeza que lhe viu seria por saber que eram Cristãos, e por não desconsolar a gente em tanto prazer como tinha, não quis comunicar isto, que entendeu nele, com pessoa alguma.

O mouro também, porque na diligência de sua tomada mostrasse que lhe tinha boa vontade, veio logo, dizendo quão contente o Xeque estava com as novas que lhe deu de quem eram e quanto estimava seu presente, trazendo em retomo algum refresco da terra. E assim lhe disse, da parte do Xeque tais palavras sobre a estância que tinha mui longe da povoação para se comunicarem de mais perto, que moveu Vasco da Gama a entrar dentro no porto.

E posto que nisso houve resguardo dos pilotos do lugar, quando foi à entrada, levando diante o navio de Nicolau Coelho, por ser mais pequeno, e ele a sonda na mão, deu em parte que lhe lançou o leme fora, e com tudo salvo a banco surgiram diante da povoação um pouco afastado dela. A qual estava assentada em um pedaço de terra torneado de água salgada com que fica em ilha, tudo terra baixa e alagadiça, donde se causa ser ela mm doentia, cujas casas eram palhaças, somente uma mesquita, e as do Xeque que eram de taipa com eirados por cima.

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Quando veio o outro dia, já com estes vieram mais de quarenta, tão familiares, que pediu um homem de armas, chamado Fernão Veloso, a Vasco da Gama que o deixasse ir com eles ver a povoação que tinham, pera trazer algüa mais notícia da terra do que eles davam; o que lhe Vasco da Gama concedeu, quase a rogo de Paulo da Gama, seu irmão.

Partido Fernão Veloso com os negros, e Vasco da Gama recolhido ao seu navio, ficou Nicolau Coelho em terra a dar guarda à gente, enquanto apanhava lenha, e outros mariscavam lagostas por haver ali muitas.

E, sendo já sobre a tarde, querendo-se todos recolher aos navios, viram vir Fernão Veloso por um teso abaixo, muito apressado. Vasco da Gama, como tinha os olhos em sua tornada, quando o viu com aquela pressa, mandou bradar ao batel de Nicolau Coelho, que vinha da terra, que tornasse a ela a o recolher. Os marinheiros do batel, porque Fernão Veloso nunca deixava de falar em valentias, quando o viram sobre a praia descer com passos a meio chouto, acinte detiveram-se em o recolher. A qual detença deu suspeita aos negros, que estavam em cilada esperando a saída deles em terra, que o mesmo Fernão Veloso fizera algum sinal que não saíssem. E, em querendo entrar ao batel, remeteram dous negros a ele polo entreter, da qual ousadia saíram com os focinhos lavados em sangue, a que acudiram os outros; e foi tanta a pedrada sobre o batel, que quando Vasco da Gama chegou polos apaziguar, foi flechado por hüa perna; e Gonçalo Álvares, mestre do navio S. Gabriel, e dous marinheiros, levaram cada um sua.

Vendo Vasco da Gama que com eles não havia meio de paz, mandou remar pera os navios; e porém, à espedida, alguns besteiros dos nossos empregaram neles seu almazém, por não ficarem sem castigo. E di a dous dias, com tempo feito, mandou Vasco da Gama dar à vela, sem levar algüa informação da terra, como desejava; Porque Fernão Veloso não viu cousa que contar, senão o perigo que ele dezia passar entre aqueles negros.

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Capítulo III

A primeira terra que Vasco da Gama tomou ante de chegar ao Cabo da Boa Esperança foi à baía que ora chamam de Santa Helena, havendo cinco meses que era partido de Lisboa, onde saiu em terra por fazer aguada e assim tomar a altura do sol; porque, como do uso do astrolábio pera aquele mister da navegação havia pouco tempo que os mareantes deste reino se aproveitavam, e os navios eram pequenos, não confiava muito de a tomar dentro neles, por causa do seu arfar.

Pois estando Vasco da Gama com os pilotos pronto no tomar a altura do Sol per este modo, deram-lhe aviso que detrás de um teso viram dous negros, baixos à maneira de quem apanhe algüas ervas; e, como isto era o principal que ele desejava (achar quem lhe desse algüa rezão da terra), com muito prazer mansamente mandou rodear os negros per hüa encoberta, pera serem tomados; os quais, como andavam curvos e prontos em apanhar mel aos pés das moitas, com um tição de fogo na mão, nunca sentiram a gente que os rodeava senão quando remeteram a eles, dos quais tomaram um.

