Sex 28 Set 2007
Partidos nós ao outro dia desta cidade de Pocasser, chegámos a outra a que chamavam Xilingau, também muito grande e muito nobre e de muito boa casaria cercada de muros de tijolo, com sua cava ao redor e nos cabos dois castelos de entulho muito fortes e bem acabados, com torres e baluartes quase a nosso modo, e nas entradas pontes levadiças que se suspendiam no ar por grossas cadeias de ferro, e no meio de cada um destes castelos uma torre de cinco sobrados com muitas invenções de pinturas de diversas cores, nas quais torres ambas, nos afirmaram os chins que estavam, em tesouro, quinze mil picos de prata do rendimento daquele anchacilado, que o avô deste rei ali mandara pôr em memória de um filho que ali lhe nascera, de nome Leuquinau, que quer dizer alegria de todos, o qual eles têm que foi santo porque acabou em religião e está ali enterrado num templo da invocação do Quiay Varatel, deus de todos os peixes do mar, de que estes cegos contam muitos desatinos de leis que inventou e preceitos que deu, que é espanto ouvi-los, de que a seu tempo farei menção.
Nesta cidade e noutra mais acima cinco léguas, se tece a maior parte da seda deste reino, por causa das águas que dizem que fazem mais vivas as cores das tintas, que todas as das outras partes. Os teares destas sedas que em soma dizem que eram treze mil, rendiam a el-rei da China cada ano trezentos mil taéis. [...].
Daqui nos partimos logo e continuámos nosso caminho pelo rio acima, o qual já nesta parte é menos largo que na cidade de Nanquim donde primeiro partimos, mas a terra é muito mais povoada de aldeias e quintas que todas as outras porque não há tiro de pedra onde não haja uma casa, ou de pagode ou de lavrador e gente de trabalho. E indo mais adiante cerca de duas léguas, chegámos a um grande terreiro todo cercado de grades de ferro muito grossas, no meio do qual estavam em pé duas monstruosas estátuas de bronze fundidas, uma de homem e outra de mulher, encostadas a umas grossas colunas de ferro coado, da grossura de um barril e de altura de sete braças, e o comprimento destes monstros ambos era de setenta e quatro palmos, com ambas as mãos metidas nas bocas e as faces muito inchadas como que soprando, e com os olhos tão encarniçados que metiam medo a quem olhava para eles. O nome do macho era Quiay Xingatalor, e o da fêmea, Apancapatur e perguntando nós aos chins pela significação daquelas figuras, nos responderam que o macho era o que soprava com aquelas bochechas tão inchadas o fogo do Inferno para atormentar as almas daqueles que nesta vida lhe não davam esmolas, e a fêmea era a porteira do Inferno e que os que na vida lhe davam esmola os deixava fugir para um rio de água muito fria, de nome Ochileudai, onde os tinha escondidos sem os diabos lhes fazerem mal nenhum. Um dos da nossa companhia não se pôde ter que se não risse de tamanha parvoíce e diabólica cegueira, de que uns três bonzos que ali estavam (que são os sacerdotes), se escandalizaram tanto que meteram em cabeça ao chifu que nos levava que, se não nos castigasse de maneira que aqueles deuses se houvessem por satisfeitos daquela zombaria que fizéramos deles, sem dúvida a sua alma seria muito atormentada deles ambos, sem nunca a deixarem sair do Inferno, a qual ameaça assombrou tanto o perro do chifu que, sem esperar mais, nos mandou a todos os nove atar de pés e mãos, e com umas cordas dobradas nos deram a cada um mais de cem açoites, de que todos ficámos assaz sangrados, e dali por diante nunca mais zombámos de coisa que víssemos. A estes dois diabólicos monstros, no tempo em que ali chegámos, estavam incensando doze bonzos com seus incensários de prata, cheios de muitos cheiros de águila e benjoim, e diziam em voz alta e muito desentoada: - Assim como te servimos, assim nos ajuda. - A que outra grande soma de sacerdotes respondia com uma grande grita: - Assim to prometo como bom senhor.
E assim andaram todos em procissão à roda do terreiro com estes desentoados clamores por espaço de uma grande hora, tangendo sempre muitos sinos de metal e de ferro coado, que fora do terreiro estavam postos em campanários, e outros tangiam com tambores e sestros que faziam um tamanho estrondo que em verdade afirmo que metia medo.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)