Setembro 2007
Monthly Archive
Sex 28 Set 2007
Cap. 90 - Do que achámos por este rio acima até chegarmos a uma vila chamada Junquileu, e do que nela vimos, e noutro lugar adiante dela
Partidos nós ao outro dia desta cidade de Pocasser, chegámos a outra a que chamavam Xilingau, também muito grande e muito nobre e de muito boa casaria cercada de muros de tijolo, com sua cava ao redor e nos cabos dois castelos de entulho muito fortes e bem acabados, com torres e baluartes quase a nosso modo, e nas entradas pontes levadiças que se suspendiam no ar por grossas cadeias de ferro, e no meio de cada um destes castelos uma torre de cinco sobrados com muitas invenções de pinturas de diversas cores, nas quais torres ambas, nos afirmaram os chins que estavam, em tesouro, quinze mil picos de prata do rendimento daquele anchacilado, que o avô deste rei ali mandara pôr em memória de um filho que ali lhe nascera, de nome Leuquinau, que quer dizer alegria de todos, o qual eles têm que foi santo porque acabou em religião e está ali enterrado num templo da invocação do Quiay Varatel, deus de todos os peixes do mar, de que estes cegos contam muitos desatinos de leis que inventou e preceitos que deu, que é espanto ouvi-los, de que a seu tempo farei menção.
Nesta cidade e noutra mais acima cinco léguas, se tece a maior parte da seda deste reino, por causa das águas que dizem que fazem mais vivas as cores das tintas, que todas as das outras partes. Os teares destas sedas que em soma dizem que eram treze mil, rendiam a el-rei da China cada ano trezentos mil taéis. [...].
Daqui nos partimos logo e continuámos nosso caminho pelo rio acima, o qual já nesta parte é menos largo que na cidade de Nanquim donde primeiro partimos, mas a terra é muito mais povoada de aldeias e quintas que todas as outras porque não há tiro de pedra onde não haja uma casa, ou de pagode ou de lavrador e gente de trabalho. E indo mais adiante cerca de duas léguas, chegámos a um grande terreiro todo cercado de grades de ferro muito grossas, no meio do qual estavam em pé duas monstruosas estátuas de bronze fundidas, uma de homem e outra de mulher, encostadas a umas grossas colunas de ferro coado, da grossura de um barril e de altura de sete braças, e o comprimento destes monstros ambos era de setenta e quatro palmos, com ambas as mãos metidas nas bocas e as faces muito inchadas como que soprando, e com os olhos tão encarniçados que metiam medo a quem olhava para eles. O nome do macho era Quiay Xingatalor, e o da fêmea, Apancapatur e perguntando nós aos chins pela significação daquelas figuras, nos responderam que o macho era o que soprava com aquelas bochechas tão inchadas o fogo do Inferno para atormentar as almas daqueles que nesta vida lhe não davam esmolas, e a fêmea era a porteira do Inferno e que os que na vida lhe davam esmola os deixava fugir para um rio de água muito fria, de nome Ochileudai, onde os tinha escondidos sem os diabos lhes fazerem mal nenhum. Um dos da nossa companhia não se pôde ter que se não risse de tamanha parvoíce e diabólica cegueira, de que uns três bonzos que ali estavam (que são os sacerdotes), se escandalizaram tanto que meteram em cabeça ao chifu que nos levava que, se não nos castigasse de maneira que aqueles deuses se houvessem por satisfeitos daquela zombaria que fizéramos deles, sem dúvida a sua alma seria muito atormentada deles ambos, sem nunca a deixarem sair do Inferno, a qual ameaça assombrou tanto o perro do chifu que, sem esperar mais, nos mandou a todos os nove atar de pés e mãos, e com umas cordas dobradas nos deram a cada um mais de cem açoites, de que todos ficámos assaz sangrados, e dali por diante nunca mais zombámos de coisa que víssemos. A estes dois diabólicos monstros, no tempo em que ali chegámos, estavam incensando doze bonzos com seus incensários de prata, cheios de muitos cheiros de águila e benjoim, e diziam em voz alta e muito desentoada: - Assim como te servimos, assim nos ajuda. - A que outra grande soma de sacerdotes respondia com uma grande grita: - Assim to prometo como bom senhor.