Vasco da Gama, porque não tinha língua que o entendesse, e ele, de assombrado daquela novidade, não acudia aos acenos que a natureza fez comum a todos os homens, mandou vir dous grumetes, um dos quais era negro, que se assentaram junto dele a comer e beber, apartando-se deles por o desassombrar. O qual modo aproveitou muito, porque os grumetes o provocaram a comer; com que, quando Vasco da Gama tornou a ele, já estava desassombrado e per acenos mostrou hüas serras, que seriam dali duas léguas, dando a entender que ao pé delas estava a povoação da sua gente.

Vasco da Gama, porque não podia enviar melhor descobridor pera apelidar os outros, com alguns brincos de cascavéis e contas de cristalino e um barrete, mandou que o soltassem, acenando-lhe que fosse e tornasse com seus companheiros pera lhe darem outro tanto. O que ele fez logo, trazendo aquela tarde dez ou doze, que vinham buscar o que ele levou, que também lhe foi dado; e quantas mostras de ouro, prata, especiarias lhe apresentaram, de nenhüa deram notícia.

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Ao seguinte dia, que era sábado, oito de Julho, por ser dedicado a Nossa Senhora e a casa de muita romagem, assi por esta devoção como por se irem espedir dos que iam na armada, concorreu grande número de gente a ela. E, quando foi ao embarcar de Vasco da Gama, os freires da casa, com alguns sacerdotes que da cidade lá eram idos dizer missa, ordenaram hüa devota procissão, com que o levaram ante si nesta ordem: ele e os seus, com círios nas mãos, e toda a gente da cidade ficava detrás, respondendo a hüa ladainha que os sacerdotes diante iam cantando, té os porem junto dos batéis em que se haviam de recolher. Onde, feito silêncio e todos em giolhos, o vigário da casa fez em voz alta hüa confissão geral, e no fim dela os absolveu, na forma das bulas que o infante D. Anrique tinha havido pera aqueles que neste descobrimento e conquista falecessem.

No qual auto foi tanta lágrima de todos, que neste dia tomou aquela praia posse das muitas que nela se derramam, na partida das armadas que cada ano vão a estas partes que Vasco da Gama ia descobrir: donde com razão lhe podemos chamar praia de lágrimas pera os que vão, terra de prazer aos que vêm. E quando veio ao desfraldar das velas, que os mareantes, segundo seu uso, deram aquele alegre princípio de caminho, dizendo — «Boa viagem!» — todos os que estavam prontos na vista deles, com hüa piadosa humanidade dobraram estas lágrimas e começaram de os encomendar a Deus e lançar juízos, segundo o que cada um sentia daquela partida.

Os navegadores, dado que com o fervor da obra e alvoroço daquela empresa embarcaram contentes, também, passado o termo do desferir das velas, vendo ficar em terra seus parentes e amigos, e lembrando-lhe que sua viagem estava posta em esperança e não em tempo nem lugar sabido, assi o acompanhavam em lágrimas como em pensamento das cousas que em tão novos casos se representam na memória dos homens. Assi que, uns olhando pera terra e outros pera o mar, e juntamente todos ocupados em lágrimas e pensamento daquela incerta viagem, tanto estiveram prontos nisso, até que os navios se alongaram do porto.

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Capítulo II

Como Vasco da Gama partiu de Lisboa, e do que passou até chegar ao padrão que Bartolomeu Dias pôs além do cabo de Boa Esperança

Chegado Vasco da Gama com os outros capitães a Lisboa na entrada de Julho do ano de mil quatrocentos e noventa e sete, tanto que os navios foram prestes, recolheu sua gente para se partir, sem guardar a eleição dos meses de que ora usamos para ir tomar os ventos gerais que cursam naquelas partes, porque naquele tempo tão escura era a notícia da terra que ia buscar, como os ventos que serviam para boa navegação

Mas parece que, como a manifestação deste novo mundo tantas centenas de anos encoberto, Deus a pôs neste termo, quando el-rei dom Manuel, houvesse a herança deste reino assi permitiu que sem a ordem dos meses naturais desta navegação, fosse a partida de Vasco da Gama pera poder partir, não esperava mais que navios prestes e um pouco de norte, que naqueles meses de Verão é geral nesta costa de Espanha, postos os navios em Rastelo, lugar de ancoragem antiga, um dia ante da sua partida foi ter vigília com os outros capitães a casa de Nossa Senhora da Vocação de Belém, situada neste lugar de Rastelo, a qual naquele tempo era hüa ermida, que o infante D. Anrique mandou fundar, onde estavam alguns freires do convento de Tomar pera administrarem os sacramentos aos mareantes.

