Sex 27 Jul 2007
Capítulo VII
Em que se descreve o sítio da terra a que propriamente chamamos Índia dentro do Gange; na qual só contém a província chamada Malabar, um dos reinos da qual é o em que está a cidade Calecut, onde Vasco da Gama aportou
A região a que os geógrafos propriamente chamam Índia, é a terra que jaz entre os dois ilustres e celebrados rios Indo e Gange, do qual Indo ela tomou o nome, e os povos do antiquíssimo reino Deli, cabeça por sítio e poder de toda esta região, e assim a gente Pársea a ela vezinha, ao presente por nome próprio lhe chamam Indostão. E segundo a delineação da tábua que Ptolomeu faz dela, e mais verdadeiramente pela notícia que ora com o nosso descobrimento temos, por excelência bem lhe podemos chamar grão Mesopotâmia. Porque, se os gregos deram este nome que quer dizer “entre os rios” àquela pequena parte da região Babilónica que abraçam os dois rios Eufrates e Tigres; assim pela situação desta entre as correntes dos notáveis Indo e Gange, que descarregam e vazam suas águas em o grande oceano oriental, por fazermos diferença dela mais notável do que se faz em dizer Índia dentro do Gange, e Índia além do Gange, bem lhe podemos chamar a grão Mesopotâmia, ou Indostão, que é o próprio nome que lhe dão os povos que a habitam e vizinham, por nos conformarmos com eles.
A qual região, as correntes destes dois rios por uma parte, e o grande Oceano Índico por outra, a cercam de maneira, que quase fica uma chersoneso entre terras de figura de lisonja, a que os geómetras chamam rombos, que é de iguais lados e não de anglos retos: Cujos ângulos opostos em maior distância, jazem norte sul, o ângulo desta parte do sul, faz o cabo Comori, e o da parte do norte, as fontes dos mesmos rios. As quais, pero que sobre a terra arrebentem distintas em os montes a que Ptolomeu chama Imão, e os habitadores deles Dalanguer e Nangracot, são estes tão conjuntos uns aos outros, que quase querem esconder as fontes destes dois rios. E, segundo fama do gentio comarcão, parece que ambos nascem de uma veia comum, donde nasceu a fábula dos dois irmãos que anda entre eles, a qual recitamos em a nossa “Geografia”. A distancia destas fontes ao cabo Comori a elas oposto, será pouco mais ou menos por linha directa, quatrocentas léguas, e, os outros dois ângulos, que por contrária linha jazem de levante a poente por distância de trezentos léguas, fazem as bocas dos mesmos rios Indo e Gange, ambos mui soberbos com as águas do grande número dos outros que se neles meterem. E quase tanta é a parte da terra que eles abraçam, quanta a que por os outros dois lados cerca o mar oceano, que ambos se ajuntam no cabo Comori a fazer aquele agudo canto que ele tem, com que fica a figura da lisonja que dissemos.
(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)