Qua 18 Jul 2007
No fim das quais palavras, sem mais esperar resposta, se recolheu para o Xeque, donde saiu uma grita, e trás ela começaram de chover setas: chegando-se aos batéis por fazerem melhor emprego, como quem ainda não tinha experimentado a fúria da nossa artilharia. A qual dos primeiros tiros que lhe Vasco da Gama mandou tirar, assim os castigou, que por detrás da ilha onde tinham os zambucos, se passaram a terra firme. Na qual passagem rodeando um dos nossos batéis a ilha para lhe defender o passo, tomou um zambuco carregado de fato, e de quanta gente ia nele, somente houveram à mão um mouro velho e dois negros da terra, porque toda a mais se salvou a nado. Desamparado o lugar por esta maneira, posto que Vasco da Gama lho pudera queimar, como sua tenção era assombrá-los para haver os pilotos e grumete que fugiu, não quis por aquela vez fazer mais dano que ficarem ante os pés do Xeque quatro ou cinco homens mortos de artilharia, que foi a causa de todos se porem em salvo.
Tornado aos navios fez logo por tormento perguntas ao mouro, do qual soube a causa daquela fugida, e o trato da terra, ouro de Çofala, especiaria da Índia, e que dali a Calecut segundo ouvira dizer seria caminho de um mês, e quatro aos poços para fazerem aguada, aqueles dois negros que eram naturais da terra podiam mui bem encaminhar a gente que lá houvesse de ir.
Sabidas estas cousas que foram para Vasco da Gama grande contentamento, por serem as mais certas que até então tinha sabido, antes que o Xeique mandasse pôr guarda nos poços, mandou logo aquela noite os batéis apercebidos de todo o necessário, levando consigo este mouro para falar aos negros e eles para encaminhar a gente ao lugar dos poços, onde chegaram com assaz trabalho por ser de noite, e por muito alagadiços, de maneira que quando tornaram era já alto dia.
(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)