Outubro 2009
Monthly Archive
Sex 30 Out 2009
É claro que o Brasil vingou-se. Perante a vil tristeza que se apossou do império da Índia e do sonho de Albuquerque, afirmou-se em toda a sua pujança e a sua glória como uma das mais portentosas pátrias do Universo. De mais pujante alegria e rutilante cor. De mais abrangente espaço e potencial riqueza.
Seria petulância pretender que fomos só nós que o fizemos. Mas debalde se nos recusará a glória de o termos começado e ajudado a fazer.
E mesmo que não seja verdade que lhe concedemos de mão beijada a independência – como alguns sem verdade pretendem – também não é mentira que não resistimos a conceder-lha até ao limite da nossa capacidade de retardá-la.
Tivemos, nesse então, impulsos de lucidez que nos faltaram em relação ao fim da nossa presença na Índia e depois em África. Portugal amava apaixonadamente o Brasil. Ainda ama. Mas Portugal e o Brasil amavam ainda mais o espírito libertador das revoluções americana, francesa e liberal. O vintismo impregnava os espíritos. E, por mais que isso doa aos detractores do papel de Portugal, foi um Príncipe Português que soltou o célebre grito do Ipyranga. Conquistaram-no patriotas brasileiros? Em grande medida é isso verdade. Mas foi ele que o gritou. E a independência do Brasil nasceu desse grito.
“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 11 a 15
Qui 29 Out 2009
O nome era conhecido. A personalidade do descobridor não tanto!
Mas não no-lo descrevem com cópia de pormenores o Pêro Vaz de Caminha, na parte relativa ao achamento, e o Piloto Anónimo, na parte que diz respeito ao prosseguimento da viagem até à Índia e regresso, após ter lançado as primeiras bases do nosso comércio com o Oriente?
Sim e não. Descrevem as suas determinações, as suas cautelas, os seus ardis, a sua tolerância, a sua ira quando em Calecut foi precisa violência e foi precisa coragem. Mas não os seus antecedentes, a sua personalidade, o que veio a saber-se depois. As pazadas de ingratidão e esquecimento sobre ele lançadas fizeram o resto.
Cinquenta anos depois, Camões, o genial cantor da nossa gesta de quinhentos, incensa o Infante e o Gama, exalta o Albuquerque e o Magalhães, tantos outros. Sobre Cabral, nem um verso a registar o seu nome. De Lisboa ao Japão e a Timor, não há lugar que não refira ou mesmo descreva. Sobre o depois Brasil, só ao fechar o pano do seu imortal poema assim avaramente se lhe refere: «Mas cá onde mais alarga ali tereis / Parte também que o pau vermelho nota. / De Santa Cruz o nome lhe poreis / Descobri-la-á a primeira vossa frota».
O próprio Fernando Pessoa, que na sua Mensagem quase não deixa grande figura histórica sem poema, e multiplica os que dedica ao «louco» rei Sebastião, esquece Cabral e a descoberta do Brasil.
“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 11 a 15
Qua 28 Out 2009
É o segredo que explica as exíguas quatro linhas da carta de D. Manuel ao Rei de Espanha a anunciar a achamento, perdidas entre um vasto texto sobre a Índia.
É o segredo, conjugado com o pouco entusiasmo exteriorizado por Cabral após o achamento, e com o pouco interesse de início despertado pela boa nova. Só décadas depois a terra achada começou a ser povoada.
São o segredo e os 300 anos de silêncio sobre a carta de Caminha, entretanto desaparecida. É a chocante falta de notoriedade, ao tempo, do feito de Cabral e deste mesmo, logo preterido por Vasco da Gama no comando de uma nova expedição à Índia. Daí o seu exílio voluntário numa quinta em parte incerta do termo de Santarém, antecipando de séculos o retiro para Vale de Lobos do grande Alexandre Herculano.
É enfim o segredo e o facto insólito de Cabral ter sido enterrado em campa rasa, e só mais tarde transladado para a Igreja da Graça, em Santarém, com a seca inscrição do seu nome e nenhuma referência ao seu feito, onde viria a ser descoberto, curiosamente, por um historiador brasileiro, outros três séculos depois!
A Índia era a jóia das ambições e das cobiças. A ela, e aos que contribuíram para a sua descoberta, toda a honra e toda a glória. Títulos honoríficos e copiosas tenças premiaram Vasco da Gama. O esquecimento ou o quase esquecimento foi a paga de Álvares Cabral.
