“Vasco, que sentia cada vez mais pesar sobre si a sombra do capitão Dias, hesitou ainda. Reuniu os seus capitães e o mestre piloto, Pêro de Alenquer. Uma angústia surda esmagava os homens. Cabisbaixo, o capitão fez, friamente, a sua autocensura:

– Subestimei duas dificuldades maiores. O desconhecimento deste oceano, que se revela obstinadamente refractário para com aqueles que ignoram as suas leis. E a hostilidade das populações muçulmanas, que aumenta à medida das nossas reacções violentas. Quando tivermos esvaziado os nossos paióis de pólvora, estaremos à sua mercê.

Hesitou, soltando depois, numa voz surda:

– A menos que rumemos ao largo?

Com o olhar, interrogou o mestre piloto que ficou perturbado:

– Afinal de contas, não saberei aconselhá-lo a arriscar-se em pleno oceano sem um piloto familiarizado com estas costas e com o regime da monção. O risco é demasiado grande.

Vasco voltou-se para Ramos, que assistia à conversa.

– Onde encontrar nesta costa um piloto que não nos atraiçoe?

– Os pilotos estão nos portos, capitão. E portos não faltam, subindo para norte: Kilwa, Mombaça, Melinde, Mogadíscio. Mas todos os pilotos estão enfeudados aos árabes, aos turcos ou aos persas, que colonizaram este litoral, aí criando pequenos sultanatos teocráticos.

– Os ventos continuam a soprar de nordeste – retomou Pêro de Alenquer. – E as correntes também nos são contrárias. É difícil subir a costa. É, no entanto, a opinião que sugiro, até se encontrar um piloto de alto mar e água em abundância. Senão…

– Senão?

– Senão, será preciso abandonar a empresa e ordenar o regresso.

De novo, a sombra fatal de Bartolomeu Dias surgiu diante do capitão-mor. Sentia-se encurralado. O que podiam as suas tripulações esgotadas contra a coligação muçulmana dona destas costas? E que podiam eles contra este oceano cujas leis lhes eram desconhecidas, os seus ventos, as suas correntes? Via-se reproduzir a cena em que o capitão Dias renunciara. Mas ele, Vasco da Gama, possuía essa pugnacidade que nada detém. Mais as dificuldades aumentavam e mais ele se sentia ele próprio, o capitão-mor! A alta figura do rei D. Manuel I impôs-lhe. «Avança ao largo!» Com uma raiva contida, onde entrava um imenso orgulho, exclamou:

– Dar meia volta? Nunca! Antes morrer ao largo!”

“O Segredo da Índia – A Viagem de Vasco da Gama” (romance), de Jean-Jacques Antier, edição “A Esfera dos Livros”, Fevereiro de 2007, pp. 168, 169