Canto II

(Melinde)

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“E porque é, de vassalos o exercício,
Que os membros tem regidos da cabeça,
Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
Que ninguém a seu Rei desobedeça;
Mas as mercês e o grande benefício,
Que ora acha em ti, promete que conheça
Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
Enquanto os rios para o mar correrem.”

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Assim dizia; e todos juntamente,
Uns com outros em prática falando,
Louvavam muito o estâmago da gente,
Que tantos céus e mares vai passando.
E o Rei ilustre, o peito obediente
Dos Portugueses na alma imaginando,
Tinha por valor grande e mui subido
O do Rei que é tão longe obedecido.

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E com risonha vista e ledo aspeito,
Responde ao embaixador, que tanto estima:
“Toda a suspeita má tirai do peito,
Nenhum frio temor em vós se imprima;
Que vosso preço e obras são de jeito
Para vos ter o mundo em muita estima;
E quem vos fez molesto tratamento,
Não pode ter subido pensamento.

(”Os Lusíadas”, Luís de Camões)