Nicolau Coelho dar-lhes-ia instrução para que baixassem os arcos, estabelecendo – para os cativar e manifestar as suas boas intenções – a primeira troca, ao atirar-lhes um barrete vermelho, um sombreiro preto e a carapuça que usava; recebendo dos indígenas um sombreiro «de penas de ave», assim como um colar de contas brancas.

Assim se dava origem ao início do que se tornaria numa aliança de cerca de sete décadas entre os povos lusitano e da tribo Tupiniquim, que em número total de cerca de 85 000, ocupavam o litoral brasileiro, concentrados no sul da Baía e no litoral norte de São Paulo.

Entretanto, na noite de 23 de Abril, uma forte ventania faria afastar os navios portugueses, compelidos a apontar a Norte, visando encontrar uma zona abrigada para ancorar.

Bibliografia consultada

- “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
- “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
- “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

VII – Obras de divulgação, gerais e juvenis

Na secção final, juntam-se os trabalhos, num total de 79, que, em rigor, deveriam estar autonomizados em várias categorias. Em primeiro lugar, constam obras de divulgação sobre a vida e os feitos de Vasco da Gama, escritos em prosa simples ou romanceada e sem preocupações de erudição ou mesmo, em muitos casos, de rigor histórico. As obras de Étienne Micard, Luigi Rinaldi, Mário Viana e Elaine Sanceau (mau-grado o aparato crítico elementar) enquadram-se nesta categoria. De igual modo pode ser encarado o opúsculo de Joel Mota, cujo maior interesse é a cronologia de “descobrimentos, conquistas e expedições”, abarcando o período entre 1415 e 1930. Também obras gerais sobre os grandes nomes da Era dos Descobrimentos incluem inevitavelmente o nome do Gama, que surge muitas vezes ofuscado por Cristóvão Colombo, a quem se concede geralmente o maior destaque. Isto pode ser constatado tanto em obras recentes como, sobretudo, em trabalhos mais antigos, como o de Émile Deschnel, que apesar da paridade do título (Christophe Colomb et Vasco da Gama) apenas concede as 12 páginas finais ao navegador português.

Um outro tipo de trabalhos foi igualmente remetido para esta secção, por abordar a figura ou as viagens do Gama como mote para outros temas, que constituem o cerne das obras. Incluem-se aqui os livros de Sydney Welch e Genesta Hamilton: o primeiro interessa-se particularmente pelas relações dos Portugueses com a Etiópia e o segundo trata da presença portuguesa na costa oriental africana até ao século XVIII.

A ligação de Vasco da Gama a diversas localidades de Portugal, sobretudo Sines, é igualmente alvo de diversos trabalhos, sendo um dos mais importantes a monografia da terra natal do navegador elaborada por Arnaldo Soledade. Ilustrada e romanceada, utilizando tanto os dados históricos com a tradição, a obra dedica cerca de 20 páginas a Vasco da Gama, não escapando a uma descrição romântica da sua infância e juventude.

Destaca-se ainda um caso deveras peculiar: o trabalho de Francis Lefebvre, designado por Expériences initiatiques. Trata-se de uma obra de ocultismo, que mistura yoga com o misticismo religioso cristão, contendo o terceiro volume um capítulo dedicado a Vasco da Gama, provavelmente por ter sido o homem que pela primeira vez colocou em comunicação directa a Europa e a Índia.

