“A nau, agora sulcando águas da África do Sul, rumou primeiramente para lessueste para se afastar da costa, num percurso de 40 léguas. Atingindo a 17 de Julho o paralelo de 36º ¼ S, tomou o rumo leste nos dois dias imediatos para depois, a rumos de nordeste, alcançar, a 24 do mês, o paralelo de 34º S, desenhando uma curva semelhante à da linha da costa, mantendo todavia uma prudente distância da mesma. A nau tinha então percorrido desde o Cabo das Agulhas 182 léguas, com ventos geralmente favoráveis e correntes marinhas de feição. O número de distâncias de referência a pontos notáveis da costa – Aguada de São Brás, Baía da Lagoa, Terra Primeira do Natal – permitiram avaliar, graças à acertada carteação do piloto, a precisão das suas estimativas relativamente às cartas contemporâneas […].

De 25 a 27 de Julho, a nau permaneceu «ao pairo» por motivo dos ventos do norte não permitirem desfazer altura (diminuir a latitude) e ainda porque um mar «banzeiro» arrastava a nau para leste, quando esta – no parecer do piloto – ia já muito larga da costa. Daí resultou necessariamente não se ter verificado deslocamento sensível durante esses dias.

A situação de impasse na marcha, motivada por condições físicas adversas nas singraduras anteriores, logrou fim ao anoitecer de 28 de Julho, quando o vento passou a soprar favoravelmente do sudoeste, situação que manteve toda a noite. Porém, logo de manhã, mudou de direcção para sueste, passando depois a soprar, nas singraduras imediatas até 2 de Agosto, de vários rumos intermitentemente, o que está conforme com o escasso avanço obtido, totalizando apenas 73 léguas. A marcha decorreu a rumos do nordeste, apontada à Ilha de São Lourenço (Madagascar), encontrando-se em 2 de Agosto a norte-sul com o Cabo das Correntes, na latitude de 31º ½ S.

Melhores condições de navegação de verificaram, contudo, nos dias seguintes, pois permitiram um avanço, até 8 de Agosto, de 170 léguas, situando-se então a nau a 17 léguas da costa de São Lourenço.

Esta ilha foi avistada à uma hora da madrugada de 9 de Agosto. Quando a viram, foram arribando um pouco ao nornoroeste, depois do que tomaram o rumo norte. Ao amanhecer estavam a 7 léguas da costa. Seguidamente, a navegação foi conduzida a nornoroeste, tendo atingido, ao meio-dia de 10 de Agosto, a latitude de 20º 1/3 S, distante 95 léguas da Ilha de Moçambique.

Navegando sempre ao norte-quarta-a-noroeste nos dias imediatos, a nau foi levada à Ilha de Moçambique, onde ancorou no embarcadouro de São Jorge ao anoitecer de 14 de Agosto depois de um percurso de 95 léguas. […] Assim, em 11 de Agosto, o ponto distava 30 léguas da Ilha de João da nova e, no dia seguinte, 22 léguas; a 13, a nau situava-se a 12 léguas leste-oeste da costa de África entre Mongincual e Mocambo .

in “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985, pp. 9 e 10