Sem embargo das sobreditas leis, não deixam alguns chinas de navegar para fora da China a tratar; mas estes não tornam mais à China. Destes vivem alguns em Malaca, outros em Sião, outros em Patane, e assim por diversas partes do Sul estão espalhados alguns destes que saem sem licença. Pelo que destes que já vivem fora da China, alguns tornam em seus navios a navegar para a China debaixo do amparo dos portugueses. E quando hão-de despachar os direitos de seus navios, tomam um português seu amigo a quem dão algum interesse, para que em seu nome lhe despache os clientes. Alguns chinas, desejando ganhar o remédio para sua vida, saem mui escondidos nestes navios destes chinas a contratar fora, e tornam mui escondidos que o não saibam nem seus parentes, porque se não divulgue e não incorram na pena que os tais têm. Pôs-se esta lei porque achou el-rei da China que a muita comunicação das gentes de fora lhe podia ser causa dalguns alevantamentos, e porque muitos chinas, com achaque de navegarem para fora, se faziam ladrões e salteavam as terras de longo do mar. E nem com este resguardo deixa de haver muitos chinas ladrões ao longo da costa do mar. [...].

Os chinas que andavam entre os portugueses, e alguns portugueses com eles, vieram-se a desmandar, de maneira que começaram a fazer grandes furtos e roubos e [a] matar alguma gente. Foram os males em tanto crescimento e o clamor dos agravados foi tão grande, que chegou não somente aos loutiás grandes da província mas também a el-rei. O qual mandou logo fazer uma armada muito grossa na província de Funquem, para que lançasse todos os ladrões da costa, principalmente os que andavam em Liampó, e todos os mercadores, assim portugueses como chinas, entravam na conta dos ladrões. Fazendo-se prestes a armada, saiu-se ao longo da costa do mar. E porque os ventos lhe não serviam já para poder ir a Liampó, foram-se para a banda do Chincheo, onde achando navios de Portugueses começaram a pelejar com eles, e de nenhuma qualidade deixavam vir nenhuma fazenda aos portugueses. [...]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)