Sex 17 Out 2008
Um conjunto de mais de 4000 fotografias será apresentado hoje, na biblioteca do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar), em Lisboa, para comprovar o valor do espólio descoberto no interior de uma nau quinhentista portuguesa afundada na costa da Namíbia.
O arqueólogo português Francisco Alves, que participou nos trabalhos, não quis ontem quantificar o valor patrimonial do achado, referindo apenas que, “em 32 anos de arqueologia, foi a primeira vez que andei de joelhos no chão a encontrar moedas de ouro”.Estas moedas do século XVI são apenas uma parte do espólio da nau. As equipas que procederam à escavação (num fosso a seis metros abaixo do nível do mar) encontraram dezenas de presas de marfim, 13 toneladas de lingotes de cobre, os restos de, pelo menos, seis canhões e centenas de quilos de utensílios de navegação e armamento, nomeadamente espadas, mas também pistolas.
Embora ainda sem confirmação oficial (os resultados dos trabalhos só hoje serão divulgados), estima-se que tenham sido retirados do local cerca de 20 quilos de moedas de ouro, bem como inúmeras moedas de prata e diversos lingotes do mesmo metal. Ontem, em declarações ao PÚBLICO, Francisco Alves - que esteve na Namíbia acompanhado do arqueólogo Miguel Aleluia - disse que “mais importante do que o valor patrimonial [falou-se que o espólio poderá valer 70 milhões de euros] é a escavação em geral”.
A descoberta do navio foi anunciada em Abril, quando os funcionários da empresa diamantífera sul-africana De Beers encontraram uma estrutura de madeira de grandes proporções, assim como diversas grandes pedras redondas que, posteriormente, se concluiu serem canhões. No final de Setembro, também em declarações ao PÚBLICO, Francisco Alves alvitrou que a descoberta poderia ser a mais importante de África, logo a seguir aos achados arqueológicos do Egipto.
Descartada parece, para já, a hipótese de a nau ser a de Bartolomeu Dias, o primeiro navegador a dobrar o Cabo da Boa Esperança e que em 1500 naufragou na zona.
(Público, 17.10.2008)
A propósito desta descoberta, está também disponível vídeo de programa da RTP.
Outubro 20th, 2008 at 14:45
Deixo aqui o nome de um grande homem para que lendo o descubra.
“O RELATÓRIO DO PROJECTO DE REGULAMENTO GERAL DAS ALFÂNDEGAS PELO INSPECTOR DAS ALFÂNDEGAS ANTÓNIO CORRÊA HEREDIA”
Nada é por acaso! Na Biblioteca da Direcção-Geral das Alfândegas encontra-se um Relatório, em forma de livro muito mal estimado, com 130 folhas, editado pela Imprensa Nacional no ano de 1876, intitulado “RELATÓRIO do PROJECTO DE REGULAMENTO GERAL DAS ALFÂNDEGAS pelo Inspector das Alfândegas António Corrêa Heredia”.
Este importante trabalho encontra-se, em original, no Edifício da Alfândega no Largo Terreiro do Trigo em Lisboa.
Depois de “folhear” este magnífico trabalho, concluí que foi seu autor, António Correia Herédia, um Ilustre colega que tinha a categoria profissional de Inspector das Alfândegas, chefiando a Alfândega do Porto. (Talvez um dia se venha a prestar, na Direcção-Geral das Alfândegas e dos Impostos Especiais Sobre o Consumo, a justa homenagem, a este seu antigo funcionário, a exemplo do seu reconhecimento na Ilha da Madeira de onde era natural.
A fls. 3 António Herédia inicia do seu relatório, e passo a transcrever uma ínfima parte para situar no tempo o seu autor. Este magnífico e pioneiro trabalho incluem citações e ideias bem interessantes e, quiçá, a repensar nos dias de hoje:
“Em 2 de Novembro de 1874 foi Sua Majestade El-Rei servido determinar que me fosse expedida a seguinte portaria:”
“Estando determinada no artigo 67.º do decreto com força de lei de 23 de Dezembro de 1869 a organização dos regulamentos necessários para uniformizar e simplificar o despacho e expediente das alfândegas, suas delegações, postos fiscais; e reconhecendo-se quanto é prejudicial ao serviço a falta dos mesmos regulamentos, não pode utilmente ser suprida por ordens e resoluções isoladas, tanto da direcção geral como dos chefes das alfândegas: Sua Majestade El-Rei há por bem encarregar o inspector das alfândegas, dirigindo a do Porto, António Corrêa Herédia, de confeccionar os projectos dos mesmos regulamentos, para depois de aprovados se dar execução ao artigo 68.º do mencionado decreto. Para o desempenho d´esta incumbência, serão fornecidos ao mencionado funcionário todos os esclarecimentos e informações que existirem ou ele exigir; esperando o mesmo augusto senhor, que há de por esta ocasião dar uma prova da sua competência e zelo. Pela direcção geral das alfândegas e contribuições indirectas se farão as comunicações necessárias para cumprimento do que fica determinado. Paço, em 2 de Novembro de 1874.= António de Serpa Pimentel”
No decurso de uma busca, na Internet pelo nome deste antigo colega deparei com o seguinte texto do autor do blog NESUS:
“Obra de António Correia Herédia, ilustre madeirense que nasceu a 2 de Março de 1822 e faleceu em Lisboa a 23 de Junho de 1899, filho de Francisco Correia Herédia e de D. Ana Margarida de Bettencourt Acciaioly. Desconhecemos se possuía habilitações literárias oficiais, mas a falta de cursos superiores não obstou a que fosse um hábil e talentoso jornalista.