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Acabando el-rei de propor estas palavras, Vasco da Gama e todas as notáveis pessoas lhe beijaram a mão: assi pela mercê que fazia a ele como ao reino, em mandar a este descobrimento continuado por tantos anos que já era feito herança dele. Tornada a casa ao silêncio que tinha antes deste acto de gratificação, assentou-se Vasco da Gama em giolhos ante el-rei, e foi trazida uma bandeira de seda com uma cruz no meio das da ordem da cavalaria de Cristo, de que el-rei era governador e perpétuo administrador, a qual, estendendo o escrivão da puridade entre os braços em modo de menagem, disse Vasco da Gama em alta voz estas palavras:

«Eu Vasco da Gama, que ora por mandado de vós, mui alto e muito poderoso rei, meu senhor, vou descobrir os mares e terra do oriente da Índia, juro em o sinal desta cruz, em que ponho as mãos que por serviço de Deus e vosso, eu a ponha hasteada e não dobrada, ante a vista de mouros, gentios, e de todo género de povo onde eu for, e que por todos os perigos de água, fogo, e ferro, sempre a guarde e defenda até à morte. E assi juro que na execução e obra deste descobrimento que vós, meu rei e senhor, me mandais fazer, com toda fé, lealdade, vigia, e diligência eu vos sirva guardando e cumprindo vossos regimentos que para isso me forem dados, até tornar onde ora estou ante a presença de vossa real alteza, mediante a graça de Deus em cujo serviço me enviais».

Feita esta mensagem, foi-lhe entregue a mesma bandeira, e um rendimento em que se continha o que havia de fazer na viagem, e algumas cartas para os príncipes e reis a que propriamente era enviado, assi como ao Preste João das Índias, tão nomeado neste reino e a el-rei de Calecut, com as mais informações e avisos que el-rei dom João tinha havido daquelas partes segundo já dissemos. Recebidas as quais cousas el-rei o espediu; e ele se veio a Lisboa com outros capitães.

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E sendo já no ano de quatrocentos noventa e sete, em que a frota para esta viagem estava de todo prestes, mandou el-rei, estando em Montemor-o-Novo, chamar Vasco da Gama e aos outros capitães que haviam de ir em sua companhia, os quais eram Paulo da Gama, seu irmão, e Nicolau Coelho, ambos pessoas de quem el-rei confiava este cargo. E posto que por algumas vezes lhe tivesse dito sua tenção acerca desta viagem, e disso lhe tinha mandado fazer sua instrução, pela novidade da empresa que levava, quis usar com ele da solenidade que convém a taes casos, fazendo esta fala pública, a ele e aos outros capitães, perante algumas pessoas notáveis que eram presentes, e para isso chamadas:

