Capítulo VIII

Vindo o recado do Samori que fosse, saiu Vasco da Gama com doze pessoas em terra, onde o recebeu um homem nobre, a que eles chamam Catual acompanhado de duzentos homens a pé, deles para levarem o fato dos nossos, e deles que serviam de espada e adaga, como guarda de sua pessoa, e outros de o trazerem aos ombros em um andor, um dos quais andores foi também apresentado a Vasco da Gama para ir nele.

Posto o Catual e ele em caminho para Calecut, chegaram a um templo junto de uma povoação, onde estava aposentado outro Catual, pessoa mais notável, que vinha por mandado do Samori receber Vasco da Gama. O qual, quando saiu a ele, era muita gente de guerra, todos adargados a seu modo. Chegado o Catual a Vasco da Gama, depois que, segundo seu uso, o recebeu com muita cortesia, mandou-lhe dar outro andor que trazia adestro, melhor concertado que aquele em que vinha; e sem fazer mais detença, seguiram seu caminho aos paços del-rei, onde Vasco da Gama esperou pelos seus, que não podiam aturar o curso daqueles que levavam o andor; e os maiores danos que recebiam era do grande povo, que quase os levava afogados, polos ver. E ainda sobr’isso, à entrada de um grande terreiro cercado, era tanta pressa por entrarem na volta deles, que veo o negócio às punhadas, e d’i ao ferro, em que houve feridos e um morto, primeiro que os oficiais del-rei apagassem o arruído; e porém sempre teveram tanto resguardo em as pessoas dos nossos, que em toda a revolta não lhe foi feito algum desacatamento.

Passado aquele terreiro, entraram em um páteo de alpendres, onde acharam Vasco da Gama e o Catual com algüa gente mais limpa esperando por eles; e, sem tomar algum repouso daquela afronta em que vinham, entraram todos em hüa grã casa térrea, em que estava aquele grande Samori da província Malabar, per eles tam desejado de ver. De junto do qual se levantou um homem de grande idade, que era o seu brâmane maior, vestido de hüas vestiduras brancas, representando nelas, e em sua idade e continência, ser homem religioso. E, chegando ao meio da casa, tomou Vasco da Gama pela mão e o foi apresentar ao Samori, o qual estava no cabo da casa, lançado em hüa camilha coberta de panos de seda, posto em um leito a que eles chamam cátel, e ele vestido com um pano d’algodão burnido com algüas rosas de ouro batido semeadas per ele, e na cabeça hüa carapuça de brocado alta, à maneira de mitra cerrada, chea de perlas e pedrarias, e per os braços e pernas, que estavam descobertos, tinha braceletes de ouro e pedraria. E a hüa ilharga deste leito, em que jazia com a cabeça posta sobre hüa almofada de seda rasa com lavores de ouro e maneira de broslado, estava um homem que parecia em trajo e ofício dos mais principais da terra, o qual tinha na mão um prato d’ouro com folhas de bitole, que eles usam remoer por lhe confortar o estômago.

(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)