E assim andaram todos em procissão à roda do terreiro com estes desentoados clamores por espaço de uma grande hora, tangendo sempre muitos sinos de metal e de ferro coado, que fora do terreiro estavam postos em campanários, e outros tangiam com tambores e sestros que faziam um tamanho estrondo que em verdade afirmo que metia medo.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)
Qui 27 Set 2007
“Calcamar – ave do tamanho de uma andorinha. Caça o peixe em voos rasantes com a água, a agitar as patas, dando a impressão de que vai a correr sobre ela.
Calmão – vento fraco.
Caravela – navio de uma só coberta, acastelado à poa, com 2 ou 3 mastros arvorando velas bastardas. Chegavam-se muito ao vento, podendo recebê-lo a cerca de 4 quartas da proa, podendo assim navegar com ventos escassos. Mais tarde, algumas caravelas, para melhor aproveitamento de ventos largos, passaram a ter pano redondo no mastro da proa em lugar de bastardo. A estas passou a chamar-se “caravelas redondas”.
Cerração – nevoeiro espesso.
Céus aclarados – nuvens esbranquiçadas.
Céus brancos – cúmulos.
Céus claros – com poucas ou nenhumas nuvens.
Céus dobrados – com nuvens espessas, em várias camadas.
Céus grossos – nuvens espessas.
Céus leves – nuvens ligeiras.
Céus pegados – nuvens recobrindo completamente o céu.
Céus queimados – nuvens de cor escura.
Cevadeira – vela que se envergava no gurupés das naus.
Chão – mar cuja vaga não vai além de meio metro de altura.
Chuveirinho – aguaceiro de curta duração.
Chuveiro – chuva forte.
Cordear – seguir com o navio o mais chegado possível ao vento.
Corpo Santo – Fogo de Santelmo: eflúvio luminoso que pode ser visto, por vezes, nos topos dos mastros e em extremos ponteagudos de objectos elevados, devido a descargas lentas de electricidade.
Corva – o mesmo que corvo marinho.
Corveta – corva pequena.
Declinação da agulha – variação da agulha, o ângulo formado pelas direcções do N-S verdadeiro e N-S magnético.
Desvelejado – com pouco ou nenhum pano exposto ao vento.
Diferença da agulha – variação da agulha.
Diminuir – ganhar caminho em latitude quando o navio navegava com rumo que o aproximava do Equador.
Dobrados – céus cobertos de nuvens muito espessas.
Entenal – ave palmípede muito citada pelos nossos navegadores, hoje vulgarmente conhecida por albatroz. Tem a cabeça grande, munida de bico forte, comprimido lateralmente, com a mandíbula superior recurvada, e narinas muito salientes. Os pés têm três dedos, reunidos por uma única membrana.”
in “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985, pp. 459 a 461 (excertos)
Qui 27 Set 2007
Publicado por Leonel Vicente em
ProtagonistasComentários
Médico (? - 1443?). Físico do infante D. Fernando, acompanhou-o no seu cativeiro em Tânger, desde 1437, onde permaneceu prisioneiro junto com outros servidores como o futuro cronista do mesmo, João Álvares. Era filho de Fernão Lopes, famoso cronista, considerado o primeiro prosador da língua portuguesa.
(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)
Qui 27 Set 2007
“O códice que inclui, entre outros, os diários da navegação da Nau São Martinho, para a viagem da ida, e o da nau Santa Maria do Castelo, para o regresso, e que constituem a base do presente estudo, pertence à Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa, onde se encontra registado.
Constituído por 269 folhas de papel numeradas consecutivamente, não obedecendo todavia essa numeração à ordem cronológica dos diários de navegação que o formam, nem sequer à primitiva numeração neles estabelecida. Pode mesmo afirmar-se, como é evidente, que a numeração geral do códice foi aposta depois de este já se encontrar encadernado, incluindo até mesmo páginas em branco.