Elaine Sanceau é autora de uma célebre colecção juvenil (“Quer saber?”) dedicada aos Descobrimentos, que não podia deixar de incluir um volume dedicado a Vasco da Gama. A obra (A viagem de Vasco da Gama) já vai na 7ª edição, marcando um sucesso só comparável, talvez, à colecção “História Júnior”, de António do Carmo Reis e José Garcês. A Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses lançou recentemente a colecção Na Crista da Onda, para um escalão etário ainda mais jovem. No que toca a banda desenhada, o panorama é lamentavelmente pobre. Paulo Alexandre Loução inclui uma pequena biografia do navegador em quadradinhos, mas o tom nacionalista da obra em nada favorece o trabalho. Ficamo-nos, assim, pelo álbum dos irmãos Santos, Fernando e Carlos, que já mereceu, aliás, alguns comentários de Sanjay Subrahmanyam. A história é razoavelmente bem contada, o grafismo é agradável e a adequação à época, se excluirmos as imagens estereotipadas de africanos e asiáticos e alguns engulhos (como a bandeira de D. Pedro IV numa das naus), é aceitável.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174 

A primeira tentativa de estabelecer diálogo, por intermédio do envio de um batel, com Nicolau Coelho e Gaspar da Gama (o “judeu da Índia”, que falava árabe, assim como os dialectos hindus), assim como um grumete da Guiné e um escravo de Angola – representando os três continentes até então conhecidos e dominando seis idiomas diferentes – revelar-se-ia infrutífera, devido ao ruído do mar agitado e da rebentação («não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa»).

Desse breve e fugidio contacto restava, não obstante, e desde logo, a novidade, para os portugueses, da visão daqueles homens «pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cobrisse suas vergonhas».

Quando o bote em que se fazia transportar a “comitiva exploratória” tocou no fundo de areia, os nativos (dezoito a vinte homens) de imediato se aproximaram, «todos rijamente, trazendo nas mãos arcos e setas».

Bibliografia consultada

- “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
- “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
- “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

VI – Os Centenários

Entre catálogos de exposições, números de jornais e periódicos, geralmente em número único, editados por ocasião dos centenários de Vasco da Gama (1898, 1924 e 1969), mas também da morte do Infante D. Henrique (1960), contámos 34 títulos, o que constitui certamente apenas uma pequena amostra do que existe.

O exemplo mais interessante das obras deste tipo é o volume organizado por Juliette Adam, em 1898, numa edição patrocinada pelo próprio rei D. Carlos, embora em língua francesa. Trata-se de um álbum de homenagem dos intelectuais franceses a Vasco da Gama, consistindo num conjunto de escritos e gravuras criados expressamente para este fim.

O pequeno estudo de Maria da Conceição Vilhena, “Mistral et Vasco da Gama” (cf. Secção I), trata sucintamente de diversos aspectos e edições do centenário de 1898.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174

Após 43 dias de navegação, e mais de 6 000 quilómetros percorridos (encontrando-se então a cerca de 17º S de latitude), a 21 de Abril, era avistada no mar uma grande quantidade de «ervas compridas», até que, na manhã do dia seguinte, 22 de Abril, os «fura-buchos» anunciavam o que logo seria visível: terra firme!

Ao entardecer de 22 de Abril de 1500 a expedição ancorava frente ao Monte Pascoal («houvemos vista de terra, a saber, primeira de um monte grande mui alto e redondo e de outras serras mais baixas ao sul dele, e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs o nome de monte Pascoal»), a cerca de 20 milhas da costa.

Na manhã seguinte, ancorando a apenas cerca meia légua da praia (foz do que viria a ser denominado rio do Frade), estabelecia-se o primeiro contacto visual entre os exploradores lusos e os nativos da nova terra agora descoberta.

Bibliografia consultada

- “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
- “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
- “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

V – Romances, poemas, obras musicais

A vida e os feitos de Vasco da Gama inspiraram, sobretudo por ocasião dos centenários, vários autores a escrever poemas ou romances. Contabilizámos 30 títulos, de que o exemplar mais recente é a obra de Mário Cláudio Peregrinação de Barnabé das Índias, remontando a obra mais antiga ao longínquo ano de 1792. Trata-se, curiosamente, não de uma poesia ou de um romance, mas de um drama musical, algo semelhante a uma ópera. Da autoria de A. Filistri, poeta da Corte prussiana, a obra, em três actos, foi representada no Teatro Real de Berlim, em 1792. A edição é bilingue, em Italiano/Alemão. Contém apenas seis personagens:

