Porém, porque a água se lhe ia gastando e havia já seis ou sete dias que era chegado, por conselho do mouro piloto que prometeu levar de noite a gente a lugar onde fizesse aguada, mandou com ele dois batéis armados a isso. E, ou que o mouro queria dar muitas voltas pela terra por onde os levou, porque nelas tivesse algum modo de escapulir da mão de quem o levava, ou que verdadeiramente se embaraçou por ser de noite, entre um grande arvoredo de mangues, nunca pôde dar com os poços que ele dizia, com que obrigou a Vasco da Gama mandar de dia a isso dois batéis mui bem armados, que, a pesar dos negros que a vinham defender, tomaram água.

E porque nesta ida fugiu a nado o mouro piloto e um negro grumete, ao seguinte dia com mão armada foi demandar à povoação, onde os mouros em um grande escampado, que estava ante ela e a praia, lhe deram mostra de até dois mil homens, recolhendo-se logo detrás de um reparo de madeira entulhado de terra, que fizeram naqueles dias. Vasco da Gama, vendo seu mau propósito, mandou fazer sinal de paz como que queria estar à fala por saber o que tinha neles, e acudindo a isso o mouro dos recados, começou ele de se queixar do que lhe era feito e da pouca verdade que lhe trataram tomando por conclusão, que não queria proceder no mais que mereciam as tais obras, que lhe mandassem entregar um negro que lhe fugira, e mais os pilotos que tinha pagos para aquela navegação, e com isto ficaria satisfeito.

O mouro sem outra palavra disse que ele tornaria logo com reposta, a qual foi que o Xeque estava muito mais escandalizado da sua gente, porque, querendo os seus folgar com ela em modo de festa, segundo uso da terra, ao tempo que iam buscar água, falaram com eles matando e ferindo alguns, e mais meteram-lhe um zambuco no fundo com muita fazenda, das quais cousas lhe havia de fazer emenda. E quanto aos pilotos ele não sabia parte deles por serem homens estrangeiros. que se lhe alguma cousa deviam bem podia mandar a terra homens que os fossem buscar, que a ele bastava-lhe tê-los enviado, e isto em tempo que lhe parecia ser ele capitão e os seus gente segura e que falava verdade, mas ao presente o que tinha entendido, era serem homens vadios que andavam roubando os portos do mar.

(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)