Assim, logo no começo há nove páginas em branco, tendo sido aproveitada a página 3 para índice geral. As páginas compreendidas entre 59 v. e 63 não têm também qualquer escrita. Nota-se, além disso, que foram eliminadas duas folhas a seguir à página 109, não tendo havido, no entanto, nem alteração no texto nem na paginação geral.
O papel apresenta seis marcas de água diferentes, havendo também bastantes folhas sem qualquer marca. Tanto o papel como a encadernação de carneira estão em mau estado de conservação, muito furados por traça.
Os manuscritos das viagens de navegação que formam o códice devem datar dos começos do Século XVII e, pela sua caligrafia, várias pessoas os executaram, verificando-se mesmo a existência de duas caligrafias diferentes no manuscrito do primeiro diário .”
in “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985, pp. 19 e 20
Qui 27 Set 2007
“A persistência dos ventos favoráveis de nornordeste e norte, ventantes ou frescos, permitiu um avanço considerável de 116 léguas ao sul, nos três dias imediatos. A nau cruzou então sensivelmente a meia distância de Cabo Verde ao Arquipélago do mesmo nome, até se postar, em 28 de Abril, a 55 léguas do Cabo Roxo. Porém, a partir desse dia, a navegação não pôde continuar em tão bom ritmo por causa de correntes contrárias que, vindas do sul e sussueste, reduziram consideravelmente a sua marcha, conduzida em rumos do sueste; daí, a escassez do caminho navegado durante doze dias – 157 léguas – até 10 de Maio. Convém assinalar que a navegação foi conduzida, neste período, com todos os cuidados necessários a evitar proximidades perigosas da costa da Guiné, bem patentes pelo número de distâncias de referência a pontos notáveis daquela costa – Cabo da Verga, Serra Leoa e Baixos de Sant’Ana – distâncias que variavam de 70 a 90 léguas.
A partir de 10 de Maio, ponto sito na latitude de 3º 1/6 N e a 90 léguas dos Baixos de Sant’Ana, a nau tomou rumos ao sudoeste em marcha bastante reduzida, quer pela persistência dos «suestes» que sopraram com intensidade moderada (bonançosos ou calmões), quer pelas correntes de mar grosso do sul e sussueste que investiam a nau, lhe davam ruim esteira, a obrigavam a julaventear muito. Assim, até 20 de Maio, a nau apenas percorreu 147 légoas de caminho, a que corresponde uma escassa média diária de 15 léguas aproximadamente.
[…]
Atingida a 20 de Maio a latitude de 2º ½ S, a marcha da nau prosseguiu nos dois dias imediatos ao sul. O avanço de 41 léguas então verificado testemunha boas condições de vento e de mar.
A 22 de Maio, a nau situava-se a cerca de 5º de latitude S, depois de ultrapassado o paralelo da Ilha de Fernão de Noronha.
Seguidamente a marcha da nau processou-se ao largo da costa do Brasil, sempre em rumos do quadrante do sudoeste, impulsionada por ventos favoráveis de leste e lessueste, até atingir, a 5 de Junho, o paralelo dos 20º ¼ S, distante 15 léguas da Ilha da Trindade pela banda do oeste. A nau, em velocidade relativamente moderada para a força dos ventos actuantes, frescos e ventantes, apenas fez 304 léguas de caminho desde 23 de Maio, dada a presença quase constante de vagas de mar grosso do sueste, que travavam a marcha da nau e a obrigavam a julaventear muito. Durante este período, a rota apresenta diversas distâncias de referência a pontos notáveis da costa do Brasil: Cabo de Santo Agostinho, Rio Real, Baía de Todos os Santos, Ilhéus, Porto Seguro e Abrolhos. Essas distâncias são, no entanto, bastante menores que as reais, por virtude das cartas da época apresentarem a costa do Brasil deslocada para leste cerca de 80 léguas. […] .”
in “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985, pp. 5 a 7
Qui 27 Set 2007
Cap. 88 - Como daqui partimos para a cidade de Pequim, e das grandezas da cidade de Nanquim
[...]
