Nenhuma coisa há na terra que deixem perder, por vil que seja. Porque os ossos, assim de cães como de todos os animais, aproveitam, fazendo deles brincos e lavrados em lugar de marfim; assentam-nos em mesas, leitos e noutras coisas de galantarias. Não se lhe[s] perde trapo de nenhuma qualidade, porque assim dos delgados como dos grossos, que não sejam de lã, fazem papel grosso e delgado. E fazem papel de cascas das árvores e de canas e de panos de seda, e no de seda escrevem; o demais serve-lhe[s] para enrolar entre as peças de seda.

Até o esterco do homem aproveitam e é comprado por dinheiro, ou a troco de hortaliça, e o levam das casas; de maneira que eles dão dinheiro, ou coisa que o valha, por lhe[s] deixarem limpar as privadas. Ainda que cheira mal pela cidade quando o levam às costas, por evitar o mal cheiro o levam em selhas muito limpas por fora; e posto que vão descobertas, todavia parece que é limpeza das terras e cidades. Em algumas cidades se usa irem estas selhas cobertas por não dar nojo. Serve-lhe este esterco para estercarem as hortas, e dizem que com ele cresce a hortaliça a olho. Misturam-no com terra e curam-no ao sol, e assim se servem dele. Usam em tudo mais de engenho que de força, pelo que com um boi lavram, fazendo o arado de tal engenho que corta bem a terra, ainda que não são os regos tamanhos como entre nós.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)