Aos 26 do mes en sesta amanhesendo estavamos en terra eu botey prumo no quarto da prima rendido e achey 80 braças, vasa solta, que não veo nada nem no pano sem no sevo, e quizera fazer sinal a capitaina que vinha por nossa poupa com huma peça d’artelharia, ouve pareceres que o não fizese, asy que como diguo en vindo a lus do dia vimos a terra e nos fomos chegando a ella, seria 2 oras de sol quando o reconhesemos ser Bardes e a chapela e os Ilheos de Goa a Velha, demorava ao sueste. Esta noite no quarto da madora athe pella menhã o vento se fez nordeste que logoo mostrou ser terrenho, e viemos ao sueste e quarta de leste e lesueste athe menhã, pello que nos fez abater as naos pera o sul alguma cousa, porque o sol do dia atras foi desaseis menos hum sesmo e oje ao meo dia tomey 15 graos e 1/2 defronte da barra. Eu como diguo me fez ontem ao meo dia com a terra, e a nao andaria do ponto e não me espanto pello muito que fomos pera o nornordeste, e achey por mynha conta que a nao andou pella altura 190 legoas, e muito bom sinal o das corvetas pretas postas n’agoa. Viemos surgir em Bardes ambas as naos ja tarde, ao sol posto. Louvores a Nosso Senhor e a Virgem Mynha Senhora, que tantas merces nos fez e primita levarmos pera nosa casa. Amen.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)