Vasco, capitão-mor da armada portuguesa; Ostarbe, o Samorim de Calecute; Alzira, uma escrava árabe do Samorim; Fernando, irmão de Vasco; Darassa, princesa de Narsinga, pretendente à mão do Samorim, e Monsaid, o mouro de Tunes, confidente do mesmo Samorim. O argumento parece deveras simples: trata da chegada dos Portugueses a Calecute, e das tentativas empreendidas por Vasco da Gama para obter uma aliança com o Samorim, tendo sido ajudado por Monsaid mas contrariado pela gente da terra, que incentivava o seu rei a prender o capitão português.

Geralmente em tom inflamado e patriótico, as poesias dedicadas ao navegador não primam, diga-se em boa verdade, pela originalidade, embora algumas sejam formalmente perfeitas. Um exemplo interessante, que revela o aproveitamento das figuras da História para as paixões nacionalistas de determinadas conjunturas, é o poema de Alfredo Ceillão. Dedicada aos republicanos, em pleno ardor nacional motivado pelo ultimatum inglês, a obra, escrita em tons carregados e tristes, relembra glórias passadas, mencionando a época de Vasco da Gama. De seguida, introduz os ingleses, a quem chama de “piratas” e que brinda com autênticos mimos (“Nesse tempo a Inglaterra era um curral infecto/ De celerados vis e rotos pescadores/ Em cuja alma corrupta, em cujo ventre abjecto/ Andava a vilania a fecundar traidores”) para posteriormente traçar um quadro negro do presente, anunciando a alvorada da revolução republicana.

Por último, temos os romances, que na maior parte dos casos são descrições ficcionadas da primeira viagem do Gama, sendo uma boa parte da autoria de estrangeiros. Um deles, da autoria de José Álvarez-Perez, mereceu uma tradução para Português pela mão de Cândido de Figueiredo, que no entanto não indica o nome do autor, dizendo “traduzido do Espanhol”.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174

Pedro Álvares Cabral, membro da nobreza e militar (cavaleiro), de apenas 32 anos de idade, recebera de Vasco da Gama indicações sobre a rota a seguir a partir dessa região, com a famosa “volta do mar”, fazendo um desvio para ocidente / sudoeste, visando evitar as calmarias do Golfo da Guiné, antes de rumar a sudeste até contornar o antigo “Cabo das Tormentas”.

Assim, após a entrada no hemisfério sul, a rota seguida passou a ser dirigida a su-sudoeste, tendo a frota passado a cerca de 200 milhas a ocidente do arquipélago de Fernando de Noronha.

Cerca do dia 18 de Abril, a expedição encontrar-se-ia próximo da Baía de Todos-os-Santos (13º S), impelindo-a o rumo seguido progressivamente a caminho de terra. No dia seguinte, Domingo de Páscoa, a armada lusitana terá passado a cerca de 250 quilómetros da costa, à latitude de Salvador.

Bibliografia consultada

- “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
- “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
- “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

IV – Vasco da Gama e Os Lusíadas

Não poderia estar ausente, num trabalho deste tipo, um capítulo dedicado aos trabalhos sobre Vasco da Gama e Luís de Camões, incluindo desde ensaios de Literatura a pequenos volumes contendo excertos de Os Lusíadas, num total de apenas 20 títulos. Curioso e particularmente interessante, embora não devesse, em rigor, estar aqui incluído, é a paródia à epopeia camoniana da autoria de J. Scarron (certamente um pseudónimo), chamada de Les Lusiades travesties: parodie en vers burlesques, grotesques et sérieux: voyage maritime et pédestre du grrrand [sic] portugais Vasco de Gama. Apesar de escrita em Francês, a obra foi impressa no Porto, em 1883. Eis o início: “Je chante le héros d’un tout petit pays,/ Les trois petits bateaux, où pressés, réunis,/ Sont cent quarante huit, serrés comme sardines,/ Mais tous forts et nervoux, pouvous de bonnes mines.”

