Sex 5 Out 2007
Chegada a monção em que podíamos fazer nossa viagem, nos partimos desta ilha Lampacau, aos 7 de Maio do ano de 1556, embarcados em uma nau de que era capitão e senhorio D. Francisco Mascarenhas, de alcunha «O palha», que aquele ano aí residira por capitão-mor. E continuando por nossa rota, por tempo de catorze dias, houvemos vista das primeiras ilhas que estão em altura de 35 graus, que por graduação ficam a oés-noroeste da de Tanixumá; o piloto então conhecendo a má navegação que levava, se fez na volta do sudoeste, a demandar a ponta da serra de Minató, e aferrando a costa de Tanorá, velejámos sempre ao longo dela até ao porto de Fiungá. [...].
Vendo eu esta carta, me embarquei logo com todos os meus companheiros na funé em que vinha o Oretandono, e os moços com o presente nas outras duas, e por serem todas muito ligeiras e bem equipadas, em pouco mais de uma hora chegámos à ilha que estava dali a duas léguas e meia. E chegámos a ela ao tempo em que el-rei, com mais de duzentos homens todos com suas fisgas andavam em batéis atrás de uma grande baleia que na volta de um grandíssimo cardume de peixe, ali viera ter, o qual nome de baleia e o mesmo peixe em si, foi então entre eles muito novo e muito estranho, porque nunca tinham visto outro tal naquela terra.
Depois que foi morta e trazida fora à praia, foi o prazer de el-rei tamanho que a todos os pescadores que ali se acharam, libertou de um certo tributo que antes pagavam, e lhes deu novos nomes de homens nobres, e a alguns fidalgos que ali estavam, aceitos dele, acrescentou os ordenados que tinham, e aos guesos, que são como moços de Câmara, mandou dar mil taéis de prata, e a mim me recebeu com a boca muito cheia de riso, e me perguntou miudamente por muitas particularidades, a que eu respondi acrescentando muitas coisas que me perguntava, por me parecer que era assim necessário à reputação da nação portuguesa, e à conta em que até então naquela terra nos tinham, porque todos então tinham para si que só o rei de Portugal era o que com verdade se podia chamar monarca do mundo, tanto em terras, como em poder e tesouro, e por esta causa se faz naquela terra tanto caso da nossa amizade.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)