Usam de cabelo comprido como mulheres, o qual trazem bem pensado e o penteiam cada dia muitas vezes. Trazem-no atado no cume da cabeça e o nó atravessado com um prego de prata comprido e delgado. Os que não são casados, a saber, mancebos solteiros, trazem por divisa apartadura na fronte mui bem feita; o barrete ficalhe[s] por cima dela, para que fique descoberta. Têm idolatria no cabelo e por isso o cria[m] tão comprido, tendo que por ele hão-de ser levados ao céu.

Os sacerdotes comuns não criam cabelo, mas andam rapados, porque dizem que não hão mister ajuda que os leve ao céu. Todavia, entre eles alguns sacerdotes do templo de  ídolos – que entre os chinas são mais reverenciados que os outros -, estes criam cabelo e trazem-no no cume da cabeça arrematado com um pau muito bem feito a modo de mão fechada, envernizado de muito bom verniz, que chamam acharão. E estes sacerdotes trazem pelote preto, trazendo os outros pelote branco.

São homens os chinas mui corteses. A cortesia comum é: cerrada a mão esquerda, fecham-na na direita e chegam e arredam amiúde as mãos ao peito, mostrando que têm um a outro fechado no coração. E a este movimento de mãos ajuntam palavras de cortesia, ainda que as palavras de gente comum é dizer um a outro, chifá mesão, que quer dizer “comestes ou não”, que todo seu bem nesta vida se resolve em comer. As cortesias particulares entre homens que tem algum primor e que há dias que se não viram são: arcados os braços, travados os dedos das mãos uns nos outros, se abaixam e estão com grandes palavras de cortesia, cada um trabalhando de dar a mão ao outro para que primeiro se alevante. E quanto mais honrados são, mais se detêm nestas cortesias. A gente honrada e nobre usa também à mesa de muitas cortesias, dando um de beber ao outro, e cada um trabalha de dar a mão ao outro no beber, porque à mesa não há outro serviço senão o do beber.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)