Maio 2007


Aos 29 do mes em quinta feira não tomey o sol por estar doente. O vento foi leste e tomava do sueste as veses; a proa foi sempre esta noite athe oje ao meo dia ao sul e quarta do sueste e a sueste franco, ontem a tarde era ainda escaso e não chegava ao sul. Eu lhe dey o caminho hum per outro ao susudueste a nao 23 legoas. O vento ventou bem e a noite estava clara, oje de dia esta o tempo e muitos çeos grosos e de ma feição, e pello meo dia veyo o vento de lufada e berbosão ventando muito; o mar vem ainda feito de lessueste. Fico 13 graos menos 1/6. Vou enfadado deste vento nos não querer largar nem estes ceos grosos e parede que se nos arma de ceos ao sueste de contino não querer deixar largar o ventto; esta tarde a grandes salseiros de vento que nos vem de borbotão com çeos que se alevantão, e a proa com ella não pode ter mais que ao sul ora mais ora menos, e o mar anda muito feito e estrampalhado com que a nao trabalha muito, e o vento he pezado que nos faz amainar as vellas da gavea. Nosso Senhor dos de boa viagem e a Virgem do Rozairo Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

Capítulo XIII

Dos Trajos e usos dos homens.

Ainda que os chinas comummente sejam feios, tendo olhos pequenos e rostos e narizes esmagados, e sejam desbarbados, com uns cabelinhos nas maçãs da barba, todavia se acham alguns que têm os rostos mui bem feitos e proporcionados, com olhos grandes, barbas bem postas, narizes bem feitos. Mas destes são muito poucos, e pode ser que sejam de outras nações nos tempos antigos entremetidas nos chinas, em tempo que eles comunicavam diversas gentes.

Seu trajo comum é pelotes de pregas compridos ao nosso bom modo antigo; dão volta por cima do peito, atando-se na ilharga, e todos em geral usam nos pelotes mangas muito largas. Trazem comummente pelotes pretos de linho ou de sarja fina ou grossa de diversas cores; alguns trazem pelotes de seda, muitos os usam nas festas de seda; e os regedores comummente vestem sarja fina, e nas festas usam de sedas ricas, principalmente de carmesim, o qual na terra ninguém pode trazer senão eles. A gente pobre comummente traz pelote de linho branco, porque custa pouco. Na cabeça trazem um barrete alto e redondo feito de varinhas muito finas sobretecidas de seda preta mui bem feito.

Usam de meias[s] calça[s] de pear inteiro, as quais são mui bem feitas e pespontadas. E trazem botas ou sapatos segundo a curiosidade ou possibilidade de cada um, ou de seda ou de couro. No Inverno trazem meias calças de feltro, ou grossas ou delgadas, mas o pano é feito de feltro. Também usam no Inverno de vestidos forrados de martas, principalmente ao redor do pescoço. Usam também de cabaias acolchoadas, e alguns usam de cabaias de feltro no Inverno, debaixo do pelote.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)

D. Afonso IVD. Afonso IV, o “Bravo”, nasceu em Coimbra (ou Lisboa) em 1291, vindo a falecer a 28 de Maio de 1357; foi o 7º Rei de Portugal, com um longo reinado, entre 1325 e 1357.

Filho de D. Dinis e de D. Isabel de Aragão (a “Rainha Santa”), teve como mestre responsável pela sua educação D. Martinho (ou Martim) de Oliveira, arcebispo de Braga; desconhecendo-se contudo o conteúdo da sua formação, inclusivamente se saberia ler ou escrever.

A sua vida ficou marcada por disputas familiares, desde logo com o próprio pai, provocando uma guerra civil - que se prolongou de 1319 a 1324 - liderando a revolta dos nobres face à política centralizadora do Rei, ao mesmo tempo que procurava afirmar a sua posição face ao filho bastardo de D. Dinis, Afonso Sanches, alegadamente favorecido pelo Rei (então com a Rainha Santa a fazer a “mediação”).

Pouco depois de ascender ao trono, teria novo confronto, desta vez com um forte ataque desencadeado contra o referido meio-irmão, Afonso Sanches, obrigando a nova intervenção de D. Isabel. Em 1326, também outro seu meio-irmão, João Afonso, seria condenado à morte, por alegada traição.

Cerca de 1336, o conflito seria com Castela; a sua filha D. Maria havia casado com Afonso XI de Castela, mas este viria a desprezá-la, em desfavor de Leonor de Gusmão. D. Afonso IV viria a intervir na relação entre a filha e o genro, acabando por provocar uma guerra entre os dois países.

