Qui 7 Jun 2007
TRATADO DAS COUSAS DA CHINA (XIII)
Publicado por Leonel Vicente em Tratado das Cousas da China - Frei Gaspar da CruzComentários
Chamam comummente estes deuses Omistoffois. Oferecem-lhes incenso e benjoim, águila e outro pau que chamam caioláque, e outros cheiros. Também lhe[s] oferecem o chá, de que já dissemos acima. Todos têm oratórios e à entrada detrás das portas das casas, nos quais têm seus ídolos de vulto, aos quais todos os dias pela manhã e à noite oferecem incenso e outros cheiros. Têm por muitas partes, assim nas povoações como fora delas, templos de ídolos. Em todos os navios em que navegam, logo fazem nas popas lugar para seus oratórios, nos quais levam seus ídolos.
Em todas as coisas que hão-de cometer, ou caminhos por mar ou por terra, usam de sortes e lançam-nas diante dos seus ídolos. As sortes são de dois paus feitos ao modo de meia noz, chãos de uma banda e roliços da outra, e maiores outro tanto que meia noz, cozidos por um cordel. E quando querem lançar a sorte, falam primeiro com o seu deus, namorando-o com palavras e prometendo-lhe alguma oferta se lhe[s] der boa sorte e na boa sorte lhe[s] mostrar sua boa viagem ou bom sucesso de seu negócio. E depois de muitas palavras lançam as sortes, e se caiem ambas com o espalmado para cima, ou uma para cima e outra para baixo, têm-no por ruim sorte, e volvem-se contra os seus deuses muito melancólicos, chamando-o[s] de perro, cão e muitas outras injúrias. Depois que se enfadam de os injuriar, tornam com palavras brandas a afagá-los, e a lhe[s] pedir perdão, dizendo que a melancolia de lhe[s] não dar boa sorte lhe[s] causara fazerem-lhe[s] injúria e dizerem-lhe[s] palavras injuriosas. Mas que lhe[s] perdoem e lhe[s] queiram dar boa sorte, que lhe[s] prometem de lhe[s] oferecer mais tal coisa, porque as promessas são para proveito de quem as promete. Fazem muitos e grandes oferecimentos, e desta maneira tantas vezes lançam as sortes até que caem ambas com o espalmado para cima, que têm por boa-sorte. Então, ficando muito contentes, oferecem a seus deuses o que lhes prometeram.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)