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174

Cerca de 100 quilómetros depois, com os ventos alísios de nordeste, a esquadra de Cabral rumou a oeste, em direcção ao arquipélago de Cabo Verde, a cerca de 600 quilómetros da costa africana, tendo a ilha de São Nicolau sido avistada a 22 de Março.

No dia seguinte, a nau capitaneada por Vasco de Ataíde desapareceu, sem que, aparentemente, houvesse condições meteorológicas que o pudessem justificar («sem aí haver tempo forte nem contrário para poder ser»), tendo as diligências para a localizar, realizadas durante dois dias, sido infrutíferas. Era o primeiro de uma série de alguns naufrágios da expedição.

Retomando viagem, a esquadra iniciaria, entre 29 e 30 de Março – localizando-se a cerca de 5º N – a passagem pela zona de calmarias equatoriais, em que os navios podiam ficar praticamente imobilizados durante mais de um mês.

Aí ficariam retidos durante cerca de 10 dias, até que, possivelmente a 9 de Abril, precisamente um mês após a partida de Lisboa, cruzariam a linha do Equador.

Bibliografia consultada

- “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
- “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
- “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

Em 1925, Luciano Pereira da Silva escrevia um importante ensaio (“O ‘roteiro’ da primeira viagem do Gama e a suposta conjuração”) que viria a afirmar de vez a versão que é hoje mais corrente e geralmente aceite acerca da primeira viagem de Vasco da Gama. O seu artigo surgiu na continuidade de trabalhos de terceiros (nomeadamente Frederico Dinis de Ayala, em Vasco da Gama: quando partiu?) que colocavam sérias reticências ou rejeitavam liminarmente o valor do relato chamado de Álvaro Velho. Estes autores apoiavam-se nas informações de Gaspar Correia e Jerónimo Osório, contra os dados veiculados por João de Barros, Castanheda e Damião de Góis, que concordam em geral com os dados do relato anónimo. Para além da data da partida da expedição, estava igualmente em discussão uma alegada revolta, ou ensaio de revolta, a bordo da armada, por alturas da passagem do Cabo da Boa Esperança, veiculada pelos dois cronistas acima indicados, que Alexandre Herculano concedera algum crédito mas que Pereira da Silva, apoiado por Franz Hümmerich, rejeitava em absoluto.

Uma obra absolutamente essencial para a primeira viagem de Vasco da Gama é o artigo de Gabriel Ferrand (de 1922, traduzido para Português pouco depois), onde pela primeira vez se identificou o piloto que o rei de Melinde cedera ao capitão-mor, e que os cronistas portugueses chamavam de “canaqua” ou “malemo canaqua”, com Ibn Madjid, cosmógrafo árabe autor de diversos roteiros e obras de náutica. Esta versão foi rapidamente aceite pelos historiadores, tendo sido posteriormente reforçada com a notícia da existência de três roteiros do mesmo piloto em Leninegrado (ou S. Petersburgo), descobertos em 1930 pelo orientalista soviético J. Kratchkovsky, mas que só viriam a ser publicados em 1958 por T. A. Chumovsky, um seu discípulo. Um deles é o célebre Roteiro de Sofala, que faz diversas referências aos Portugueses. Esta versão, acompanhada pela reprodução do roteiro, foi aceite sem reservas, por exemplo, por Costa Brochado (O piloto árabe de Vasco da Gama). Estudos posteriores viriam, no entanto, a deitar por terra esta tese, ao provar que o famoso Ibn Madjid deixara de navegar muito antes da chegada do Gama às águas do Índico, e que as referências que as suas obras fazem aos Portugueses resultam, muito provavelmente, de interpolações posteriores (cf. por exemplo Luís Albuquerque, Os Descobrimentos Portugueses, secção I).