E tornando ao meu propósito: esta cidade de Nanquim está, como já disse, situada ao longo deste rio de Batampina, em uma elevação de boa altura, por onde fica sobranceiro às campinas que estão em torno dela, cujo clima é algum tanto frio, porém muito sadio; tem oito léguas de cerca por todas as partes, a saber: três léguas de largo e uma de comprido por cada parte; a casaria comum é de um só até dois sobrados, porém as casas dos mandarins são todas térreas e cercadas de muro e cava, em que há pontes de boa cantaria que dão serventia para as portas, as quais todas têm arcos de muito custo e riqueza, com muitas diversidades de invenções nos coruchéus dos telhados, o qual edifíco visto todo por junto representa aos olhos uma grande majestade. As casas dos chaéns, e anchacis, e aitaus, e tutões, e chumbis, que são senhores que governaram províncias e reinos, têm torres muito altas de seis e sete sobrados, com coruchéus cobertos de ouro, onde têm seus armazéns de armas, suas recâmaras, seus tesouros e seu móvel de seda e de peças muito ricas, com infinidade de porcelanas muito finas que entre eles é pedraria, a qual porcelana desta sorte não sai fora do reino, tanto porque entre eles vale muito mais que entre nós, como por ser defeso, sob pena de morte, vender-se a nenhum estrangeiro, salvo aos persas do Xatamás, a que chamam sofi, os quais com licença que têm para isso, compram algumas peças por muito grande preço. Afirmaram-nos os chins, que tem esta cidade oitocentos mil vizinhos, e vinte quatro mil casas de mandarins, e sessenta e duas praças muito grandes, e cento e trinta casas de açougues, de oitenta talhos cada uma, e oito mil ruas, de que seiscentas, que são as mais nobres, têm todas ao comprido, de uma banda e da outra, grades de latão muito grossas feitas ao torno. Afirmaram-nos mais que tem duas mil e trezentas casas de seus pagodes, de que mil são mosteiros de gente professa, e são edifícios muito ricos com torres de sessenta e setenta sinos de metal e de ferro coado muito grandes, que é coisa horrenda ouvi-los tanger. Tem mais esta cidade trinta prisões muito grandes e fortes, em cada uma das quais há dois e três mil presos, e a cada uma destas prisões corresponde uma casa como de misericórdia, que provê toda a gente pobre, com seus procuradores ordinários em todos os tribunais de cível e crime, e onde se fazem grandes esmolas. Todas estas ruas nobres têm arcos nas entradas, com suas portas que se fecham de noite, e as mais delas têm chafarizes de água muito boa e são em si muito ricas e de muito trato. Têm, todas as luas novas e cheias, feiras gerais, onde concorre infinidade de gente de diversas partes, e há nelas grandíssima abundância de mantimentos quantos se pode imaginar, tanto de frutas como de carnes. O pescado deste rio é tanto em tanta quantidade, principalmente de tainhas e linguados, que parece impossível dizer-se, o qual se vende todo vivo com juncos metidos pelos narizes por onde vêm dependurados, e fora este peixe pescado fresco, o seco e salgado que vem do mar também é infinito. Afirmaram-nos mais os chins, que tinha dez mil teares de seda, porque daqui vai para todo o reino.
