Qui 27 Set 2007
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E tornando ao meu propósito: esta cidade de Nanquim está, como já disse, situada ao longo deste rio de Batampina, em uma elevação de boa altura, por onde fica sobranceiro às campinas que estão em torno dela, cujo clima é algum tanto frio, porém muito sadio; tem oito léguas de cerca por todas as partes, a saber: três léguas de largo e uma de comprido por cada parte; a casaria comum é de um só até dois sobrados, porém as casas dos mandarins são todas térreas e cercadas de muro e cava, em que há pontes de boa cantaria que dão serventia para as portas, as quais todas têm arcos de muito custo e riqueza, com muitas diversidades de invenções nos coruchéus dos telhados, o qual edifíco visto todo por junto representa aos olhos uma grande majestade. As casas dos chaéns, e anchacis, e aitaus, e tutões, e chumbis, que são senhores que governaram províncias e reinos, têm torres muito altas de seis e sete sobrados, com coruchéus cobertos de ouro, onde têm seus armazéns de armas, suas recâmaras, seus tesouros e seu móvel de seda e de peças muito ricas, com infinidade de porcelanas muito finas que entre eles é pedraria, a qual porcelana desta sorte não sai fora do reino, tanto porque entre eles vale muito mais que entre nós, como por ser defeso, sob pena de morte, vender-se a nenhum estrangeiro, salvo aos persas do Xatamás, a que chamam sofi, os quais com licença que têm para isso, compram algumas peças por muito grande preço. Afirmaram-nos os chins, que tem esta cidade oitocentos mil vizinhos, e vinte quatro mil casas de mandarins, e sessenta e duas praças muito grandes, e cento e trinta casas de açougues, de oitenta talhos cada uma, e oito mil ruas, de que seiscentas, que são as mais nobres, têm todas ao comprido, de uma banda e da outra, grades de latão muito grossas feitas ao torno. Afirmaram-nos mais que tem duas mil e trezentas casas de seus pagodes, de que mil são mosteiros de gente professa, e são edifícios muito ricos com torres de sessenta e setenta sinos de metal e de ferro coado muito grandes, que é coisa horrenda ouvi-los tanger. Tem mais esta cidade trinta prisões muito grandes e fortes, em cada uma das quais há dois e três mil presos, e a cada uma destas prisões corresponde uma casa como de misericórdia, que provê toda a gente pobre, com seus procuradores ordinários em todos os tribunais de cível e crime, e onde se fazem grandes esmolas. Todas estas ruas nobres têm arcos nas entradas, com suas portas que se fecham de noite, e as mais delas têm chafarizes de água muito boa e são em si muito ricas e de muito trato. Têm, todas as luas novas e cheias, feiras gerais, onde concorre infinidade de gente de diversas partes, e há nelas grandíssima abundância de mantimentos quantos se pode imaginar, tanto de frutas como de carnes. O pescado deste rio é tanto em tanta quantidade, principalmente de tainhas e linguados, que parece impossível dizer-se, o qual se vende todo vivo com juncos metidos pelos narizes por onde vêm dependurados, e fora este peixe pescado fresco, o seco e salgado que vem do mar também é infinito. Afirmaram-nos mais os chins, que tinha dez mil teares de seda, porque daqui vai para todo o reino.
A cidade em si é cercada de muro forte e de boa cantaria, onde tem cento e trinta portas para a serventia da gente, as quais todas têm pontes por cima das cavas. A cada porta destas estava um porteiro com dois alabardeiros, para darem razão de tudo o que entra e sai. Tem doze fortalezas roqueiras quase ao nosso modo, com baluartes e torres muito altas, mas não tem artilharia nenhuma. Também nos afirmaram que rendia esta cidade a el-rei todos os dias dois mil taéis de prata, que são três mil cruzados, como já disse muitas vezes. Dos paços reais não direi nada porque os não vimos senão de fora, nem deles soubemos mais que o que os chins nos disseram, o qual é tanto que é muito para recear contá-lo, e por isso não tratarei por agora deles porque tenho daqui por diante de contar o que vimos nos da cidade de Pequim, dos quais confesso que estou já agora receando haver de vir a contar ainda esse pouco que deles vimos, não porque isso possa parecer estranho a quem viu as outras grandezas deste reino da China, senão porque temo que os que quiserem medir o muito que há, pelas terras que eles não viram, com pouco que vêem nas terras em que se criaram, queiram pôr dúvida ou porventura negar de todo o crédito àquelas coisas coisas que não se conformam com o seu entendimento e com a sua pouca experiência.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)