Sex 20 Jul 2007
E, passados dous dias, por não dar má suspeita de si, quando veio ao terceiro, em que assentou sua entrada, vieram da cidade muitos barcos com gente vestida de festa e tangeres, mostrando que polo honrar vinham naquele auto de prazer, repartindo-se pelos navios. E, porque entre Vasco da Gama e os outros capitães estava assentado que não consentissem entrar em os navios mais que dez ou doze pessoas, cometendo eles esta entrada, foram à mão aos muitos, dizendo que pejavam a mareagem, que, depois, na cidade, tempo lhe ficava pera os verem.
No qual tempo, feito um sinal, mandou Vasco da Gama desferir a vela com grande prazer de todos: dos mouros, parecendo-lhe levar a presa que desejavam; e dos nossos, cuidando que em achar tão luzida gente, e as novas que lhe davam da Índia, tinham acabado o fim de seus trabalhos; estando eles àquela hora em perigo de perderem as vidas, segundo a tenção com que eram levados.
Mas Deus, em Cujo poder estava a guarda deles neste caminho tanto de Seu serviço, não permitiu que a vontade dos mouros fosse posta em obra, porque quase milagrosamente os livrou, descobrindo suas tenções per este modo. Não querendo o navio de Vasco da Gama fazer cabeça pera a vela tomar vento, começou de ir descaindo sobre um baixo; e, vendo ele o perigo, a grandes brados mandou soltar hüa âncora. E como isto, segundo costume dos mareantes nos tais tempos, não se pode fazer sem per todo o navio correr de hüa parte a outra aos aparelhos, tanto que os mouros que estavam per os outros navios viram esta revolta, parecendo-lhe que a traição que eles levavam no peito era descoberta, todos uns por cima dos outros lançaram-se aos barcos. Os que estavam em o navio de Vasco da Gama, vendo o que estes faziam, fizeram outro tanto; até o piloto de Moçambique que se lançou dos castelos de popa ao mar, tamanho foi o temor em todos.
Quando Vasco da Gama e os outros capitães viram tão súbita novidade, abriu-lhe Deus o juízo pera entenderem a causa dela; e, sem mais demora, assentaram logo de se partir ao longo daquela costa, por terem já sabido ser muito povoada, e que podiam achar por ela navios de mouros, de que houvesse algum piloto.
Os mouros, porque entenderam o que eles haviam de fazer, logo aquela noute vieram a remo surdo pera cortar as amarras dos navios; mas não houve efeito sua maldade, por serem sentidos.
(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)