Quem, enfim, o tornou célebre e grande, como hoje se reconhece que foi? A celebridade e a grandeza de que veio a revestir-se a coisa achada: o portentoso Brasil. Perante o milagre da sua unidade, obra prima do génio português e brasileiro; da defesa e do alargamento do seu território, em reiterado desfeiteamento da linha divisória pactuada; tendo em conta o fraccionamento em 18 países da América espanhola; e sobretudo o prodígio da sua tão rica identidade, que fazem dele um caso civilizacional sem paralelo, quis-se naturalmente conhecer melhor quem o descobriu.
“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 11 a 15
Ter 27 Out 2009
Para lá disso, um rei poeta que plantou caravelas; um Infante genial e fanático que sonhou impérios; tecnologias de ponta na arte de marear a privilegiar-nos na grelha de partida.
E assim como, segundo alguns, às tantas Deus teria dito «faça-se Newton», terá dito também: «descubra-se a América». Ter-se-iam encarregado disso, como agentes da sua vontade, Colombo, Vespúcio e Cabral. Colombo terá descoberto a hoje América do Norte, supondo que tinha aportado à Índia. E nessa ilusão morreu, apesar de por mais de uma vez ter repetido a façanha. Vespúcio terá chegado até à foz do rio Amazonas, nas igualmente sem saber aonde. Cabral terá atingido Porto Seguro julgando ter aportado a uma ilha.
Se houvéssemos de perfilhar a tese do achamento por erro, ou por acaso, contra a tese da intencionalidade, tudo se teria passado à revelia de uma deliberada intenção. A descoberta do depois chamado Novo Mundo, identificar-se-ia antes com a vontade de um Deus que gostasse de «jogar aos dados».
Sou, claramente, pela tese da intencionalidade. Não, ou não só, porque é a que melhor serve o meu orgulho de ser português. Mas por um conjunto de razões, entre as quais avulta a opção feita por D. João II no Tratado de Tordesilhas, a qual melhor se compreende conhecendo ele as terras a haver segundo a partilha feita.
Os argumentos em contrário encontram fácil contraveneno na política de sigilo praticada pelos reis de Portugal e de Castela. O sigilo valia mesmo em relação a Vaz de Caminha, o prodigioso cronista do achamento? Ou limitou-se ele a colaborar no segredo?
“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 11 a 15
Seg 26 Out 2009
Sr. Presidente da República Federativa do Brasil, Sr. Primeiro-Ministro, Srs. Membros dos Governos de Portugal e do Brasil, Srs. Presidentes do Supremo Tribunal de Justiça e do Tribunal Constitucional, Srs. Vice-presidentes da Assembleia da República e Srs. Deputados, Srs. ex-Presidentes das Repúblicas de Portugal e do Brasil, Srs. ex-Primeiros-Minsistros, Srs. Representantes do Corpo Diplomático, Excelências, demais Autoridades Militares, Civis e Académicas, Minhas Senhoras e Meus Senhores: Sr. Presidente Fernando Henrique Cardoso, na pessoa de V. Exa. é o Brasil que nos visita. Imenso como é, o Brasil cabe nesta sala, porque cabe no nosso coração. O coração onde coube e continua a caber o mundo inteiro, porque é o coração de cidadãos de um país que arredondou o planeta, foi universal e para sempre ficou universalista.
A aldeia global começou connosco e ficou dentro de nós. Outros mais cheios de prosápia se deixaram enredar nos quatro cantos de uma visão paroquial do Mundo e da Vida. Nós não! Universalistas pela experimentação e pela fé; franciscanos pelo sentimento; racionalistas e copernicianos pela curiosidade; temerários pela coragem, fomos dos primeiros a furar o futuro como o bichinho sedento do poeta Gedeão.
Porquê da Europa para a China, e não da China para a Europa? Porquê nós?
Predestinação? Favor dos deuses? Simples soma de acasos? Factores vários fizeram de nós um povo único: o enamoramento do mar a aguçar-nos a curiosidade; o desafio do desconhecido a reforçar-nos a temeridade; o caldeamento das raças a robustecer-nos os genes; o encontro das civilizações a enriquecer-nos as capacidades; as lutas da emancipação e da reconquista a endurecer-nos a têmpera; o fervor religioso a fanatizar-nos a fidelidade; a saga norte-africana a acicatar-nos as ambições; o impulso de ir sempre mais além a proibir-nos a resignação; as riquezas da Índia a aguçar-nos a cobiça.
