Qua 25 Jul 2007
E desta prática e modo que Vasco da Gama teve com el-rei, ficou ele tão seguro contente de sua amizade, que logo quis ir ver os nossos navios rodeando a todos, e por honra de sua ida lhe mandou Vasco da Gama entregar todos os mouros que tomou no zambuco, os quais guardou para lhe dar naquele dia das vistas. O que el-rei muito estimou, e muito mais dizer-lhe Vasco da Gama como el-rei seu senhor tinha tanta artilharia e tantas maiores naus que aquelas, que poderiam cobrir os mares da Índia, com as quais o poderia ajudar contra seus imigos, porque fazia el-rei conta que a pouco custo por aquela via tinha ganhado um rei poderoso para suas necessidades. Espedido Vasco da Gama dele depois que o deixou desembarcado tornou-se aos navios, e os dias que ali esteve, sempre foi visitado dele com muitos refrescos, que deu causa a ser também visitado de uns mouros que ali estavam do reino de Cambaia, em as naus que lhe tinham dito os mouros que tomou no zambuco.
Entre os quais vieram certos homens a que chamam Baneanes do mesmo gentio do reino de Cambaia, gente tão religiosa na seita de Pitágoras, que até a imundícia, que criam em si, não matam, nem comem cousa viva, dos quais copiosamente tratámos em a nossa “Geografia”. Estes, entrando em o navio de Vasco da Gama, e vendo na sua câmara uma imagem de Nossa Senhora em um retábulo de pincel, e que os nossos lhe faziam reverência, fizeram eles adoração com muito maior acatamento, e, como gente que se deleitava na vista daquela imagem, logo ao outro dia tomaram a ela, oferecendo-lhe cravo, pimenta, e outras mostras de especiaria das que vieram ali vender. E se foram contentes dos nossos pelo gasalhado que receberam e maneira de sua adoração, também eles ficaram satisfeitos do seu modo, parecendo-lhe ser aquela gente mostra de alguma Cristandade, que haveria na Índia do tempo de São Tomé, entre os quais vinham um mouro Guzarate de nação chamada Malemo Caná; o qual, assim pelo contentamento que teve da conversação dos nossos, como por comprazer a el-rei que buscava piloto para lhe dar, aceitou querer ir com eles.
Do saber do qual, Vasco da Gama depois que praticou com ele ficou muito contente, principalmente quando lhe mostrou uma carta de toda a costa da Índia arrumada ao modo dos mouros, que era em meridianos e paralelos mui miúdos sem outro rumo dos ventos. Porque, como o quadrado daqueles meridianos e paralelos era mui pequeno, ficava a costa por aqueles dois rumos de norte sul e leste oeste mui certa, sem ter aquela multiplicação de ventos, de agulha comum da nossa carta, que serve de raiz das outras. E amostrando-lhe Vasco da Gama o grande astrolábio de pau que levava, e outros de metal com que tomava a altura do sol, não se espantou o mouro disso; dizendo que alguns pilotos do Mar Roxo usavam de instrumentos de latão de figura triangular e quadrantes com que tomavam a altura do Sol, e principalmente da estrela de que se mais serviam em a navegação. Mas que ele e os mareantes de Cambaia e de toda a Índia, pero que a sua navegação era por certas estrelas assim do norte como do sul, e outras notáveis que cursavam por meio do céu de oriente a poente, não tomavam à sua distância por instrumentos semelháveis àqueles mas por outro de que se ele servia, o qual instrumento lhe trouxe logo amostrar, que era de três tábuas.
(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)