A cidade em si é cercada de muro forte e de boa cantaria, onde tem cento e trinta portas para a serventia da gente, as quais todas têm pontes por cima das cavas. A cada porta destas estava um porteiro com dois alabardeiros, para darem razão de tudo o que entra e sai. Tem doze fortalezas roqueiras quase ao nosso modo, com baluartes e torres muito altas, mas não tem artilharia nenhuma. Também nos afirmaram que rendia esta cidade a el-rei todos os dias dois mil taéis de prata, que são três mil cruzados, como já disse muitas vezes. Dos paços reais não direi nada porque os não vimos senão de fora, nem deles soubemos mais que o que os chins nos disseram, o qual é tanto que é muito para recear contá-lo, e por isso não tratarei por agora deles porque tenho daqui por diante de contar o que vimos nos da cidade de Pequim, dos quais confesso que estou já agora receando haver de vir a contar ainda esse pouco que deles vimos, não porque isso possa parecer estranho a quem viu as outras grandezas deste reino da China, senão porque temo que os que quiserem medir o muito que há, pelas terras que eles não viram, com pouco que vêem nas terras em que se criaram, queiram pôr dúvida ou porventura negar de todo o crédito àquelas coisas coisas que não se conformam com o seu entendimento e com a sua pouca experiência.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – I” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 22, Junho de 2002 - a partir de “Peregrinação”, versão para português actual e glossário de Maria Alberta Menéres, nota introdutória de Eduardo Prado Coelho, vol. I, Lisboa, Relógio d’Água, 2001)
Qua 26 Set 2007
“Abatimento da agulha – variação da agulha, ângulo formado pela direcção do N-S geográfico com a do N-S magnético.
Afuzilar – fuzilar, relampejar.
Agulha fixa – variação nula da agulha, quando esta aponta directamente o norte verdadeiro.
Albacora – peixe semelhante ao atum mas mais pequeno. Apresentava dorso negro e ventre e flancos prateados.
Alcatraz – ave palmípede de grandes dimensões também conhecida por “entenal”. Entre as suas variedades figuram: o alcatraz domínico e o alcatraz manga de veludo.
Alijar – descarregar objectos no mar de forma a aliviar a carga do navio.
Almazem – armazém da Casa da Índia onde se guardavam cartas, diários de navegação, roteiros, instrumentos náuticos, etc..
Aloeste – a oeste.
Altura – altura do polo, latitude.
Amainar velas – arriar velas Andar pela bolina – ir a navegar recebendo o vento por vante do través.
Andar a bordejar – navegar recebendo o vento ora por um dos bordos ora por outro.
Arrepiado – diz-se do mar encrespado, mas sem ondas.
Arribar – guinar para sotavento, ficando assim a receber o vento mais largo, ou desviar-se da rota por acção do tempo ou das correntes marítimas.
Atravessado – diz-se de um navio que recebe o mar de través. Expor o costado do navio ao vento e ao mar, recebendo-de de través com todo o pano ferrado. Situação do navio quando ao pairo.
Bafagem – vento de intensidade muito fraca e inferior à da aragem.
Baixo – baixio – região marítima de fundos pequenos, onde a navegação pode ser perigosa.
Barlavento – balravento (grafia antiga) – lugar donde o vento sopra.
Bolina – cada um dos cabos que puxam para vante as testas das velas do lado donde sopra o vento para que este seja melhor aproveitado. Bolina é também o rumo mais perto da direcção a que o navio pode navegar sem que as velas grivem.
Bombordo – o bordo do navio que fica à esquerda quando se está voltado para a proa.
Bonança ou bonançoso – vento brando.
Borelho ou borrelho – segundo Vicente Rodrigues, era um pássaro pequeno, branco; segundo Aleixo Mota, um pássaro cinzento do tamanho de um pardal; segundo Mariz, na “Arte de Navegar”, uma ave aquática, da espécie de estorninho, parda, com barriga branca, de bico e pernas compridas.
Borrifos – chuva muito miúda e passageira.
Braça – antiga medida de comprimento de oito palmos, correspondendo a cerca de 1,76 m. Actualmente, a braça mede 1,83 m.
Bruega – chuva fraca, miúda e persistente, o mesmo que “molinha”.”
in “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985, pp. 457 a 459 (excertos)
Qua 26 Set 2007
Publicado por Leonel Vicente em
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ProtagonistasComentários
Médico de D. Manuel I (séculos XV e XVI). Este castelhano, que terá concluído o bacharelato em Artes e em Medicina, viajou na armada de Pedro Álvares Cabral, que, em 1500, descobriu o Brasil. De lá escreveu a D. Manuel uma espécie de relatório sobre observações astronómicas de que fora encarregue. Não há certezas, mas este poderá ser João Farás, um geógrafo, que traduziu a obra de Pomponio Mela, também geógrafo.
