Sex 28 Set 2007
DESCRIÇÃO GERAL DA VIAGEM (III)
Publicado por Leonel Vicente em Diário navegação Nau São Martinho - Gaspar Reimão“A 5 de Junho, ultrapassado o paralelo dos 20º S, a nau tomou o rumo do sul, circunstância já observada na viagem anterior com a nau São Pantaleão, em iguais condições de latitude e variação da agulha. […]
Dois dias depois, a 7 de Junho, a nau encontrava-se a 22º 5/6 de latitude S, depois de percorrer 45 léguas ao sul nas duas singraduras.
A marcha da nau prosseguiu depois através da parte ocidental do Atlântico-Sul, travessia que trouxe difíceis problemas ao piloto […] no tocante à marcação do ponto, tendo percorrido, até 13 de Junho, 127 léguas a rumos do sueste por acção de ventos do nordeste. Contudo, porque no dia imediato passassem a soprar ventos do sueste, opostos ao sentido da marcha, a nau foi conduzida ao nordeste para assim ganhar algum avanço, embora desfizesse caminho em altura (latitude). Parte desse caminho foi, no entanto, eliminado na singradura seguinte, em que a nau foi arrastada na direcção oposta. Somente a partir de 16 de Junho, os ventos, soprando agora favoráveis, permitiram a continuação da marcha a rumos do sueste até 27 de Junho, num percurso total de 273 léguas, situando-se então a nau em 33º ½ de latitude S, depois de ter cruzado o meridiano das Ilhas de Tristão da Cunha.
A navegação da parte oriental do Atlântico-Sul, com um total de 406 léguas, pode ser repartida em dois períodos no tocante à direcção da marcha: no primeiro, a nau foi conduzida em rumos de sueste e de leste de forma a ganhar altura até atingir, a 6 de Julho, o paralelo dos 36º S; no segundo, depois de dois dias «ao pairo», a nau tomou rumos a norte e nordeste até 15 de Julho, dia em que cruzou o meridiano do Cabo das Agulhas, na latitude de 35º ½ S.
No período inicial foram navegadas 242 léguas em boa velocidade (à média de 27 léguas por dia) por acção de ventos favoráveis, geralmente muito ventantes, que rodaram do noroeste ao sudoeste. A 6 de Julho, o ponto do meio-dia distava 138 léguas do Cabo da Boa Esperança, valor muito próximo da estimativa do piloto. Porém, a 7 de Julho, dada a presença de ventos desfavoráveis que rodaram progressivamente de sul para nordeste, a marcha da nau processou-se em más condições, navegando toda a noite «à trinca» com papafigos, para depois, já de manhã, ficar «ao pairo» com todo o pano tomado.
Tal situação continuou no dia seguinte, com muito vento nordeste, muita cerração, muita «molinha» de chuva e mar estrambalhado de todas as partes. […]
Só a 9 de Julho, com a mudança dos ventos para sudoeste e noroeste, a marcha da nau pôde progredir satisfatoriamente para o Cabo das Agulhas, cujo meridiano cruzou, como já dissemos, ao meio-dia de 15 de Julho, após um percurso de 149 léguas. […] ”
in “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985, pp. 7 a 9