E, passados dous dias, por não dar má suspeita de si, quando veio ao terceiro, em que assentou sua entrada, vieram da cidade muitos barcos com gente vestida de festa e tangeres, mostrando que polo honrar vinham naquele auto de prazer, repartindo-se pelos navios. E, porque entre Vasco da Gama e os outros capitães estava assentado que não consentissem entrar em os navios mais que dez ou doze pessoas, cometendo eles esta entrada, foram à mão aos muitos, dizendo que pejavam a mareagem, que, depois, na cidade, tempo lhe ficava pera os verem.

No qual tempo, feito um sinal, mandou Vasco da Gama desferir a vela com grande prazer de todos: dos mouros, parecendo-lhe levar a presa que desejavam; e dos nossos, cuidando que em achar tão luzida gente, e as novas que lhe davam da Índia, tinham acabado o fim de seus trabalhos; estando eles àquela hora em perigo de perderem as vidas, segundo a tenção com que eram levados.

Mas Deus, em Cujo poder estava a guarda deles neste caminho tanto de Seu serviço, não permitiu que a vontade dos mouros fosse posta em obra, porque quase milagrosamente os livrou, descobrindo suas tenções per este modo. Não querendo o navio de Vasco da Gama fazer cabeça pera a vela tomar vento, começou de ir descaindo sobre um baixo; e, vendo ele o perigo, a grandes brados mandou soltar hüa âncora. E como isto, segundo costume dos mareantes nos tais tempos, não se pode fazer sem per todo o navio correr de hüa parte a outra aos aparelhos, tanto que os mouros que estavam per os outros navios viram esta revolta, parecendo-lhe que a traição que eles levavam no peito era descoberta, todos uns por cima dos outros lançaram-se aos barcos. Os que estavam em o navio de Vasco da Gama, vendo o que estes faziam, fizeram outro tanto; até o piloto de Moçambique que se lançou dos castelos de popa ao mar, tamanho foi o temor em todos.

Quando Vasco da Gama e os outros capitães viram tão súbita novidade, abriu-lhe Deus o juízo pera entenderem a causa dela; e, sem mais demora, assentaram logo de se partir ao longo daquela costa, por terem já sabido ser muito povoada, e que podiam achar por ela navios de mouros, de que houvesse algum piloto.

Os mouros, porque entenderam o que eles haviam de fazer, logo aquela noute vieram a remo surdo pera cortar as amarras dos navios; mas não houve efeito sua maldade, por serem sentidos.

(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)