O autor salienta a temática da questão económica, a organização da propriedade rural, o contrato de colónia, a emancipação do colono e do senhorio, o crédito rural, os capitães baratos e papel das alfândegas. Assim como, a acção da autoridade administrativa na aplicação e desenvolvimento de providências cautelares no tocante a receitas fiscais, quer na redução e isenção de direitos de importação e exportação.
Defende uma reforma geral de serviços na alfândega do Funchal, quer interna e externa, que possua um conselho e uma administração geral, com o intuito de simplificar os diversos serviços e assuntos relativos a entrada e saída de produtos da Ilha, e que seja concedida a isenção de direitos de exportação, quer na tonelagem, peias e cabotagem, nas operações comerciais realizadas.”
Para aliciar os colegas de profissão a lerem este “Relatório”, que desde já aconselho preservar e a reeditar, passo algumas citações de António Herédia:
“ Os empregados, não me canso de o dizer, serão sempre de confiança quando forem bem escolhidos, quando os não escolher a política, quando forem varridos das repartições públicas as influências eleitorais e os empenhos; e quando, a par da nomeação acertada, a subsistência e o futuro estiverem garantidos ao funcionário que designadamente desempenha os seus deveres…”(fls. 16)
“Aos funcionários designados para o serviço de inspecção, como os Directores, Chefes Fiscais, e de quaisquer repartições, não basta a inteligência e a prática do serviço; o que os torna cabalmente competentes é a inteireza de carácter, o amor à justiça, a moderação e a prudência, qualidades que não muito vulgarmente reúne um só homem. A aspereza no trato, a virulência, a desconsideração do superior para com o inferior nunca foram provas de honra e zelo, senão demonstrações de mal entendida severidade, e de mau carácter ou péssima educação. Para ser obedecido mão é necessário criar repugnâncias e ódios nos que obedecem. Querer fazer da obediência, que deve ser um acto puramente filho da consciência do dever, um movimento constrangido de medo, é desmoralizar e perder tudo no serviço público; é criar o servilismo nos espíritos fracos, a hipocrisia nas almas menos bem formadas, os conflitos entre caracteres independentes” (fls. 10)
Referindo-se a uma polémica quanto à emigração da Ilha das Flores para a América do Norte e à livre troca entre as Flores e o Corvo diz, entre outras citações, o seguinte:
“A emigração não é uma viagem de recreio; ninguém abandona com prazer a terra natal; a saudade da pátria é um mal que não tem compensação nem lenitivo. Quando se emigra é porque todas as esperanças acabaram, e porque o futuro, que se antolhava medonho, já deixou de ser futuro, e o infortúnio caiu como rochedo sobre a cabeça da sua vítima que foge quando pode, e tão depressa pode, da terra onde é assim esmagada. E não há direito para dizer ao que de tal modo se separa de uma sociedade mal organizada «não vades, que tendes aqui obrigações para cumprir» ”
Espero que este pequeno contributo, escrito quando a noite vai alta e sem o poder rever, sirva para aditar algo mais ao que escreveu o autor do blog “ NESUS” Roberto Faria: um blog sobre a História do Arquipélago da Madeira.
Apresento ao seu autor os meus cumprimentos e agradecimento pelo E-book que tem on-line, grátis, no seu blog, “ Observações sobre a situação económica na Ilha da Madeira e sobre a reforma das Alfândegas” de António Corrêa Herédia que, certamente virá fazer luz ao Regulamento das Alfândegas de 1885.
Face a esta “oferta” - não poderia ficar com este precioso trabalho só para mim - decidi proceder à sua divulgação pelos meus colegas de trabalho para que o possam copiar e, talvez, contribuir para completar o excelente trabalho do Roberto Faria.
O link para o livro “Observações sobre a situação económica na Ilha da Madeira e sobre a reforma das Alfândegas” fica aqui:
http://noticia.nesi.com.pt/img/varias/140_setembro06.pdf
O blog http://nesos.wordpress.com
Este desconhecido livro vem complementar o primeiro livro que se encontra na nossa biblioteca, ambos da autoria do colega Herédia. Termino com mais uma citação deste tesouro: afinal, uma citação que muitos de nós já vamos pronunciando - quando estamos de saída…
“Aqui estou eu como o mais frisante exemplo da incompetência empoleirada.
Como se dizia que eu não era mau governador civil, mandaram-me mudar para as alfândegas, das quais nada sabia; Deus sabe o tempo e os trabalhos que me custou a prática que adquiri, e de quantos desacertos não terei sido réu, com sacrifício do serviço, até adquiri-la. O que pela minha parte sei é que, quando, depois de vinte anos de serviço aduaneiro, deixei as alfândegas, ainda estava aprendendo, e que depois de estar cá fora tenho visto que me faltava muito para saber tudo.”
Cumprimentos e assino por baixo tudo o que citei do Ilustre colega. Todavia, se vos fiz perder o vosso tempo - perdoem-me.
Rogério Martins Simões
(parte deste trabalho acaba de ser divulgado, com as devidas alterações, no meu blog:
http://poemasdeamoredor.blogs.sapo.pt
Nota final: serei um fiel leitor deste blog pelos assuntos que nele são tratados.
um abraço
Rogério