8

Os vestidos dos homens antre nós não é cousa que
possa servir às mulheres;
os quimões e catabiras de Japão igualmente servem,
às mulheres e homens.

9

Os nossos vestidos são justos, estreitos e apertados
no corpo;
os de Japão tão largos que com facilidade e sem pejo
se despem logo da cinta pera riba.

10

Nós por causa dos botões e atacas não podemos
meter a mão no corpo facilmente;
os japões assi homens como mulheres, como não
têm nada disto, sempre, especialmente no Inverno,
trazem as mangas por fora caídas e as mãos dentro
no corpo.

11

Antre nós se veste o melhor vestido em cima
e o somenos debaxo;
os Japões o melhor debaxo e o somenos em riba.

29

Nós temos por descortesia não estar o servo em
pé quando o senhor está assentado;
e eles por mau ensino não se assentar também o
criado.

30

Nós usamos do preto por dó;
e os japões do branco.

31

Nós quando caminhamos alevantamos os vestidos
por diante pera os não sujar;
os Japões os alevantam tanto por detrás, que lhe fica
todo o norte descoberto.[…]

37

Nós entramos nas casas calçados;
em Japão é descortesia e hão-de deixar
os sapatos à porta.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Europa/Japão – Um Diálogo Civilizacional no Século XVI”, Apres. de José Manuel Garcia; Fixação de texto e notas por Raffaella D’Intino, Lisboa, CNCDP, 1993)