Seg 24 Set 2007
- É certo que agora vejo o que nunca cuidei que visse nem ouvisse, maldade por natureza e virtude fingida, que é furtar e pregar. Grande deve ser a tua cegueira, pois confiado em boas palavras gastas a vida em tão más obras. Não sei se gracejará Deus contigo no dia da conta!
E não o querendo mais ouvir, se virou para António de Faria que neste tempo já estava em pé, e com as mãos alevantadas lhe pediu com muita eficácia que não consentisse cuspirem-lhes os nossos no altar, porque o sentia mais que tirarem-lhe mil vezes a vida, ao que ele respondeu que assim se faria, e em tudo o mais que mandasse seria logo servido, de que o Hitocou ficou algum tanto consolado.
E por ser já muito tarde, determinou António de Faria de se não deter então ali mais; porém, antes que se recolhesse, vendo que lhe era necessário tomar informações de algumas coisas importantes, para se certificar de alguns receios que tinha, perguntou ao ermitão que gente haveria em todas aquelas ermidas, a que ele respondeu que trezentos e sessenta talagrepos somente, um em cada ermida, e quarenta menigrepos que os serviam de fora e os proviam de mantimento e da cura de alguns doentes. E perguntando se vinham os reis da China àquele lugar algum ano, ou em que tempo, respondeu que não, porque o rei, por ser filho do Sol, ele podia absolver a todos e ninguém o podia condenar a ele. E perguntando se tinham aqueles ermitões alguma maneira de armas, respondeu que não, porque aos que pretendiam caminhar para o céu, não lhes eram necessárias armas para ofender, senão paciência para sofrer. E perguntado por que causa estava aquela prata naqueles caixões de mistura com aqueles ossos, disse que era porque era esmola que aqueles defuntos levavam consigo, para láno céu da Lua se valerem dela em suas necessidades. E depois de lhe perguntarem outras muitas coisas, perguntando por último se tinham mulheres, respondeu que aos que houvessem de dar vida à alma, lhes era muito necessário não gastarem dos deleites da carne, porque claro estava que no favo doce do mel se criava a abelha que, picando, escandalizava e magoava os que o comiam. António de Faria, abraçando-o então, e pedindo-lhe muitos perdões ao seu modo, que eles chamam de charachina, se veio embarcar já quase noite, com determinação de ao outro dia tornar a acometer as outras ermidas onde tinha por novas que havia uma muito grande quantidade de prata e alguns ídolos de ouro, mas os nossos pecados nos tolheram vermos o efeito disto que com tanto trabalho e risco das vidas tínhamos procurado, havia passante de dois meses e meio, como logo se dirá.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)