“As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República”, intervenção do Presidente da Assembleia da República, António Almeida Santos, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 11 a 15
Sex 23 Out 2009
Publicado por Leonel Vicente em
O Achamento do BrasilComentários
O «achamento» de terras da costa ocidental do Brasil, expressão utilizada por Pêro Vaz de Caminha para identificar terras que alguns autores admitem poder corresponder a um encontro de terras procuradas, foi descrito pelo mencionado escrivão na sua famosa carta, que constitui uma autêntica reportagem antropológica sobre os primeiros contactos amistosos dos homens da armada de Pedro Álvares Cabral com os autóctones. Os portugueses viram com a maior estranheza os modos de vida dos tupiniquins que habitavam a região da baía Cabrália formando comunidades semi-sedentárias, nas quais as actividades recolectoras se combinavam com a cultura de raízes de mandioca. Os ameríndios foram então vistos pelos portugueses como seres onde seria possível introduzir a civilização, tal como eles a viam.
A armada de Pedro Álvares Cabral ligou pela primeira vez os quatro continentes, pois partindo e regressando à Europa estabeleceu contactos com a África e o Brasil, antes de atingir a Ásia em 22 de Agosto de 1500.
Os topónimos Terra de Vera Cruz ou Terra de Santa Cruz não se conseguiram impor, pois o nome que veio a prevalecer foi o de Brasil, devido à importância que adquiriu o pau-brasil, cor de brasa, e foi o produto mais importante durante os primeiros tempos da exploração do novo território.
Em 1501-1502 e 1503-1504 duas expedições portuguesas de exploração comandadas por Gonçalo Coelho realizaram o reconhecimento do litoral ocidental do Brasil, a que se poderá acrescentar uma outra expedição em 1502-1503 da responsabilidade de Fernão de Loronha, a qual visava recolher pau-brasil.
Em 1514 foi avistado o rio da Prata.
“Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal”, de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 71 e 72
Qui 22 Out 2009
Publicado por Leonel Vicente em
GeralComentários
Qui 22 Out 2009
Publicado por Leonel Vicente em
O Achamento do BrasilComentários
Em carta datada de 30 de Julho de 1514, Estêvão Fróis afirmou que o equador era considerado em termos práticos a divisória das zonas de influência entre Portugal e Castela na América, certamente por se ter observado anteriormente que o equador passava próximo da foz do Amazonas, o que era verdade, pois por aí passavam de facto as 370 léguas a ocidente das ilhas de Cabo Verde e por aí aparece traçada a linha divisória no chamado «Mapa de Cantino» de 1502.
A referida afirmação implicava saber que a linha de demarcação estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas passava pela proximidade da foz do rio Amazonas. Ora uma das hipóteses que se tem colocado e a que já aludimos, é a de que a esta região já em 1498 teria sido enviado Duarte Pacheco Pereira, o qual em 1494 havia sido um nos negociadores do Tratado de Tordesilhas podendo sugerir-se a hipótese de ter sido o conhecimento de terras ou indícios de terras brasileiras, o factor que levou a que D. João II exigisse mais 270 léguas para ocidente da linha de demarcação. O que é certo é que quando em 1498 Cristóvão Colombo saiu das ilhas de Cabo Verde para ocidente ele referiu que tal conhecimento teria sido indicado por D. João II quando negociara o referido tratado. Por outro lado, em 1514 EStêvão Fróis afirmou que Portugal «possuía estas terras há vinte anos ou mais e que já João Coelho, o da porta da Cruz, vizinho da cidade de Lisboa», já fora a terras do Norte do Brasil, onde ele havia ido.
Depois da viagem de Cristóvão Colombo de 1498 tem-se discutido se os navegadores castelhanos Vicente Yañes Pinzon e Diego de Lepe teriam chegado em 1500 a terras brasileiras a oriente da foz do rio Amazonas. Trata-se de um assunto bastante nebuloso e controverso, onde é difícil obter certezas, depois de Duarte Leite e Damião Peres terem apresentado abundante argumentação contra tal possibilidade.
“Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal”, de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 70 e 71
Qua 21 Out 2009
Publicado por Leonel Vicente em
O Achamento do BrasilComentários
Apesar da determinação das longitudes nos séculos XV a XVII ser obtida por estima, o seu cálculo não levava normalmente a erros excessivos, pelo que muitos autores têm admitido que Pedro Álvares Cabral ordenou intencionalmente um desvio para ocidente, com o objectivo de conhecer uma terra de que poderia ter informações de natureza muito imprecisa ou por querer saber se para ocidente haveria alguma terra no âmbito da demarcação do Tratado de Tordesilhas. A tese da intencionalidade do desvio da armada para ocidente tem a seu favor, entre outros argumentos, a informação registada na carta que Mestre João Farras escreveu a D. Manuel de Porto Seguro no dia 1 de Maio de 1500, na qual recomendava ao rei que visse a situação do sítio de onde escrevia num mapa que tinha Pêro Vaz da Cunha, o Bisagudo, e se deduz ser posterior a 1482, ainda que ele fosse incompleto, pois não indicava se aquela terra era habitada. Seria de estranhar que Mestre João estivesse a remeter o rei para uma das ilhas míticas que nessa altura ainda se registavam nos mapas. Devemos observar, contudo, que o eventual conhecimento dessa terra não se encontrava registado na carta padrão do Armazém da Guiné, pois se ela lá estivesse indicada Mestre João Farras não teria de evocar aquele mapa na posse de um particular.
Pedro Álvares Cabral não conhecia a terra situada na região de Porto Seguro onde desembarcou, mas poderia ter recebido instruções no sentido de que, no decorrer da sua navegação, durante a qual necessitava de se afastar para ocidente, forçasse o rumo nessa direcção para verificar se ali poderia haver terras, de que já haveria indicações, nomeadamente no mapa-mundi de Pêro Vaz Bisagudo. Não se pode excluir a possibilidade de haver informações, recolhidas desde, pelo menos, 1493 o período das negociações que levaram a deslocar mais 270 léguas para ocidente a linha divisória acordada no Tratado de Tordesilhas, no âmbito das quais se abarcava o território brasileiro. Como também já referimos, a zona correspondente à foz do Amazonas poderia ter sido já explorada por Duarte Pacheco Pereira em 1498, de acordo com as afirmações que nesse sentido ele faz no seu Esmeraldo de Situ Orbis, e vão ao encontro de indicações expressas pelos Reis Católicos em 1493 e por Cristóvão Colombo em 1498. Quando neste último ano o genovês foi ao arquipélago de Cabo Verde, de onde rumou para ocidente, tinha como objectivo identificar terras que suspeitava serem do conhecimento de D. João II quando este negociou o Tratado de Tordesilhas, tendo sido então que ele descobriu a Venezuela.
“Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal”, de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 69 e 70
Ter 20 Out 2009
Publicado por Leonel Vicente em
O Achamento do BrasilComentários
Um segundo grupo de navios tinha por destino Sofala. Um deles era comandado por Bartolomeu Dias, talvez uma caravela redonda, que se afundou entre o Brasil e o cabo da Boa Esperança. O outro, uma nau ou caravela, capitaneada por Diogo Dias, afastou-se da armada no Atlântico Sul, tendo acabado por explorar o litoral da África Oriental.
A armada partiu do Restelo a 9 de Março de 1500 e a viagem correu normalmente até às proximidades das ilhas de Cabo Verde, sem que houvesse necessidade de aí se proceder a reabastecimento. A armada passou junto da ilha de São Nicolau e rumou depois para ocidente, de forma a apanhar a sul do equador os ventos favoráveis (alisados de sueste), os quais lhe permitiriam atingir o cabo da Boa Esperança, dando assim uma volta idêntica à já traçada por Vasco da Gama. Pouco depois de deixar as águas do arquipélago de Cabo Verde o navio de Vasco de Ataíde perdeu-se misteriosamente, talvez por ter algum rombo, metido água e afundado, sem que nenhum dos testemunhos presenciais da viagem tenha assinalado qualquer anomalia da navegação por essa ocasião.
Por motivos naturais, ligados ao regime de ventos e correntes marítimas em meados de Abril, ou por ordem do capitão-mor, a armada deslocou-se para uma longitude mais ocidental do que aquela que tinha sido atingida por Vasco da Gama e da que seria seguida depois pelos navios que faziam a Carreira da Índia. O desvio foi de tal forma grande que no dia 22 de Abril de 1500 os portugueses avistaram aquele que foi baptizado como Monte Pascoal, situado numa terra que Pedro Álvares Cabral denominou Terra de Vera Cruz e D. Manuel preferiu antes chamar Terra de Santa Cruz. Era o Brasil!
“Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal”, de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 68 e 69
Seg 19 Out 2009
Publicado por Leonel Vicente em
O Achamento do BrasilComentários
Em 1500 D. Manuel nomeou Pedro Álvares Cabral como capitão-mor da segunda armada que enviou para a Índia. Era constituída por treze navios nos quais embarcaram o escol da pilotagem portuguesa da época e uns 1200 a 1500 homens.
Sobre a constituição da armada as dúvidas que subsistem centram-se sobretudo no problema de saber quantas caravelas poderiam fazer parte da armada, pois a maioria dos navios eram naus equipadas com velas de pano redondo. Quanto aos destinos dos navios, eles iam com duas missões diferentes. A maioria ia para a Índia, sendo nove pertencentes ao rei e dois a particulares. De seguida apresentamos os nomes dos capitães de cada navio e as características de cada um.
Nos navios do rei seguiam: Pedro Álvares Cabral, na nau capitânia; Sancho de Tovar era o sota-capitão e ia na nau El-Rei, com cerca de 360 tonéis; Simão de Miranda de Azevedo; Aires Gomes da Silva ia numa nau que se afundou entre o Brasil e o cabo da Boa Esperança; Simão de Pina era capitão de uma nau que também se afundou entre o Brasil e o cabo da Boa Esperança; Vasco de Ataíde ia na nau que se afundou depois de deixar o arquipélago de Cabo Verde; Nicolau Coelho; Pedro de Ataíde capitaneava uma nau ou caravela redonda de nome São Pedro, de 70 tonéis; Gaspar de Lemos ia numa nau ou naveta com reforço de mantimentos, a qual regressou a Portugal depois da escala no Brasil, indo talvez destinada a esse fim ou a ser abandonada.
Um dos capitães das duas naus de armadores particulares era Nuno Leitão da Cunha, na Nossa Senhora da Anunciada, com cerca de 167 tonéis, que pertencia à parceria de D. Álvaro de Bragança com os banqueiros-mercadores Bartolomeu Marchioni, Girolamo Sernigi e António Salvago. O outro capitão era Luís Pires que ia na nau pertencente à parceria de D. Diogo da Silva de Meneses (1.º conde de Portalegre) e mercadores, que foi outro dos navios que se afundou entre o Brasil e o cabo da Boa Esperança.
“Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal”, de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 67 e 68
Sex 16 Out 2009
Temos, portanto, dentro da corrente tradicional, várias posições que importa distinguir. Num primeiro grupo incluiremos todos aqueles que nos apresentam os Índios com qualidades e defeitos, embora diferentes dos Europeus.
É nesta primeira categoria que se integra a quase totalidade das obras que estudámos. A ela pertencem os historiadores, viajantes e exploradores dos séculos XVI a XVIII, os colonizadores (Jesuítas), Nuno Marques Pereira, os Índios de Basílio da Gama, excepto Lindóia, os de Santa Rita Durão, excepto Paraguassú e em parte, Gupeva, os de Tenreiro Aranha, Rocha Pita, Domingos do Loreto Couto, Ribeiro de Sampaio, Joaquim José Lisboa, Frei Francisco de S. Carlos, Cavaleiro de Oliveira, e, em parte, Cruz e Silva.
No entanto, mesmo no conjunto de todos estes autores, há uma certa evolução na forma por que se tratam o Índio.
Os viajantes e exploradores viam-no como um ser curioso, de que importava sobretudo descrever as singularidades de costumes. Com os colonizadores nota-se já uma mudança – o Índio passa a interessar em si mesmo, como pessoa humana capaz de um comportamento moral, devido ao maior contacto que os colonizadores com ele tinham. Há, assim, um progresso nítido.
Em seguida o Índio entra na literatura propriamente dita, onde é visto e descrito quer mais quer menos favoravelmente, ora sob uma forma um tanto exterior, ora com mais profundidade.
Existe aqui também uma nova transição, e de grande importância, a marcar. Com Basílio da Gama, os Índios ganham personalidade. Continuam a ser bons e maus – mas com a diferença de que, enquanto em todos os outros escritores eram atribuídos defeitos e qualidades ao Índio em geral, encontramos neste os dois aspectos dissociados – Índios bons e Índios maus, como em qualquer obra podemos encontrar personagens boas e más.
[...]
