E porque da figura e uso delas tratámos em a nossa “Geografia” em o capítulo dos instrumentos da navegação, baste aqui saber que servem a eles naquela operação que ora acerca de nós serve o instrumento a que os mareantes chamam balhestilha, de que também no capítulo que dissemos se dará razão dele é dos seus inventores.

Vasco da Gama, com esta e outras práticas que por vezes teve este piloto, parecia-lhe ter nele um grão tesouro, e por o não perder, o mais em breve que pôde depois que meteu, por consentimento de el-rei, um padrão por nome Espírito Santo na povoação dizendo ser em testemunho da paz e amizade que com ele assentara se fez à vela caminho da Índia, a vinte quatro dias de Abril.

E atravessando aquele grande golfão de setecentas léguas que há de uma à outra costa, por espaço de vinte dois dias sem achar cousa que o impedisse, a primeira terra que tomou foi abaixo da cidade Calecut, obra de duas léguas, e daqui por pescadores da terra, que logo acudiram aos navios, foi levado a ela.

A qual, como era o termo de sua navegação, e na instrução que levava nenhuma outra cousa lhe era mais encomendada, e para o rei de ela nomeadamente levava cartas e embaixada, como ao mais poderoso príncipe daquelas partes e senhor de todas as especiarias, segundo a notícia que naquele tempo neste reino de Portugal tínhamos dele, pareceu aos nossos vendo-se diante dela que tinham acabado o fim de seus trabalhos.

E posto que, adiante particularmente descrevemos o sítio desta cidade Calecut e da região Malabar em que ela está, a qual região é uma parte da província da Índia, aqui, por ser a primeira entrada em que os nossos tomaram posse deste descobrimento por tantos anos continuado e requerido, faremos uma universal relação da província da Índia para melhor entendimento desta chegada de Vasco da Gama.

(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)