Neste tempo entre alguns mouros que vinham vender aos navios mantimentos, vieram três abexins da terra do Preste João. Os quais posto que seguissem o error dos mouros, como foram criados naquela maneira de religião e fé de Cristo que seus padres tinham, ainda que não conforme a igreja Romana, em vendo à imagem do anjo Gabriel, pintada em o navio do seu nome que era o de Vasco da Gama, como cousa nota a eles por em sua pátria haver muitas igrejas que em estas imagens dos anjos, e algumas do próprio nome, assentaram-se em giolhos e fizeram sua adoração. Quando o capitão soube deles serem de nação Abexim, cujo rei nestas partes era celebrado por Preste João das Índias, cousa a ele tão encomendada, começou de os inquirir por Fernão Martins, língua, os quais posto que entendiam o arábico, a muitas palavras não respondiam ao propósito, como que diferiam na língua, e doutras não davam razão, dizendo saírem de sua terra de tão pequena idade que não eram já lembrados. Os mouros como entenderam que o capitão folgava de falar com eles, pelo sinal que lhe viam da Cristandade, fizeram-se mui apressados para se tornar a terra, e quase por força levaram os abexins, e assim os esconderam que por muito que Vasco da Gama trabalhou por tornar a falar com eles, nunca mais os pôde haver.

Assim que por estes sinais e outras cautelas que usavam com ele, quis saber se tinha certo os pilotos que lhe prometeram, e mandou-os pedir ao Xeque. O qual, como tinha assentado o que esperava fazer, levemente lhe mandou dois mouros que acerca da navegação a seu modo praticaram bem, dos quais o capitão ficou contente e assentou com eles que por prémio de seu trabalho havia de dar a cada um valia de trinta metecaes douro peso da terra, que puderam ser até quatorze mil reais dos nossos, e mais uma marlota de grão. As quais cousas eles quiseram logo levar na mão, dizendo que não podiam doutra maneira partir, por quanto as haviam de leixar a suas mulheres para sua mantença.

(via http://www.nead.unama.br/bibliotecavirtual/livros/pdf/DecadasdaAsia.pdf)