Capítulo II

Do que toca às mulheres, e de suas pessoas e costumes

1

Em Europa a suprema honra e riqueza das mulheres
moças é a pudicícia e o claustro inviolado
da sua pureza;
as mulheres de Japão nenhum caso fazem
da limpeza virginal nem perdem, pola não ter,
honra nem casamento.

2

As d’Europa se prezam e fazem muito por ter
os cabelos louros;
as Japoas os aborrecem e trabalham quanto podem
polos fazerem pretos.

3

As da Europa fazem suas espertaduras na testa;
as Japoas rapam as testas e encobrem a espertadura.

4

As de Europa perfumam os cabelos com cheiros
odoríferos;
as Japoas andam sempre fedendo ao azeite com que
os untam.

5

As de Europa raramente usam de cabelos estranhos
ajuntados aos seus;
as Japoas compram muitas cabeleiras que vêm
de veniaga da China.

6

As de Europa usam de muitos toucados pera
ornamento da cabeça;
as Japoas andam sempre em cabelo, e as fidalgas
com ele solto.

7

As de Europa os atam com nastros até baxo
entrançados;
as Japoas os atam com um pequeno de papel em um
só lugar detrás, ou os enrolam com um fio de papel
no meio da cabeça.[...]

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Europa/Japão - Um Diálogo Civilizacional no Século XVI”, Apres. de José Manuel Garcia; Fixação de texto e notas por Raffaella D’Intino, Lisboa, CNCDP, 1993)