Qui 13 Set 2007
Cap. 59 – Como António de Faria pelejou com o corsário Coja Acém e do que com ele lhe sucedeu
Velejando nós pelo rio acima com vento e maré que Nosso Senhor então nos deu, em menos de uma hora chegámos onde os inimigos estavam, que até este tempo nos não tinham ainda sentido; mas como eles eram ladrões e se temiam da gente da terra, pelos males e roubos que ali cada dia lhe faziam, estavam tão aparelhados e tinham tão boa vigia que em nos vendo tocaram um sino muito apressadamente, ao som do qual foi tamanho o rumor e revolta de gente, tanto da que estava em terra como da que estava embarcada, que não havia quem se ouvisse com eles o que vendo António de Faria, bradou logo, dizendo:
- Eia, senhores e irmãos meus, a eles, como nome de Cristo, antes que as suas lorchas lhes acudam! Santiago!
E disparando toda a nossa artilharia, prouve a Nosso Senhor que se empregou tão bem que dos mais esforçados que já neste tempo estavam em cima do chapitéu, veio logo abaixo a maior parte, feitos em pedaços, o que foi um bom prognóstico do nosso desejo.
Após isto, os nossos atiradores, que seriam cento e sessenta, pondo fogo a toda a arcabuzaria, conforme o sinal que lhes fora feito, os conveses de ambos os juncos ficaram tão vazios da multidão que antes neles se via, que já nenhum dos inimigos ousava aparecer. Os nossos dois juncos, abalroando então os dois dos inimigos assim como estavam, a briga se travou entre todos, de maneira que realmente confesso que não me atrevo a particularizar o que nela se passou, ainda que me achasse presente, porque ainda neste tempo a manhã não era bem clara, e a revolta dos inimigos e nossa era tamanha, juntamente com o estrondo dos tambores, bacias e sinos, e com as gritas e brados de uns e dos outros, acompanhados de muitos pelouros de artilharia e de arcabuzaria, e na terra o retumbar dos ecos pelas concavidades dos vales e outeiros, que as carnes tremiam de medo; e durando assim esta briga por espaço de um quarto de hora, as suas lorchas e lanteas lhes acudiram de terra com muita gente de reforço, vendo o que, um tal Diogo Meireles, que vinha no junco de Quiay Panjão, e que o seu condestável, dos tiros que fazia nenhum acertava, por andar tão pasmado e fora de si que nenhuma coisa acertava, estando ele então para dar fogo a um camelo, meio turvado, o empurrou tão de rijo que deu com ele da escotilha abaixo, dizendo:
- Guar-te daí, vilão, que não prestas para nada, porque este tiro neste tempo é para os homens como eu, e não para os tais como tu!
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 – a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)