Por fim, refira-se ainda o útil trabalho de José Pedro Machado (“Terras de além”), autor igualmente de uma boa edição do roteiro dito de Álvaro Velho, que elabora uma listagem alfabética de todos os topónimos do referido relato, com a respectiva identificação e com o devido aparato crítico e erudito.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174

Ao final da tarde do Domingo previsto para a partida (8 de Março), e após a saída de Lisboa para o Restelo, o tempo mudaria, com ventos fortes impedindo a descida do Tejo por parte da frota.

Apenas no final da manhã de 9 de Março de 1500 seria finalmente possível zarpar e entrar no Oceano Atlântico. Cerca de 1500 homens iniciavam uma aventura de que apenas 500 regressariam.

A partir de Lisboa, seguindo o rumo sul-sudoeste, beneficiando de ventos favoráveis, passaram próximo da ilha da Madeira, apontando em direcção às Canárias, arquipélago de que passaram ao largo na manhã de sábado, 14 de Março, cumpridas 700 milhas náuticas (cerca de 1300 km).

Bibliografia consultada

- “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
- “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
- “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

III – Trabalhos sobre navegação e náutica

Na terceira secção, num total de 55 obras e artigos, foram integrados os trabalhos de náutica e navegação, ou ainda aqueles que se dedicam especificamente aos problemas técnicos das viagens (sobretudo a primeira) e dos navios utilizados por Vasco da Gama, assim como os que seguem de perto a relação dita de Álvaro Velho. Alguns dos títulos aqui incluídos referem-se a Os Lusíadas, mas procurou-se incluir aqui apenas as obras de teor especificamente náutico, remetendo outras questões que envolvam o Poeta para a secção IV.

A reconstituição da rota da armada de Vasco da Gama, na primeira viagem, tal como é hoje aceite pela generalidade dos historiadores, ficou sobretudo a dever-se aos trabalhos de Gago Coutinho, num conjunto de ensaios e artigos que foram posteriormente reunidos, na sua maior parte, em A náutica dos Descobrimentos. Ficou célebre a polémica em que o insigne almirante se envolveu com José Maria Rodrigues, nas páginas da revista Biblos, no decorrer de meia década. Este autor afirmava, mediante a análise de várias estrofes do Canto V d’Os Lusíadas, que Camões descrevia duas rotas distintas da armada de Vasco da Gama, no Atlântico. Gago Coutinho, para além de não vislumbrar qualquer “rota dupla” na obra, arremessava ao arguente todo o peso dos seus conhecimentos de Náutica e de História para o refutar, partindo de um problema ético aparentemente menor: repugnava-lhe que Luís de Camões tivesse induzido propositadamente o leitor da epopeia em erro e confusão, por mero artifício literário, sendo conhecedor da verdadeira rota que utilizara Vasco da Gama. A polémica acabou por morrer em 1934, sendo os argumentos de Gago Coutinho aceites hoje pela generalidade dos historiadores.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174

A chamada segunda divisão compreendia uma pequena caravela redonda (cerca de 80 homens), comandada por Bartolomeu Dias, e uma nau (com 150 homens), capitaneada por Diogo Dias (seu irmão), tendo por objectivo criar uma feitoria na cidade de Sofala (último ponto da costa oriental africana que os navios árabes alcançavam).

Depois de ter conseguido, pela primeira vez, dobrar o Cabo das Tormentas (em 1488), Bartolomeu Dias fora impedido de prosseguir caminho pela tripulação; em 1497, integrando a expedição de Vasco da Gama, tinha por missão, conforme ordem do rei, permanecer na fortaleza da Mina, na Guiné; por fim, em 1500, fazendo novamente parte de uma expedição que tinha por destino final a Índia, a sua missão limitava-se a navegar até Sofala.

