Qua 26 Set 2007
E querendo-lhe alguns dar algumas razões contra isto, as não quis ouvir, mas deixando-os assim a todos, depois de lhe tomar primeiro as homenagens e lhe dar juramento nos Santos Evangelhos, se meteu com seis que levava, por dentro do arvoredo no bosque, e caminhando por ele mais de quatro tiros de espingarda, ouviu adiante tanger um sino, e atinando pelo som onde era, foi dar numa ermida muito mais nobre e rica que a outra em que no dia anterior tínhamos entrado, na qual estavam dois homens quase ambos de uma mesma idade, vestidos em trajos de religiosos e com suas contas ao pescoço, por onde inferiu que eram ermitães, e dando neles de súbito os tornou a ambos, de que um ficou tão pasmado que por muito tempo não falou a propósito.
Dos nossos, seis ou quatro entraram na ermida e apanharam do altar um ídolo de prata de bom tamanho, com uma mitra de ouro na cabeça e uma roda na mão, que não soubemos determinar o que significava, e tomaram mais três candeeiros de prata com suas cadeias muito compridas. E tornando-se António de Faria a recolher muito depressa, com os dois ermitães quase a rasto e com as bocas tapadas, chegou onde as embarcações estavam, e recolhido nelas se fez logo à vela com muita pressa e se foi pelo rio abaixo; e fazendo perguntas a um dos dois que ia mais em seu acordo, e com grandes ameaças se mentisse, respondeu que era verdade que um santo homem de uma daquelas ermidas, de nome Pilau Angirou, chegara já muito de noite à casa do jazigo dos reis, e batendo muito apressadamente à porta dera um grito muito alto, dizendo:
- Ó gentes tristes e ensopadas na bebedice do sono da carne, que professaste com juramento solene a honra da deusa Amida, prémio rico do nosso trabalho, ouvi, ouvi, ouvi o miserável que antes nunca tivera nascido. Sabei que entraram gentes estrangeiras do cabo do mundo, com barbas compridas e corpos de ferro, na casa dos vinte e sete pilares, de que um santo homem que me isto disse era vassoura do chão, e roubando nela o tesouro dos santos, botaram com desprezo seus ossos no meio da terra e os contaminaram com escarros podres e fedorentos, dando muitas ridadas como demónios obstinados e contumazes no primeiro pecado, pelo que vos requeiro que ponhais cobro em vossas pessoas, porque se diz que tem jurado de quando for manhã nos matarem a todos, e por isso ou fugi ou chamai quem vos socorra, pois por serdes religiosos vos não é dado tomardes na mão coisa que tire sangue - a cujas vozes toda a gente acordou e acudindo rijo à porta o acharam quase morto deitado no chão, de tristeza e cansaço, por ser já muito velho, pelo que todos os grepos e menigrepos fizeram os fogos que viste, e em grande pressa mandaram logo recado às cidades de Corpilem e Fumbana, para que, com muita brevidade, acudissem com toda a gente que se pudesse juntar, e apelidassem toda a terra para que fizesse o mesmo, pelo que sem dúvida vos afirmo que não tardarão mais que o tempo de se juntarem, porque pelo ar, se puder ser, virão voando com tanto ímpeto como açores esfaimados quando lhes tiram as prisões. E sabei que esta é a verdade de tudo o que se passa, pelo que vos requeiro que nos deixeis ir e não nos mateis, porque será maior pecado que o que ontem cometeste. E lembremos que nos tem Deus tomado tanto à sua conta pela penitência que fazemos, que quase nos vê em todas as horas do dia, e trabalhai por vos pordes a salvo, porque vos afirmo que a terra, o ar, os ventos, as águas, as gentes, os gados, os peixes, as aves, as ervas, as plantas, e tudo o mais que hoje é criado, vos há-de empecer e morder-vos tanto sem piedade que só aquele que vive no céu vos poderá valer.
Certificado António de Faria da verdade deste negócio, pela informação que este ermitão lhe dera, se foi logo a grande pressa pelo rio abaixo, depenando as barbas e dando muitas bofetadas em si por ter perdido por seu descuido e ignorância uma tamanha coisa como a que tinha cometido, se chegara com ela ao cabo.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)