Em 1340 (a 30 de Outubro - já ultrapassado o anterior conflito) viria a enfrentar - a solicitação do Rei de Castela - os mouros, na Batalha do Salado (nas margens do Rio Salado, na região de Tarifa, Espanha, próximo do estreito de Gibraltar), defrontando (integrando uma coligação de exércitos cristãos composta por castelhanos, portugueses e aragoneses) o rei islâmico de Granada, batalha em que, assumindo um papel determinante na derrota da última grande tentativa de invasão muçulmana da península Ibérica, terá adquirido o cognome de “Bravo”.

O ciclo inaugurado pela vitória cristã na Batalha do Salado teria continuidade em 1341, com Afonso IV a enviar uma esquadra naval de 10 galés, comandadas pelo Almirante Manuel Pessanha (genovês contratado no reinado de D. Dinis), juntando-se à frota castelhana no Estreito de Gibraltar.

Viria ainda a ter desentendimentos com o filho, e príncipe herdeiro, D. Pedro, quando, em 1355, sentenciou a morte da sua apaixonada, a galega Inês de Castro, o que provocaria uma rebelião militar por parte do filho, neste caso com a rainha D. Beatriz a apaziguar o conflito.

Não obstante as inúmeras disputas, o seu reinado ficaria também marcado pelo impulsionar do desenvolvimento da Marinha - inicialmente como forma de fazer face ao perigo muçulmano, mas também com motivações comerciais, articulando duas grandes áreas do comércio internacional, a mediterrânica e a atlântica, com produções complementares -, com as primeiras viagens às ilhas Canárias, tornando-se precursor dos Descobrimentos.

Conseguiria implementar uma boa organização e administração interna, com reforço do poder régio nas áreas da justiça e administração, tendo também institucionalizado os corregedores ou juízes de fora (externos às terras onde tinham a missão de aplicar a justiça, visando assegurar maior imparcialidade).

Nos últimos anos do seu reinado, a peste negra (1348) viria a deixar o país numa profunda crise social e económica.

(Imagem via Wikipédia)

Bibliografia consultada

- “História de Portugal - Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004

- “D. Afonso IV”, por Bernardo Vasconcelos e Sousa, colecção Reis de Portugal, edição do Círculo de Leitores, em colaboração com o Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica Portuguesa, 2005

“Diogo de Teive descobre as ilhas açorianas de Flores e Corvo”.

(in suplemento da Revista Visão nº 371 - Abril de 2000)

Aos 28 do mes em quarta feira tomey o sol e fiquey em 11 graos e 2/3. O vento foi lessueste muito ventante e com muitos chuveiros de noite; a proa foi ao sul ora cardeando ora em cheo e as veses tocava a quartta do sueste, e o mar he muito groso e a nao ariba muito que com yr sem sevadeira nem vella da gavea de proa nem monetta do traquete ainda ariba. Eu dey a nao o caminho hum per outro a quarta do sul a metade e a outtra ametade ao susudueste. Andou a nao 24 legoas e de todo este caminho lhe vendo dando duas quarttas e mea e as veses tres d’abatimento, pello que muito que arola a não por ser muito curta, com que vou enfadado muito mais com este vento nos não querer largar, porque nesta paragem ha sempre leste e lesnordeste e elle não nos faz nunca de llessueste e com mar grosso e com muitos achuveiros e muito serados, como a lua say que não apareces senão nuvens serradas. Eu estou oje pello ponto que trago d’agulha da mais chegada terra de minha altura que he RioReal 95 legoas e pello ponto 125 legoas, mas eu estou com agulha e em me ser a nao a terra per muito que julaventaea. Lembre ce Nosso Senhor de nos e a Virgem do Remedio Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

[...]

Usam também os chinas de bonifrates, com os quais fazem representações por engenhos, como em Portugal os trouxeram alguns estrangeiros para ganharem dinheiro; e para o mesmo fim de ganhar dinheiro os usam os chinas. Criam rouxinóis e ensinam-nos a fazer representações, com diversas maneiras de vestidos de homens e de mulheres, e fazem jeitos e trejeitos muito para folgar de ver. Só este género de pássaros criam em gaiolas mui bem feitas para cantarem, e têm comummente macho e fêmea em diversas gaiolas. E para cantarem apartam o macho da fêmea, de maneira que se sintam mas não se vejam; e assim se desfaz o macho em música, e cantam todo o ano. Eu tive dois, macho e fêmea, e em Dezembro cantavam como que fora em Abril. Sustentam-nos com arroz cozido envolto em uma gema de ovo, tamalavez sobre o seco, que se fiquem enganando, parecendolhe[s] bichinhos. Disse acima que se não dava esmola nesta terra a pobres, e porque poderão alguns perguntar que remédio tinham os pobres que não podem ganhar de comer por serem entrevados, aleijados ou cegos, pareceu-me bem satisfazê-los. É coisa digna de notar que aos cegos lhe[s] ordenam vida de trabalho em que ganham de comer, que é servirem em lugar de mulas d’atafona moendo trigo. E comummente, onde há atafona, há duas, porque andando dois cegos, em cada uma um, se desenfadem em praticar um com outro, como os eu vi andaram à roda com abanos nas mãos, abanando-se e amigavelmente praticando. As cegas servem de mulheres de partido e têm aias que as enfeitam e lhe[s] põem arrebique e alvaiade e lhe arrecadam o preço de seu mau uso. Desta maneira remedeiam a vida aos cegos.