O destino ditara que não chegaria nunca à Índia; em Maio de 1500, seria vítima de naufrágio no Cabo da Boa Esperança…

Bibliografia consultada

- “A Viagem do Descobrimento – A Expedição de Cabral e o Achamento do Brasil”, de Eduardo Bueno, Editora Pergaminho, 2000
- “Os Descobrimentos Portugueses”, de Luís de Albuquerque, edição das Selecções do Reader’s Digest, 1985
- “O Achamento da Terra de Vera Cruz”, de Jorge Couto, Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas, número 8, Janeiro-Março de 2000

No sábado festeja-se o fim da expedição de Pedro Teixeira, o explorador português que subiu o rio Amazonas no século XVII. Mas “Curiua-Catu”, o Homem Branco Bom e Amigo, é homenageado já hoje no Senado brasileiro. Para que ninguém esqueça o que fez por Portugal e pelo Brasil

Pedro Teixeira: sabe quem é? Provavelmente não. Mas na Ajuda, em Lisboa, há uma estrada com o seu nome. Em Cantanhede, onde nasceu, há uma estátua. No Brasil, onde morreu a 6 de Junho de 1641, o seu rosto foi estampado nas notas de cinco cruzeiros; e quando o Papa João Paulo II, em 1980, fez uma viagem entre Belém do Pará e Manaus viajou num navio de guerra que tinha o seu nome.

Os índios brasileiros chamavam-lhe “Curiua-Catu”, o Homem Branco Bom e Amigo, e quase no final da sua vida foi nomeado capitão-mor do Grão Pará. Fez-se acompanhar por índios numa expedição que partiu de Gurupá, a 28 de Outubro de 1637, com duas mil pessoas. Subiram os rios Amazonas e Negro e chegaram à cidade de Quito, actual capital do Equador, voltando a Belém do Pará 26 meses depois da partida (a 12 de Dezembro de 1639). O rio Amazonas passava, assim, a pertencer na sua totalidade a Portugal (que permanecia sob o domínio da Coroa espanhola). Um feito extraordinário para a época.

“Pedro Teixeira é um herói esquecido que precisa de ser recuperado”, diz ao P2 por telefone Aloizio Mercadante, o senador brasileiro que está a lançar um movimento para “resgatar a memória, reconhecer e valorizar a imensa contribuição” que este português de Cantanhede, no distrito de Coimbra, teve na História do Brasil. A sessão de homenagem que se realiza hoje, às 10h00, no Senado Federal, em Brasília, para comemorar os 370 anos da expedição de Pedro Teixeira, o “desbravador” português, partiu de uma proposta sua. Para o senador, a contribuição daquele a quem chamam o conquistador da Amazónia no processo de constituição e afirmação da soberania territorial foi decisiva e deve ser celebrada por portugueses e brasileiros.

“A Pedro Teixeira se deve quase metade do nosso território actual. Mais de 62 por cento da Amazónia está em território brasileiro por causa dele”, explica, lembrando que a região, além de património da humanidade, tem a maior concentração de água doce do planeta e é a mais importante floresta tropical.

Agora que o Brasil “deixou de ser um problema na agenda internacional e passou a ser parte da solução”, é possível que o país olhe para a sua história com “orgulho e auto-estima”. E à medida que isso acontecer, acrescenta Mercadante, o Brasil terá obrigatoriamente de reconhecer a imensa contribuição de Portugal.

“No momento em que o mundo está discutindo o efeito de estufa, em que há uma grande preocupação com o aquecimento global, sinto que esse chamamento da Amazónia é muito importante para o debate”, diz o popular Mercadante, líder da bancada do PT e vice-presidente do Parlamento do Mercosul, que é ainda cronista do jornal O Globo e tem mais de 30 mil seguidores no Twitter.

