Cap. 113 - Da maneira que se tem para haver em todo o reino celeiros para os pobres, e qual foi o rei que isto ordenou

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Assim em todas as coisas há neste reino um tão excelente governo e uma tão pronta execução nas coisas dele, que entendendo bem isto no tempo que lá andou, aquele bem-aventurado padre-mestre Francisco Xavier, lume no seu tempo de todo o Oriente, cuja virtude e santidade o fizeram tão conhecido no mundo que por isso escusarei por agora de tratar mais dele, espantado, tanto destas coisas como doutras muitas excelências que nesta terra viu, dizia que se Deus alguma hora o trouxesse a este reino, havia de pedir de esmola a el-rei nosso senhor que fizesse ver as ordenações e os estatutos de guerra e da fazenda por que esta gente se governava, porque não tinha dúvida que eram muito melhores que os dos romanos no tempo de sua felicidade, e que os de todas as outras nações de gentes de que os escritores antigos trataram.

Cap. 133 - Como desembarcámos nesta ilha de Tanixumá, e do que passámos com o senhor dela

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E quando ao outro dia foi manhã clara, nos mandou ao junco um grande parau de refresco, em que entravam uvas, peras, melões, e toda a sorte de hortaliça que há nesta terra, com cuja vista demos muitas graças e louvores a Nosso Senhor. O necodá do junco lhe mandou pelo mensageiro algumas peças ricas e brincos da China, em retorno do refresco, e lhe mandou dizer que quando o junco ancorasse no surgidouro onde estivesse seguro do tempo, o iria logo ver a terra e levar-lhe as amostras da fazenda que trazia para vender. E ao outro dia, logo que foi manhã desembarcou em terra e nos levou consigo a todos três, com mais dez ou doze chins, os que lhe pareceram mais graves e autorizados em suas pessoas, quais os ele queria para o ornamento desta primeira visita, em que esta gente costuma mostrar-se com muita vaidade.

Chegando nós a casa do nautaquim, fomos todos muito bem recebidos por ele, e o necodá lhe deu um bom presente, e após isso lhe mostrou as amostras de toda a sorte de fazenda que trazia, de que ele ficou satisfeito e mandou logo chamar os principais mercadores da terra, com os quais se tratou do preço dela, e concertados nele se assentou que ao outro dia se trouxesse a uma casa que mandou dar ao necodá em que se agasalhasse com a sua gente até se tornar para a China.

Isto ordenado, o nautaquim tornou de novo a praticar connosco e a perguntar-nos por muitas coisas miudamente, a que respondemos mais conforme ao gosto que nele víamos, que não ao que realmente era verdade, mas isto foi em certas perguntas em que foi necessário ajudarmo-nos de algumas coisas fingidas, para não desfazermos o crédito que ele tinha desta nossa pátria. A primeira foi dizer-nos que lhe tinham dito os chins e léquios, que Portugal era muito maior em quantidade tanto de terra como de riqueza, que todo o império da China, o que nós lhe concedemos. A segunda, que também lhe tinham certificado que tinha o nosso rei subjugado por conquista de mar, a maior parte do mundo, o que também dissemos que era verdade. A terceira, que era tão rico o nosso rei, de ouro e de prata, que se afirmava que tinha mais de duas mil casas cheias até ao telhado, e a isto respondemos que do número de duas mil casas, nos não certificávamos, por ser a terra e o reino em si tamanho, e ter tantos tesouros e povos, que era impossível poder-se dizer-lhe a certeza disso. E nestas perguntas e em outras desta maneira, nos deteve mais de duas horas, e disse para os seus:

- É certo que se não deve de haver por ditoso nenhum rei de quantos agora sabemos na terra, senão só o que for vassalo de tamanho monarca como é o imperador desta gente.

E despedindo o necodá com toda a sua companhia, nos rogou que quiséssemos ficar naquela noite com ele em terra; porque se não fartava de nos perguntar muitas coisas do mundo, a que era muito inclinado, e que pela manhã nos mandaria dar umas casas em que pousássemos junto com as suas, por ser o melhor lugar da cidade, o que nós fizemos de boa vontade, e nos mandou agasalhar com um mercador muito rico que nos banqueteou muito largamente, tanto nesta noite como em doze dias mais que pousámos com ele.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)