Aos 12 do mes em quarta feira tomey o sol e fiquey em 27 graos. O vento foy nornordeste fresco, a proa a leste e quarta do sueste. Dey a nao o caminho a lessueste, dando lhe somente o abatimento da nao, ouve de noite alguns augaçeiros de pouca agoa com os quaes antes que chegue lhe amainamos a vella da gavea, asim por a nao aguardar mal como por não termos gente, e por esse respeito vamos sem monettas e com a vella da gavea grande so dada e sevadeira e da proa tomada, por não aver gente pera acudir a tanto. O mar vem todos estes dias feito de leste com que a nau trabalha, e do sul vem huma vaga de mar larga que crusa como de leste, e asim anda o mar cruzado. O tempo esta claro mas com muitos ceos grosos brancos que oje se alevanttarão. Vou com este vento em quanto esta pello nornordeste a leste e quarta do sueste, por a nao fazer o caminho de lessueste porque lhe não dou por aquy abatimento da agulha. Oje metemos traquette novo e pera levarmos verga asima não avia gente. Louvores a Nosso Senhor que asim he servido porque vamos todos doentes, e o menos homem que vay nesta naao foy sangrado sinco ou seis vezes, tirando lhe de cada vez hum quartilho e meyo de sange, e despois que se lhe vay a febre tornão a recair muitas veses e ficão tão fracos que não ha poderem tornar a sy, nem ha com que he tanto o dezamparo, que de lastima vejo que vay nesta nao, porque ja não ha per cair de 400 pesoas que nella vão mais que doze pesoas, e he tanto que não ha quem va ao fogão fazer hum bocado pera remedear os mais fracos, e ha 20 dias que ando em a dieta e tenho todos os meus em cama sem nos poder remedear. Lembre sse Nosso Senhor de nos e a Virgem do Rozairo Madre de Deos..

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)