O pedido do governador

Pedro Teixeira era um militar que participou na fundação da cidade de Belém, a capital do estado do Pará, e que depois se destacou em várias missões militares, combatendo holandeses, ingleses e franceses. Quando dois padres e quatro soldados espanhóis chegaram perdidos a Belém, com a novidade de que o rio Amazonas era navegável, o governador do estado do Grão-Pará e Maranhão pediu a Pedro Teixeira para organizar a expedição até Quito (na época parte do vice-reinado do Peru).

No regresso, com testemunhas espanholas, Teixeira vai registando a posse das terras para o reino de Portugal. “Como naquela época Portugal estava subordinado à Coroa espanhola, o livro que relata essa epopeia, em 1641 [Novo Descobrimento do Grande Rio Amazonas e a Viagem de Pedro Teixeira Águas Arribas, de Frei Cristobal d"Acuña] acaba sendo queimado e isso não foi valorizado nem pela historiografia portuguesa nem brasileira”, explica o senador, que quer chamar a atenção para este “vulto histórico” que parece estar condenado ao esquecimento.

O seu nome não consta do Livro dos Heróis da Pátria (ou Livro de Aço) que está no Panteão da Liberdade e da Democracia Tancredo Neves, em Brasília, e nem sequer figura na lista de candidatos. Mercadante preparou um projecto de lei para que o nome de Pedro Teixeira seja inscrito neste Livro de Aço. Propõe também que a história da expedição do navegador português passe a fazer parte dos currículos escolares no Brasil.

A expedição de Pedro Teixeira era composta por 70 canoas (45 de grandes dimensões, com vinte remadores cada). Acompanhavam o explorador 70 soldados portugueses e 1200 índios, muitos deles “flecheiros” (arqueiros), que levaram as suas mulheres e filhos.

Teixeira (cuja data de nascimento se situa entre 1570 e 1585) era de ascendência nobre e foi para o Brasil em 1607, conta a autora do livro A Expedição de Pedro Teixeira – A Sua Importância para Portugal e o Futuro da Amazónia (ed. Ésquilo). Esta brasileira, Anete Costa Ferreira, é investigadora de ciências sociais e história luso-amazónica e estará hoje na sessão de homenagem em Brasília.

O navegador falava o tupi – língua com origem no povo tupinambá – e essa era uma das razões pelas quais era tão acarinhado pelos índios. “Sempre fez amizade com os índios, o que lhe valeu de muito”, explica ao telefone a partir do Brasil esta especialista, que hoje vive em Portugal.

Os índios que embarcaram com o português nesta expedição iam em busca da Terra sem Mal, a morada dos antepassados, segundo os índios tupi e guarani, um território onde as pessoas não envelheciam. “A tribo Tupinambá acreditava nisso e à medida que a expedição decorria foi ficando decepcionada. Os índios achavam que iam chegar à Terra sem Mal e, como a viagem não era aquilo que pensavam, começaram a enfraquecer”, diz Anete Costa Ferreira.

A descrição desta expedição chega até nós através de um documento que está na Biblioteca da Ajuda (Relazion del General Pedro Teixeira de el rio de las Amazonas para el Senhor Príncipe, 1639). “É o diário de bordo que Pedro Teixeira fez durante a viagem. Esse é o grande documento que o celebrizou, é um levantamento geral da fauna, da flora, do minério, dos costumes… Entra tudo o que ele foi vendo no seu trajecto”, explica a investigadora. Incluindo os canibais.

Nessa grande expedição, Pedro Teixeira fixou uma série de territórios até então desconhecidos, como as ilhas das Areias ou Santa Luzia. Na viagem de regresso a Belém do Pará descobre o rio Negro (onde mais tarde se ergueu a cidade de Manaus) e o rio Madeira, um grande afluente do Amazonas.

Um dos feitos mais importantes da expedição é a fundação do povoado de Franciscana, oficializada a 16 de Agosto de 1639. Obedecendo às ordem do governador, Pedro Teixeira toma posse desse território, mas diz que o faz para a Coroa portuguesa (e não para a espanhola). Com a nova povoação, o navegador quis homenagear todos os missionários franciscanos.

