Capítulo V

Tornando Vasco da Gama a sua viagem, aos sete dias de Abril, béspora do Domingo de Ramos, chegaram ao porto de hüa cidade chamada Mombaça, em a qual o mouro disse que havia cristãos abexis e da Índia, por causa de ser mui abastada de todas as mercadorias. A situação da qual cidade estava metida per um esteiro que torneava a terra, fazendo duas bocas, com que ficava em modo de ilha, tão encoberta aos nossos que não houveram vista dela senão quando ampararam com a garganta do porto.

Descoberta a cidade, como os seus edifícios eram de pedra e cal, com janelas e eirados à maneira de Espanha, e ela ficava em hüa chapa que dava vista ao mar, estava tão fermosa que houveram os nossos que entravam em algum porto deste reino. E, posto que a vista dela namorasse a todos, não consentiu Vasco da Gama ao piloto que metesse os navios dentro, como ele quisera, por vir já suspeitando contra ele; e surgiu de fora.

Os da cidade, tanto que houveram vista dos navios, mandaram logo a eles em um barco quatro homens, que pareciam dos principais, segundo vinham bem tratados. Chegando a bordo, perguntaram que gente era e o que buscavam. Ao que Vasco da Gama mandou responder dizendo quem eram e o caminho que faziam e a necessidade que tinham de alguns mantimentos.

Os mouros, depois que mostraram em palavras o prazer que tinham e teria el-rei de Mombaça de sua chegada, e fazerem ofertas de todo o necessário pera sua viagem, espediram-se deles; os quais não tardaram muito com a resposta, dizendo que eles foram notificar a el-rei quem era, de que recebeu muito prazer com sua vinda; e que, quanto às cousas que haviam mister, de boa vontade lhas mandaria dar, e assi carga de especiaria, pola muita que tinha. Porém convinha, pera estas cousas lhe serem dadas, entrarem dentro no porto, como era costume das naus que ali chegavam, por ordenança da cidade, quando algüa cousa queriam dela; e que os que o não faziam eram havidos por gente suspeitosa e de mau trato, como alguns que havia per aquela costa, aos quais muitas vezes os seus com mão armada vinham lançar dali, o que podiam também fazer a eles, não entrando pera dentro; que lhe mandava este aviso como a gente estrangeira, e que escolhessem: ou entrar no porto, pera lhe ser dado o que pediam, ou passarem avante.

Vasco da Gama, por segurar a suspeita que se dele podia ter, aceitou a entrada pera dentro ao seguinte dia; e pediu àqueles que traziam este recado que, quando fosse tempo, lhe mandassem algum piloto pera o meter dentro.

(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)