Qui 27 Set 2007
DESCRIÇÃO GERAL DA VIAGEM (II)
Publicado por Leonel Vicente em Diário navegação Nau São Martinho - Gaspar Reimão“A persistência dos ventos favoráveis de nornordeste e norte, ventantes ou frescos, permitiu um avanço considerável de 116 léguas ao sul, nos três dias imediatos. A nau cruzou então sensivelmente a meia distância de Cabo Verde ao Arquipélago do mesmo nome, até se postar, em 28 de Abril, a 55 léguas do Cabo Roxo. Porém, a partir desse dia, a navegação não pôde continuar em tão bom ritmo por causa de correntes contrárias que, vindas do sul e sussueste, reduziram consideravelmente a sua marcha, conduzida em rumos do sueste; daí, a escassez do caminho navegado durante doze dias – 157 léguas – até 10 de Maio. Convém assinalar que a navegação foi conduzida, neste período, com todos os cuidados necessários a evitar proximidades perigosas da costa da Guiné, bem patentes pelo número de distâncias de referência a pontos notáveis daquela costa – Cabo da Verga, Serra Leoa e Baixos de Sant’Ana – distâncias que variavam de 70 a 90 léguas.
A partir de 10 de Maio, ponto sito na latitude de 3º 1/6 N e a 90 léguas dos Baixos de Sant’Ana, a nau tomou rumos ao sudoeste em marcha bastante reduzida, quer pela persistência dos «suestes» que sopraram com intensidade moderada (bonançosos ou calmões), quer pelas correntes de mar grosso do sul e sussueste que investiam a nau, lhe davam ruim esteira, a obrigavam a julaventear muito. Assim, até 20 de Maio, a nau apenas percorreu 147 légoas de caminho, a que corresponde uma escassa média diária de 15 léguas aproximadamente.
[…]
Atingida a 20 de Maio a latitude de 2º ½ S, a marcha da nau prosseguiu nos dois dias imediatos ao sul. O avanço de 41 léguas então verificado testemunha boas condições de vento e de mar.
A 22 de Maio, a nau situava-se a cerca de 5º de latitude S, depois de ultrapassado o paralelo da Ilha de Fernão de Noronha.
Seguidamente a marcha da nau processou-se ao largo da costa do Brasil, sempre em rumos do quadrante do sudoeste, impulsionada por ventos favoráveis de leste e lessueste, até atingir, a 5 de Junho, o paralelo dos 20º ¼ S, distante 15 léguas da Ilha da Trindade pela banda do oeste. A nau, em velocidade relativamente moderada para a força dos ventos actuantes, frescos e ventantes, apenas fez 304 léguas de caminho desde 23 de Maio, dada a presença quase constante de vagas de mar grosso do sueste, que travavam a marcha da nau e a obrigavam a julaventear muito. Durante este período, a rota apresenta diversas distâncias de referência a pontos notáveis da costa do Brasil: Cabo de Santo Agostinho, Rio Real, Baía de Todos os Santos, Ilhéus, Porto Seguro e Abrolhos. Essas distâncias são, no entanto, bastante menores que as reais, por virtude das cartas da época apresentarem a costa do Brasil deslocada para leste cerca de 80 léguas. […] .”
in “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985, pp. 5 a 7