«Depois que aprouve a Nosso Senhor que eu recebesse o cetro desta real herança de Portugal, mediante a sua graça, assi por aver a benção de meus avós de quem a eu herdei, os quais com gloriosos feitos e vitórias que houveram de seus imigos a tem acrescentado por ajuda de tão leais vassalos e cavaleiros como foram aqueles donde vós vindes, como por causa de agalardoar a natural lealdade e amor com que todos me servis, a mais principal cousa que trago na memória, depois do cuidado de vos reger e governa em paz e justiça, é como poderei acrescentar o património deste meu reino, para que mais liberalmente possa distribuir por cada hum o galardão de seus serviços. E considerando eu por muitas vezes qual seria a mais proveitosa e honrada empresa e digna de maior gloria que podia tomar para conseguir esta minha tenção, pois, louvado Deus, destas partes da Europa em as de África a poder de ferro, temos lançado os mouros, e lá tomando os principais lugares dos portos do reino de Fez que é da nossa conquista, achei que nenhuma outra é mais conveniente a este meu reino (como algumas vezes com vosco tenho consultado) que o descobrimento da Índia e daquelas terras orientais. Em as quais partes, pero que sejam mui remotas da igreja Romana, espero na piedade de vós que não somente a fé de nosso Senhor Jesu Cristo seu filho seja por nossa administração publicada e recebida, com que ganharemos galardão ante ele, fama e louvor acerca dos homens, mas ainda reinos e novos estados com muitas riquezas vendicadas por armas das mãos dos bárbaros, dos quais meus avós com a ajuda, e serviço dos vossos e vosso, tem conquistado este meu reino de Portugal, e acrescentado a coroa dele. Porque, se da costa da Etiópia, que quase de caminho é descoberta, este meu reino tem adquirido novos títulos, novos proveitos e renda, que se pode esperar indo mais adiante com este descobrimento, se não podermos conseguir aquelas orientais riquezas tão celebradas dos antigos escritores, parte das quais por comércio tem feito tamanhas potências como são Veneza, Génova, Florença e outras mui grandes comunidades de Itália. Assi que, consideradas todas estas cousas de que temos experiência, e também como era ingratidão a Deus enjeitar o que nos tão favoravelmente oferece, e injuria àqueles príncipes de louvada memória de quem eu herdei este descobrimento, e ofensa a vós outros que nisso fostes, descuidar-me eu dele por muito tempo; mandei armar quatro velas que (como sabeis) em Lisboa estão de todos prestes para servir esta viagem de boa esperança. E tendo eu na memória como Vasco da Gama, que está presente, em todas cousas que lhe de meu serviço foram entregues e encomendadas, deu boa conta de si, eu o tenho escolhido para esta ida como leal vassalo e esforçado cavaleiro, merecedor de tão honrada empresa. A qual espero que lhe Nosso Senhor deixe acabar, e nela a ele e a mim faça tais serviços com que o seu galardão fique por memória nele e naqueles que o ajudarem nos trabalhos desta viagem, porque, com esta confiança, pela experiência que tenho de todos, eu os escolhi por seus ajudadores para em todo o que tocar a meu serviço lhe obedecerem. E eu, Vasco da Gama, volos encomendo, e a eles a vós, e juntamente a todos a paz e concórdia: a qual é tão poderosa que vence e passa todos perigos e trabalhos e os maiores da vida faz leves de sofrer, quanto mais os deste caminho que espero em Deus serem menores que os passados, e que por vós este meu reino consiga o fruto deles.»

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Porém, a estas razões houve outras em contrário, que, por serem conformes ao desejo de el-rei, lhe foram mais aceites. E as principais que o moveram, foram herdar esta obrigação com a herança do reino, e o infante dom Fernando, seu pai ter trabalhado neste descobrimento, quando por seu mandado se descobriram as ilhas de Cabo Verde, e mais por singular afeição que tinha à memória das cousas do infante dom Anrique, seu tio, que fora o autor do novo título do senhorio de Guiné que este reino houve, sendo propriedade mui proveitosa sem custo de armas e outras despesas que têm muito menores estados do que ele era. Dando por razão final, aqueles que punham os inconvenientes a se a Índia descobrir, que Deus, em cujas mãos ele punha este caso, daria os meios que convinham a bem do estado do reino.

Finalmente el-rei assentou de prosseguir neste descobrimento, e depois, estando em Estremoz, declarou a Vasco da Gama, fidalgo de sua casa, por capitão mor das velas que havia de mandar a ele, assim pela confiança que tinha de sua pessoa como por ter acção nesta ida, cá, segundo se dizia, estavam da Gama, seu pai já defunto, estava ordenado para fazer esta viagem em vida de el-rei dom Joam. O qual, depois que Bartolomeu Dias veio do descobrimento do cabo da Boa Esperança, tinha mandado cortar a madeira para os navios desta viagem, por a qual razão el-rei dom Manuel mandou ao mesmo Bartholomeu Dias que tivesse cuidado de os mandar acabar segundo ele sabia que convinha, para sofrer a fúria dos mares daquele grão cabo de Boa Esperança, que na opinião dos mareantes começava criar outra fábula de perigos, como antigamente fora a do cábo Bojador, de que no princípio falamos. E assim, pelo trabalho de Bartholomeu Dias levou ao apercebimento destes navios como para ir acompanhado Vasco da Gama até o por na paragem que lhe era necessária à sua derrota, el-rei lhe deu a capitania de um dos navios que ordinariamente iam à cidade de São Jorge da Mina.

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