Ter 2 Out 2007
Cap. 97 - Do que vimos depois que saímos de uma cidade a que chamavam Funquinilau […] E partidos daqui, seguimos nossa viagem pelo rio acima, vendo sempre de uma banda e da outra, muitas e muito nobres cidades e vilas, e outras povoações muito grandes, cercadas de muros muito fortes e largos, com seus castelos roqueiros ao longo da água, fora muitas torres e casas ricas de suas gentílicas seitas, com campanários de sinos e coruchéus cobertos de ouro, e pelos campos havia tanta quantidade de gado vacum que em algumas partes ocupavam distância de seis a sete léguas da terra, e no rio havia tamanho número de embarcações que em algumas partes onde havia ajuntamento de feiras, se não podia alcançar com a vista, fora outros muito magotes mais pequenos de trezentos, quinhentos e de mil barcos que a cada passo encontrávamos, tanto de uma parte como da outra, nas quais se vende toda a diversidade de coisas a que se pode pôr nome. E muitos chins nos afirmaram que neste império da China, tanta era a gente que vivia pelos rios como a que habitava nas cidades e vilas, e que se não fosse a grande ordem e governo que se tem no prover da gente mecânica e no trato e ofícios com que os constrangem a buscarem vida, que sem dúvida se comeriam uns aos outros, porque cada sorte de trato e de mercancia de que os homens vivem, se divide em três e quatro formas, desta maneira: no trato das adens, uns tratam em botar os ovos de choco e criarem adinhos para venderem, outros em criarem adens grandes para matar e vender chacinadas, outros tratam da pena somente, e das cabidelas, e das tripas, e outros dos ovos somente, e o que trata de uma destas coisas, não há-de tratar da outra, sob pena de trinta açoites em que não há apelação nem agravo, nem valia, nem aderência que lhe possa valer; nos porcos, uns tratam em os venderem vivos por junto, outros em os matarem e os venderem aos arráteis, outros em os chacinarem e os venderem de fumeiro, outros em venderem leitões pequenos, outros nos miúdos de tripas, e banhas, pés, sangue, e fressuras; no peixe, o que vende o fresco, não há-de vender o salgado, e o que vende o salgado, não há-de vender o seco, e todas as outras coisas, tanto de carnes, caças, e pescados, como de frutas e hortaliças, se governam a este modo. E nenhum dos que têm qualquer trato destes, se pode mudar para outro sem licença da câmara, e só por causas justas e lícitas, sob pena de trinta açoites. Há também outros que vivem de venderem pescado vivo que têm em grandes tanques e charcos de água, dos quais carregam muitas embarcações de remo onde em paióis muito estanques o levam em viveiro para diversas terras dali muito longe. Há também ao longo deste grande rio da Batampina, por onde fizemos este nosso caminho da cidade de Nanquim para a de Pequim, que é distância de cento e oitenta léguas, tanto número de engenhos de açúcar e lagares de vinhos e de azeites, feitos de muitas e muito diversas maneiras de legumes e frutas, que há ruas destas casas ao longo do rio, de uma parte e da outra, de duas e três léguas em comprido, coisa decerto de grandíssima admiração. Em outras partes há muitos armazéns de infinidade de mantimentos, e outras tantas casas com terecenas muito compridas, em que chacinam, salgam, empezam e defumam todas as sortes de caças e carnes quantas se criam na terra, em que há rimas muito altas de lacões, marras, toucinhos, adens, patos, grous, batardas, emas, veados, búfalos, antas, badas, cavalos, tigres, cães, raposos, e toda a mais sorte de animais que a terra cria, de que todos estávamos tão pasmados quanto requeria uma tão nova, tão espantosa e quase incrível maravilha, e muitas vezes dizíamos que não era possível haver gente no mundo que pudesse acabar de gastar aquilo em toda a vida. […]
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)