Ter 22 Mai 2007
TRATADO DAS COUSAS DA CHINA (I)
Publicado por Leonel Vicente em Tratado das Cousas da China - Frei Gaspar da CruzComentários
É a China terra quase toda mui bem aproveitada, porque, como a terra seja muito povoada, a gente muito em demasia e os homens gastadores – e tratando-se muito bem no comer e beber e vestir e no demais serviço de suas casas, principalmente, que são muito comedores -, cada um trabalha de buscar vida e todos buscam diversos modos e maneiras de ganhar de comer e como sustentarem seus grandes gastos. Faz ajuda muito a isto ser a gente ociosa nesta terra muito aborrecida e mui odiosa aos demais, e quem o não trabalhar não no comerá, porque comummente não há quem dê esmola a pobre. Pelo que se acertava algum pobre de pedir esmola a algum português e o português lha dava, riam-se os chinas dele, e zombando diziam: “Para que dás esmola a este que é velhaco? Vão ganhar!”
Somente alguns chocarreiros recebem prémio, [quando] subindo-se nalgum alto ajuntam gente e põem-se a contar patranhas para que lhe[s] dêem alguma coisa. Os padres e seus sacerdotes dos seus ídolos comummente são aborrecidos e desestimados, pelos terem por gente perdida e ociosa, donde os regedores não lhe[s] perdoam, mas por qualquer leve culpa lhe[s] dão muito açoite. Pelo que açoitando uma vez um regedor, diante [de] um português, um sacerdote seu, e o português dizendo-lhe porque tratava tão mal os seus padres e os tinham em tão pouco estima, respondeu-lhe: “Estes são velhacos ociosos e perdidos”.
(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 – a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)