(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)
Qua 26 Set 2007
“A partida do Tejo teve lugar às nove horas da manhã de 5 de Abril de 1597. Já no mar alto, a acção conjunta dos ventos e mar não foi de molde a propiciar um rumo mais directo à Madeira – precisamente ao sudoeste – do que os que foram (ou puderam ser) levados a efeito. Assim, em lugar desse rumo, que naturalmente traduzia menor caminho, a nau derivou algo para rumos mais chegados ao sul, em virtude de esta derivar nessa direcção, mesmo desaparelhada de quase todo o velame.
[…]
Reimão sabia perfeitamente que, depois de dar o dito resguardo nas singraduras precedentes, avistaria a Madeira, Porto Santo ou Desertas rumando para oeste quando em latitudes de 33 a 32 graus, facto que comprovámos quer nesta viagem quer na anterior, de 1595, que fora realizada pela nau São Pantaleão.
Seis dias após a partida do Tejo, a 11 de Abril, a nau tinha percorrido 159 léguas de caminho e encontrava-se a 8 léguas de distância da Deserta Grande.
[…]
Durante os dias 12 e 13 de Abril, a nau rumou ao sudoeste, talvez com o objectivo de se dirigir à Ilha da Palma como acontecera na viagem precedente. Contudo, a presença de ventos contrários do sul e sussudoeste teria malogrado tal tentativa, levando a nau, em rumos do quadrante sueste, a passar à vista das Selvagens na manhã de 16 de Abril.
Com a mudança dos ventos para oesnoroeste e nornordeste, verificada nas duas singraduras imediatas, a nau pôde rumar direita à ponta do nordeste da Ilha de Tenerife para depois embalar pelo meio do canal (por «meia boroa», diz o diário) que a separa da Grã-Canária.
[…]
Seguidamente, até 25 de Abril, a nau foi levada a descrever uma trajectória quase paralela à linha da costa africana, primeiro ao sussudoeste, depois a rumos progressivamente mais chegados ao sul, navegando a boa velocidade (a cerca de 29 léguas por dia, em média) por acção de ventos frescos ou ventantes predominantemente do nornordeste e do norte. Desta forma, a 20 e 21, a nau situava-se a 35 léguas da costa de África; em 22, a 32 léguas do Cabo Branco; e a 25 de Abril, a nau encontrava-se a 55 léguas da costa, a leste-oeste com a Ilha de Santo Antão (Cabo Verde).
Desde Lisboa a nau tinha percorrido quatrocentas e cinquenta e quatro léguas.”
in “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985, pp. 4 e 5
Qua 26 Set 2007
Aos 26 do mes en sesta amanhesendo estavamos en terra eu botey prumo no quarto da prima rendido e achey 80 braças, vasa solta, que não veo nada nem no pano sem no sevo, e quizera fazer sinal a capitaina que vinha por nossa poupa com huma peça d’artelharia, ouve pareceres que o não fizese, asy que como diguo en vindo a lus do dia vimos a terra e nos fomos chegando a ella, seria 2 oras de sol quando o reconhesemos ser Bardes e a chapela e os Ilheos de Goa a Velha, demorava ao sueste. Esta noite no quarto da madora athe pella menhã o vento se fez nordeste que logoo mostrou ser terrenho, e viemos ao sueste e quarta de leste e lesueste athe menhã, pello que nos fez abater as naos pera o sul alguma cousa, porque o sol do dia atras foi desaseis menos hum sesmo e oje ao meo dia tomey 15 graos e 1/2 defronte da barra. Eu como diguo me fez ontem ao meo dia com a terra, e a nao andaria do ponto e não me espanto pello muito que fomos pera o nornordeste, e achey por mynha conta que a nao andou pella altura 190 legoas, e muito bom sinal o das corvetas pretas postas n’agoa. Viemos surgir em Bardes ambas as naos ja tarde, ao sol posto. Louvores a Nosso Senhor e a Virgem Mynha Senhora, que tantas merces nos fez e primita levarmos pera nosa casa. Amen.
(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)
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