Ter 24 Jul 2007
Espedidos estes dois mouros contentes do que lhe Vasco da Gama disse e deu, com algumas peças que também levaram para el-rei, assim aproveitou ante ele o recado e presente, que concedeu nas vistas da maneira que Vasco da Gama pedia.
A qual facilidade os nossos atribuíram mais à obra de Deus que a outra cousa, porque, segundo achavam os mouros daquelas partes ciosos de suas terras, não podiam dar outra causa, pois um rei sem ter deles mais notícia que a que lhe dera o mouro, e sem alguma necessidade se vinha meter no mar tão confiadamente. E, praticando todos sobre este caso e do modo que feriam nestas vistas, assentou Vasco da Gama que seu irmão e Nicolau Coelho ficassem em os navios a bom recado, e tanto a pique que pudessem acudir a qualquer necessidade, e ele com todos os batéis e a mais limpa gente da frota vestidos de festa por fora e armas secretas, com grande aparato de bandeiras, e toldo no batel, fosse ao lugar das vistas. A qual ordem se teve quando veio ao dia delas, partindo Vasco da Gama dos navios com grande estrondo de trombetas, o que tudo respondia com as vozes de gente animando-se uns aos outros em prazer daquela festa, porque como era na terceira oitava da Páscoa, tempo em que eles cá no reino eram costumados a festas e prazer, parecia-lhes que estavam entre os seus.
Vasco da Gama, indo assim neste auto, a meio caminho mandou suspender o remo, por el-rei não ser ainda recolhido ao seu zambuco, o qual vinha ao longo da praia metido em um esparável de seda com as cortinas da parte do mar alevantadas, e ele lançado em um andor sobre os ombros de quatro homens, cercado de muita gente nobre, e a do povo diante e detrás bem afastada para darem vista aos nossos, todos com grande aparato de festa e tangeres a seu modo.
Entrado el-rei no zambuco com algumas pessoas principais e menestréis que tangiam, toda a mais gente que pôde se embarcou por outros barcos cercando el-rei por todas as partes, somente deixaram uma aberta, que tinha a vista para os nossos, em modo de cortesia. E o primeiro sinal de paz que lhe Vasco da Gama mandou fazer, calando-se os instrumentos de festa, foi mandar tirar os da guerra que eram alguns berços espingardas, e no fim deles uma grande grita, ao que responderam os nossos navios com outra tal obra até tirarem as câmaras da artilharia. A qual trovoada, como era cousa nova nas orelhas daquela gente, foi para eles tão grande espanto que houve entre todos rumor de se colher a terra. Pero, sentindo Vasco da Gama a torvação deles, mandou fazer sinal com que cessou aquele tom que os assombrava, e de si chegou-se ao zambuco de el-rei, o qual o recebeu como homem em cujo peito não havia má tenção, e em toda a pratica que ambos tiveram, que durou um bom pedaço, tudo foi com tanta segurança de ambas as partes como se entre eles houvera conhecimento de mais dias.
(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)