Numa outra alínea poderíamos incluir aqueles que se apresentam como verdadeiros Europeus. Tais são Lindóia, de O Uraguai de Basílio da Gama, Paraguassú, do Caramurú de Santa Rita Durão, e Guaçu, do mesmo poema.
A europeização da primeira é ainda bastante leve. Com Paraguassú vai-se já mais longe. Quanto a Lindóia, nada tinha havido que contrariasse expressamente as características físicas da raça a que pertencia, mas aquela é já descrita como possuindo tez branca e olhos claros. Além disso, Lindóia aparece apenas actuando mas não raciocinando sobre questões filosóficas. Paraguassú conversa com Diogo Álvares Correia por tal forma que seria impossível numa Índia ainda inculta e afastada de qualquer civilização, como era quando Diogo Álvares a conheceu.
[...]
Ainda dentro da corrente tradicional, temos a contar com um terceiro grupo – aqueles que, referindo-se ao Índio, apenas se interessam por ele na medida em que lhes serve para a exaltação da acção civilizadora e cristianizadora dos Portugueses. Não interessam os costumes, nem saber se são verdadeiramente homens, se são bons ou maus, se melhores ou piores que os Europeus. Interessa apenas dizer que são selvagens, bárbaros, pondo em relevo o esforço dispendido e a vitória conseguida. É esta a posição de Cláudio Manuel da Costa no seu poema Vila-Rica, de Alvarenga Peixoto em O Sonho, ao descrever-nos um Índio que, representando todo o Brasil, é o primeiro a louvar e a agradecer a civilização que lhe foi trazida, confessando-se leal súbdito dos monarcas portugueses, e ainda de José Bonifácio de Andrade e Silva, que, nos seus já citados Apontamentos para a civilização dos Índios bravos do Império do Brasil, faz a apologia da acção desenvolvida. Em todos eles o Índio está praticamente ausente e é quase um pretexto.
“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 107 a 109
Qui 15 Out 2009
«Bento Teixeira, ou Bento Teixeira Pinto, nascido em meados do século XVI, em Pernambuco, tem a honra de ser, cronologicamente, o primeiro poeta brasileiro, ou filho do Brasil», diz Afrânio Peixoto na sua Introdução à Prosopopeia deste mesmo Autor.
Assim é, de facto. E, como tal, era de esperar que se ocupasse da região em que nasceu. Mas, se por um lado celebra incansavelmente a beleza da sua terra, é também incansavelmente que louva a acção portuguesa no Brasil – e o Índio apenas aparece na sua obra como pano de fundo, em oposição maciça a esta mesma acção, despertando interesse somente na medida em que por ela se vai deixando ganhar.
Sendo, como é, a Prosopopeia dirigida a Jorge de Albuquerque Coelho, capitão e Governador de Pernambuco, era inevitável que nela se elogiasse a acção civilizadora dos portugueses, mas isso de forma alguma impedia um certo interesse pelo Índio.
Pouco posteriores à Prosopopeia, e de muito maior importância para nós, são os Diálogos das Grandezas do Brasil, em número de seis. Foram pela primeira vez reunidos e publicados em volume em 1930, devido aos cuidados de Capristano de Abreu, embora a sua composição date, segundo informa o mesmo Autor, de 1618.
Não se sabe quem é o seu Autor. Tem-se procurado levantar o anonimato através do estudo do texto, mas nem sequer se chegou ainda à conclusão de ter ele nascido ou não no Brasil. Não nos interessa aqui discutir o problema; limitar-nos-emos ao estudo do texto propriamente dito.
Temos, em todos os diálogos, sempre as mesmas duas personagens: Alviano e Brandónio.
Representa um o metropolitano recém-chegado do reino e ainda muito afastado dos problemas dos indígenas e o segundo o colonizador que já se encontrava no Brasil há bastante tempo.
[...]
Quanto ao objectivo destas composições, trata-se, como o próprio nome indica, de dar a conhecer o Brasil pelo que ele tem de melhor.
Na primeira ocupam-se os dois dialogantes em descrever as várias Capitanias do Brasil, ao que se segue (segundo diálogo) uma comparação entre Negros e Índios, louvando-se simultaneamente as condições do clima e discutindo-se a origem do Índio Americano. Vem em seguida (terceiro e quarto diálogos) a enumeração das riquezas do Brasil, com especiais referências ao pau-brasil, ao algodão e aos produtos agrícolas. No quinto, faz-se a descrição dos animais, da terra e, por fim, o sexto, aquele que mais directamente nos interessa, ocupa-se dos Índios, depois de rápidas notações sobre os costumes dos Portugueses.
