De Champá, que, como dissemos, confina com Chauchinchina, até toda a Índia há muitas terras desaproveitadas e feitas brenhas e matos, e são geralmente os homens pouco curiosos de ganhar e juntar, porque não ganham tanto que mais lhe[s] não tiranizem, o que têm somente é seu enquanto el-rei quer e não mais. De maneira que, como os reis sabem que algum seu oficial tem muito dinheiro, o mandam prender e tratar tão mal até que lhe faz[em] arrevesar quanto tem ajuntado. Pelo que há muitos naquelas partes que, se ganham um dia ou semana algumas moedas, não hão-de trabalhar até que não consumam e gastem tudo o que têm ganhado em comer e beber, e fazem-no porque se acertar de vir alguma tirania não achem que lhe[s] tomar. Daqui vem, como digo, haver na Índia muitas terras por muitas partes desaproveitadas, o que não é na China, porque cada um se goza do fruto de seu trabalho.

Daqui vem que toda a terra que na China pode dar qualquer género de fruta recebendo semente é aproveitada. Os altos, que não são tão bons para pão, têm mui formosos pinhais, semeando[-se] ainda por entre eles alguns legumes onde pode ser. Nas terras enxutas e tesas semeiam trigo e legumes. Nas várzeas, que são alagadiças, que são muitas e mui compridas, semeiam arroz, e dão algumas destas várzeas duas e três novidades no ano. Só as serras altas que são cortadas dos tempos e não são dispostas para se plantarem ficam desaproveitadas.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)