Cap. 78 - Como esta primeira noite fomos sentidos, e por que causa, e do mais que sucedeu sobre isso

Depois de ser embarcado António de Faria, e nós todos com ele, que seria já quase às ave-marias, nos passámos a remo à outra parte da ilha, e surtos a cerca de um tiro de falcão, dela, nos deixámos assim estar até quase à meia-noite, com determinação, como já atrás disse, de logo que ao outro dia fosse manhã, tornarmos a sair em terra e acometer as capelas dos jazigos dos reis que estavam a menos de um quarto de légua de nós, para nelas carregarmos ambas as embarcações, o que quiçá poderia muito bem ser, se nos quiséramos negociar ou António de Faria quisesse tomar o conselho que lhe davam, o qual foi que pois que até então não éramos sentidos, que trouxesse consigo o ermitão para que não desse recado na casa dos bonzos do que tínhamos feito, o que António de Faria não quis fazer, dizendo que seguro estava disso, tanto por ser o ermitão tão velho como todos víamos, como por ser gotoso e ter as pernas tão inchadas que se não podia ter nelas; porém não foi assim como ele cuidava, porque o ermitão logo que nos viu embarcados (segundo o que depois soubemos) assim trôpego como estava, se foi em pés e em mãos à outra ermida que distava da sua pouco mais de um tiro de besta, e deu conta ao ermitão dela do que tínhamos feito, e lhe requereu que pois ele se não podia bulir por causa da sua hidropisia, fosse ele logo dar rebate na casa dos bonzos, o que o outro ermitão logo fez. [...]

Porém António de Faria, sem fazer caso do que eles diziam, saltou em terra com seis homens de espadas e rodelas, e subiu pelas escadas do cais acima, quase afrontado e fora de si, e subindo desatinadamente por cima das grades de que toda a ilha, como já disse, era cercada, correu como doido de uma parte para a outra, sem sentir coisa alguma, e tornando-se às embarcações muito afrontado conversou com todos sobre o que nisto se devia fazer, e depois de se darem muitas razões que ele não queria aceitar, lhe fizeram os mais dos soldados requerimento que em todo o caso partissem logo, e ele receoso de haver algum motim, respondeu que assim o faria, mas que para sua honra lhe convinha primeiro saber o de que havia de fugir, e que portanto lhes pedia muito por mercê que o quisessem ali esperar, porque queria ver se podia tomar alguma língua que o certificasse mais na verdade desta suspeita, e que para isso lhes não pedia mais de espaço que só meia hora, visto que ainda havia tempo para tudo antes que fosse manhã.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)