“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 57 e 58
Qua 14 Out 2009
Falámos até aqui de obras que foram escritas a partir de um contacto directo, embora mais ou menos prolongado, com o Índio do Brasil. Mas teriam estes escritos despertado profundo interesse na Metrópole? É para duvidar que assim tenha acontecido.
A leitura dessas narrações despertaria certamente curiosidade. Mas, acima de tudo isso, havia um facto que, desde o início do século XVI, vinha monopolizando todas as atenções – o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, que exercia um poder fascinante sobre as mentalidades do século. Como já vimos, o próprio prestígio de que a América gozou foi em parte motivado pela confusão que se estabeleceu entre ela e a Índia.
De qualquer forma, aos Portugueses interessava muito mais o caminho que eles próprios tinham descoberto; e, quando o engano de Colombo se desfez, maior realce essa descoberta ganhou ainda.
Percorrendo a historiografia portuguesa dos séculos XVI e XVII, damo-nos bem conta deste predomínio da Índia sobre o Brasil.
Além daqueles que com este tiveram contacto directo, e de que já nos ocupámos, as referências que a ele se fazem são poucas e rápidas, existindo apenas uma obra que se ocupa exclusivamente do Brasil, enquanto os tratados sobre a Índia abundam.
Essa obra que trata do Brasil é a Nova Lusitania, história da guerra brasílica de Francisco de Brito Freire.
Nela se ocupa o Autor dos esforços empregados e das lutas travadas para conseguir conservar e civilizar o Brasil, fazendo também referências aos seus habitantes:
«Inclinados a tomarem por molheres suas cunhadas. Cobardes. Sopresticiosos. Amigos de se lavar nos rios. Chamando tambem Parascé, com pouca corrupção de Parasceve, a aquelle modo barbaro, das suas festas mais solenes».
Refere-se ainda a outros costumes, tantas vezes descritos pelos viajantes, como os de andarem nus, furarem os beiços, comerem carne humana – e, embora as descrições sejam bastante breves, são as mais extensas que se encontram entre os historiadores.
“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, p. 55
Ter 13 Out 2009
Um outro Jesuíta que, um pouco posteriormente, se ocupou do Brasil, foi o Padre Fernão Cardim, terceiro Provincial da Companhia nessa região. É Autor de três tratados, Do Clima e terra do Brasil e de algumas cousas notaveis que se achão assi na terra como no mar, Do Principio e Origem dos Indios do Brasil e Narrativa Epistolar, posteriormente reunidos num só volume, Tratados da terra e gente do Brasil. [...]
As que para nós têm mais interesse são esta e a Narrativa Epistolar.
Apesar dos seus tão falados costumes de matar os contrários e comer carne humana, os Índios aparecem nestas obras a uma luz bastante favorável. Em primeiro lugar é elogiada a sua liberalidade [...]
Posição já muito diferente quanto aos Índios tem o Padre Simão de Vasconcelos. Refere-se aos mesmos factos que Cardim, mas dá maior relevo aos desfavoráveis. Se reconhece que «são liberaes, engenhosos, magnanimos, e davidosos», também diz que «vivem a maneira de feras selvagens montanhesas; nem seguem fé, nem lei, nem rei, pela qual razão faltam na sua lingua F. L. R.».
[...]
Importa agora salientar que os testemunhos destas figuras principais que apontamos não se encontram isolados, mas sim enquadrados num conjunto. Há dezenas de outros Jesuítas que, trabalhando no Brasil e escrevendo para a Europa, nos deixaram indicações que vêm confirmar o que Nóbrega, Anchieta, Cardim e Simão de Vasconcelos disseram. Essas cartas, assim como algumas destes Autores que citámos, publicadas em várias colectâneas como Cartas Jesuíticas, Novas Cartas Jesuíticas e Cartas Avulsas, foram agora reunidas numa só obra, Monumenta Brasiliae, por Serafim Leite, S. J..
As referências destas cartas aos Índios do Brasil são pouco extensas.
Mostram-se uns Autores desfavoráveis aos indígenas, outros favoráveis, mas nada acrescentam ao que disseram aqueles cujas obras analisámos. Têm, no entanto, o interesse de, em conjunto, confirmarem toralmente os factos apontados pelos Autores a quem dedicámos particular referência.
“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII”, de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 51 a 54
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