Sem amazonas

No documento que se encontra na Biblioteca da Ajuda, Teixeira conta ainda que, tanto na ida como na volta da expedição do rio Amazonas, não viu as amazonas descritas durante a viagem de Francisco de Orellana, explorador espanhol que antes navegara parte do Amazonas. As ditas amazonas foram descritas por Carvajal, frade que acompanhou Orellana, como “mulheres sem peito, guerreiras, e que não aceitavam o homem no seu habitat”, conta Anete Costa Ferreira.

Apesar de nunca se ter cruzado com elas, Teixeira relata que lhe chegaram muitas notícias das amazonas. Diz mesmo que estariam “a seis jornadas” do sítio em que se encontravam e que teriam 300 aldeias ou mais, com “quinhentos ou oitocentos casais” cada: “Aqui acabam-se as flechas furadas perigosas e, ainda que as haja por todo o rio, não matam como as do Sul”, escreve.

A documentação sobre este conquistador do Brasil é esparsa. “Em Portugal pouca coisa há”, diz Anete Costa Ferreira, lembrando que o historiador Jaime Cortesão (também de Cantanhede) apresentou no IV Congresso de História Nacional no Brasil, em 1949, O significado da expedição de Pedro Teixeira à luz de novos documentos. Em 2002 foi realizado o documentário Curiua-Catu: A Grande Expedição de Pedro Teixeira 1637-1639, realizado por Carlos Barreto.

Para contrariar a dispersão de documentos e mesmo a falta de informação ainda mais detalhada, Anete Ferreira vai começar dentro de dias uma investigação no Museu Naval e no Arquivo Público de Belém do Pará, e em São Luís do Maranhão. Passará também pela Catedral de Belém, onde está sepultado.

Para ajudar a resgatar a memória do explorador, a Portugal Telecom associa-se à homenagem de hoje no Senado, lançando o Prémio Pedro Teixeira para estudantes portugueses e brasileiros, dos 12 aos 18 anos. Os três melhores trabalhos sobre a vida e o impacto dos feitos de Teixeira na história de Portugal e do Brasil irão ter como prémio uma viagem cultural ao Brasil (se forem portugueses) ou a Portugal (se forem brasileiros). Será ainda lançado um site em português e inglês dedicado a perpetuar a memória do explorador português “Curiua-Catu”.

(Público)

II – As viagens

Esta segunda secção diz respeito às fontes das duas viagens de Vasco da Gama à Índia. Trata-se de uma enumeração, bastante sumária aliás (apenas 28 registos), de edições e traduções dos relatos de ambas as viagens. No que toca à primeira, a listagem não oferece dificuldades. Trata-se da famosa relação anónima, atribuída geralmente a Álvaro Velho, que foi pela primeira vez editada por Diogo Kopke e António da Costa Paiva em 1838, e que conheceu posteriormente diversas edições e traduções. A questão torna-se bem mais complexa quando abordamos a segunda viagem, dado o conjunto de fontes associado (relato anónimo, relação calcoen, informação de Tomé Lopes, etc.). Deslindar caso a caso as obras que editam uma, duas ou mais destas fontes merecia um trabalho á parte. Do mesmo modo, optou-se por não se incluir outras fontes contemporâneas que referem as viagens do Gama (João de Barros, Castanheda, Gaspar Correia, Damião de Góis, Jerónimo Osório ou as diversas relações italianas). Para esclarecimentos complementares sobre o problema das edições das fontes de ambas as viagens de Vasco da Gama, remetemos para a obra de Luís Adão da Fonseca, que apresenta uma excelente resenha bibliográfica acerca desta questão.

Paulo Jorge de Sousa Pinto e Ana Fernandes Pinto. “Vasco da Gama na História e na Literatura – Ensaio Bibliográfico” In Mare Liberum, nº 16, Dezembro 1998, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, pp. 135-174

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