Aos 14 do mes en quinta feira, bespora de Nosa Senhora, amanhesemos de Mocambo pera Mongical defronte dos segundos pinheiros. O vento foi esta noite fresco ora mais ora menos, a proa veo ao noroeste, de noite aprumey tres veses, huma aos dois da prima e outra dois da madorra e outra a madorra rendida, e não achey fundo; com amanhesendo estaria de terra com quatro legoas, vin corendo a costa athe Mocambo perto de terra, e o vento foi acalmando, que sendo meo dia esta em Mocambo e foi tão calma que não pode chegar a Santiago senão no quarto da prima, porque marquey a Ilha ca vim buscar sen de Mocambo achar fundo senão depois que foi pegado com ella, que dey em 27 braças cascalho e logo en 20-17-15-14-12 e por 10 vem corendo Santiago e São Jorge, vindo com o prumo na mão athe paçar São Jorge e me demorar a loessudueste, dey fundo em 8 braças e mea sendo quarto da prima rendido, louvores a Noso Senhor. E antemenhã veio a nos huma almadia com o piloto da nao do trato, Vicente de Çintra e criados do capitão que esta noite estyverão em São Jorge, e fizerão fogo e nos derão desejadas novas, que nos vinhamos esperando serem boas, na nao Nosa Senhora da Lus, capitão mor João de Saldanha, e da nao Vitoria não envernarem nesta fortalesa, mas que a nao Rosario que por fazer agoa não pode fazer viagem. Esta costa de Moçambique tem grajaos brancos, calcamares pardos e rabos forcados. Seja Noso Senhor louvado e a Virgem Maria Senhora que tantas merces nos tem feito e faz cada ora em me trazer a este porto a salvamento, e primita elle levar me a Portugal como companheiro em sua vyagem e o peço a Virgem do Remedio e do Rosario Madre de Deos Minha Senhora.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)