Seg 23 Jul 2007
Capítulo VI
Como Vasco da Gama chegou à vila de Melinde, onde assentou paz com o rei dela e pôs um padrão; e havido piloto se partiu para a Índia onde chegou
Seguindo Vasco da Gama seu caminho com esta presa de mouros, ao outro dia, que era de páscoa da Ressurreição, indo com todos os navios embandeirados e a companhia deles com grandes folias por solenidades da festa, chegou a Melinde. Aonde logo por um degredado, em companhia de um dos mouros, mandou dizer a el-rei quem era e o caminho: que fazia e a necessidade que tinha de piloto e que esta fora a causa de tomar aqueles homens, pedindo que lhe mandasse dar um.
El-rei, havido este recado, posto que ao nome Cristão tivesse aquele natural ódio que lhe tem todos os mouros, como era homem bem inclinado e sisudo, sabendo por este mouro o modo de como os nossos se houveram com eles, e que lhe pareciam homens de grande ânimo no feito da guerra, e na conversação brandos e caridosos, segundo o bom tratamento que lhe fizeram depois de os tomarem, não querendo perder amizade de tal gente com más obras, como perderam os outros príncipes por cujos portos passaram, assentou de levar outro modo com eles em quanto não visse sinal contrário do que lhe este mouro contava. E logo por ele e pelo degredado mandou dois homens ao capitão, mostrando em palavras o contentamento que tinha de sua vinda, que descansasse porque pilotos e amizade tudo acharia naquele seu porto, e que em sinal de seguridade lhe mandava aquele anel de ouro, e lhe pedia houvesse por bem de sair em terra para se ver com ele.
Ao que Vasco da Gama respondeu conforme a vontade de el-rei, pero quanto ao sair em terra a se ver com ele, ao presente não o podia fazer, por el-rei seu senhor lho defender, até levar seu recado a el-rei de Calecut e a outros príncipes da Índia. Que para eles ambos assentarem paz e amizade, por ser a cousa que lhe el-rei seu senhor mais encomendava, nenhum outro modo lhe parecia melhor por não sair do seu regimento, que ir ele em seus batéis até junto da praia e sua real senhoria meter-se naqueles zambucos com que ambos se poderiam ver no mar porque, para ele ganhar por amigo tão poderoso príncipe como era el-rei de Portugal cujo capitão ele era, maiores cousas devia fazer.
(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)