(via “História e Antologia da Literatura Portuguesa – Século XVI – Literatura de Viagens – II” – Fundação Calouste Gulbenkian, Boletim nº 23, Dezembro de 2002 - a partir de “Tratado das Coisas da China”, Introd., modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Edições Cotovia, 1997)

Aos 27 do mes em terça feira tomey o sol e fiquey em 10 graos e 1/3 largos. O vento foi lessueste fresco e ainda com alguns augaceiros, esta noite a proa foi sempre ao rededor do sul, ora cordeava, ora ia em cheo a quartta do sudueste, e oje de menhã deu de sy o vento e se fez leste e tomava de nordeste, mas não durou muito que não escasease e ora se faz lessueste ora leste. Eu dey a nao o caminho hum per outro e porque a nao ariba muito com o mar que he groso de sueste a metade a quarta do sul e a outra metade pela meya partida do susudueste, andou a não 20 legoas. Vamos todos estes dias sem sevadeira nem vella da gavea de proa pelo muito que a nao arriba, e sem monetta do traquete; esta menhã por o ventto se fazer leste, dey a vella da gavea de proa. O tempo esta de ma feição com çeos grosos e brancos recolhados e corem huma parede delles todos estes dias athe ao sul, por onde nos não deixa largar o ventto, e como o ventto venta muito, vem de lufadas, logo se faz lessueste e o mar não se quer lancar que me faz abatter muito a nao, e eu vou bem enfadado com este tempo não nos querer deixar e alargar o vento, porque a nao he ruim de bolina, arola muito e tem muito abatimento, e me vou chegando a costa. Lembre sse Nosso Senhor de nos e nos de o que avemos mister e a Virgem do Rozairo Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

Aos 26 do mes em segunda feira tomey o sol e fiquey em 9 graos e 1/3. O vento foi lessueste e de noite toda ouve muitos chuveiros muito serrados de muita aguoa e muito vento que athe a meia noite fomos amainando e ysando a vella da gavea muitas veses, e vierão algus tam pesados que nos fizerão ariar a esta grande e aribar com a nao alguas veses, e não avia outra cousa senão chuveiro, ora se armava outro de huma parede de ceos grosos e brancos reconchados que ontem se armarão ao sueste; tomamos a vella da gavea e a metemos dentro no quarto da modora pella noite estar de muito ma feição e aver estes chuveiros. E porque não temos gente nenhuma de mar, que não ha dose pesoas que andem em pe, e assim fomos com a papafigos athe pola menhã, que o tempo clareou mas ventando muito que parecia fogo e com grande mar que se fez com o vento e chuveiros que me fazem aribar a nao muito, e vou muito enfadado porque não basta ser o vento lessueste e senão que a nao me ariba muito e julaventea muito e faz muito ruim esteira que, como he curta, em lhe dando o mar a leva logo toda aribada. Em toda esta sagradura a nao pos a proa ora ao sul e a quarta do sudueste e ao susudueste e a quarta do sul, e ainda cuido que me abate mais do que vou mais enfadado, andou a nao 16 legoas ver que agulha que me mostra estar a julavento. O tempo esta esta tarde muito ventante lessueste e o mar groso, a proa não pode ir mais que a sul e quarta do sudueste, e com ir sem sevadeira nem vella da gavea de proa nem moneta do traquete e levar mezena e vella da gavea grande, ainda a nao ariba muito. Lembre ce Nosso Senhor de nos e a Virgem do Rozairo Madre de Deos.

(via “Uma Viagem Redonda da Carreira da Índia (1597-1598)”, de Joaquim Rebelo Vaz Monteiro, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985)

Navegador (século XVI). D. João II encarregou-o de uma viagem de exploração ao interior da África, aproveitando as rotas comerciais através do Sara e do Sudão. Acompanhado por Pêro de Évora partiu em 1487, tendo chegado a Tekrur e a Tombuctu.

(via “História de Portugal – Dicionário de Personalidades” (coordenação de José Hermano Saraiva), edição QuidNovi, 2004)

“Numa breve guerra civil, D. Pedro é afastado e morto pelas tropas reais (batalha de Alfarrobeira)”.

(in suplemento da Revista Visão nº 371 - Abril de 2000)

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