Seg 8 Out 2007
Acabado isto, se partiu logo desta ilha do Xeque para Osquy, e chegou a sua casa já com uma hora de noite, onde foi recebido de todos os seus com muita festa e regojizo ao seu modo, e lhe deram os parabéns de tão honroso feito como fora o daquela baleia, atribuindo a ele só o que os outros fizeram, que este prejudicial vício da adulação é tão natural das cortes e das casas dos príncipes, que até entre o barbarismo da gentilidade lhe não faltou seu lugar.
Despedindo então el-rei toda a gente que o acompanhava, ceou recolhido com sua mulher e seus filhos, e não quis que homem nenhum por então o servisse, porque o banquete era à conta da rainha; porém ali nos mandou chamar a todos cinco, a casa de um seu tesoureiro onde já estávamos aposentados, e nos rogou que por amor dele quiséssemos perante ele comer com a mão, assim como fazíamos em nossa terra, porque folgaria a rainha de nos ver. E mandando-nos logo preparar a mesa muito abastada de iguarias muito limpas e bem guisadas, e servidas por mulheres muito formosas, nós nos entregámos todos no que nos punham diante, bem à nossa vontade; porém os ditos e galantarias que as damas nos diziam, e as zombarias que faziam de nós quando nos viram comer com a mão, foram de muito mor gosto para el-rei e para a rainha, que quantos autos lhe poderiam apresentar, porque como toda esta gente costuma comer com dois paus, como já por vezes tenho dito, tem por muito grande sujidade fazê-lo com a mão, como nós costumamos.
Então uma filha de el-rei, moça já de catorze até quinze anos, e muito formosa, pediu licença a sua mãe para uma certa farsa que seis ou sete queriam fazer sobre a matéria de que se tratava, e a rainha com consentimento de el-rei lha concedeu. Entrando então elas para dentro de outra casa, se detiveram um pequeno espaço, e as que ficaram fora se desenfadaram entretanto bem à nossa custa, com muitas graças e zombarias, de que todos estávamos bem corridos, pelo menos os quatro, por serem mais novéis e não entenderam a língua, porque eu já em Tanixumá tinha visto outra farsa que se teve com portugueses, semelhante a esta, e por algumas vezes as tinha visto também noutras partes.
Estando nós no meio desta afronta, porém sofrendo já melhor a zombaria pelo gosto que víamos que el-rei e a rainha tinham dela, saiu de dentro a princesa muito formosa em trajo de mercador, com um terçado de chaparia de ouro na cinta, e tudo o mais muito apropriado ao que representava, e pondo-se de joelhos diante de el-rei seu pai, com o acatamento devido, lhe disse:
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)