“A nau ancorou em Moçambique adiantada das outras da companhia, pois só a 16 chegou a São João e a 19 a nau capitania Santa Maria do Castelo.

A partida de Moçambique verificou-se a 22 de Agosto, rumo à Ilha do Comoro situada a nordeste. A ponta do sudoeste dessa ilha foi avistada à uma hora da tarde de 24 de Agosto, depois do que foram arribando por oeste a cerca de 15 léguas da terra. Ao amanhecer de 26, viam a ponta nordeste da ilha que «demorava» a lessueste, «ponta delgada que morre no mar e alta terra» – refere o diário, e, ao meio-dia, a nau postava-se a 16 léguas da banda do noroeste, tendo então percorrido 94 léguas desde Moçambique.

No período seguinte, a nau foi levada a descrever uma trajectória quase paralela à linha da costa da África: primeiramente a norte-quarta-a-nordeste até 29 de Agosto; depois, até 2 de Setembro, a nordeste-quarta-a-norte; e finalmente, até 6 de Setembro, ao nordeste. O caminho percorrido neste período totaliza 291 léguas e foi navegado em boa velocidade (cerca de 26,5 léguas por dia) por acção de ventos favoráveis e fortes que sopraram quase constantemente, embora contrariados por correntes marítimas que, por vezes, se lhes opunham. A 31 de Agosto, o ponto, sito em cerca de 5º de latitude S, é referenciado no diário a 35 léguas dos Baixos do Patrão e a 85 léguas da Ilha de Pemba; e a 4 de Setembro, a 80 léguas de Mogadoxo, terra mais chegada da costa de África. […]

Depois de atingir, em 6 de Setembro, o paralelo de 2º 2/3 N, a marcha da nau prosseguiu a rumos do quadrante do nordeste até cruzar o paralelo de Goa, o que se verificou ao meio dia de 16 de Setembro. O caminho navegado nesse período orçou em 317 léguas, registando-se em quase todas as singraduras velocidades superiores a 35 léguas, graças à acção favorável de ventos que sopraram predominantemente do sudoeste e oessudoeste com forte intensidade e ao bom estado do mar; somente nos dias 12 e 13 de Setemnro se não verificaram tais condições de navegação por motivo da presença de águas defavoráveis, vindas do estreito (de Adem). Durante este período o diário anota duas referências à terra firme que convém salientar: a 10 de Setembro, o ponto é estimado a 100 léguas da Ilha de Socotorá (no traçado medimos 95 léguas); e a 16, a 165 léguas de Goa (no traçado: 163 léguas). Estas referências manifestam a precisão da estimativa do piloto.

A navegação do troço final até Goa processou-se, a partir de 16 de Setembro, sensivelmente a leste, ao longo de 169 léguas de caminho. A nau, em marcha relativamente moderada, foi-se aproximando progressivamente da costa do Malabar, cuja presença começou a ser pressentida em 24 de Setembro com a presença de «corvas pretas pousadas na água», conhecença a que Gaspar Reimão atribuía grande significado. No entanto, o facto de «a água não mostrar nada no fundo» levou-o a sérias dúvidas quanto à justeza da sua posição, que se prolongaram ainda no dia imediato. Só a 26 de Setembro, ao render o quarto da prima (cerca da meia noite), foi certificada a proximidade da costa por prumagem que acusou vasa solta a 80 braças de fundo. Finalmente, a terra foi avistada ao romper do sol, reconhecendo-se, duas horas depois, Bardez e os ilhéus de Goa. A nau São Martinho ancorou em Bardez durante a tarde, e as outras duas naus da armada ao pôr do sol.

O caminho percorrido desde Lisboa, donde tinham partido a 5 de Abril, foi de «três mil quinhentos e setenta e cinco léguas» em cento e sessenta e sete dias de navegação efectiva .”

in “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985, pp. 11 e 12